Débora Falabella, Yara de Novaes e Ary França em Love, Love, Love (Foto: Leekyung Kim)
O Grupo 3 de Teatro retoma a dramaturgia do britânico Mike Bartlett depois da bem-sucedida experiência de Contrações. Em Love, Love, Love – montagem de Eric Lenate que encerra temporada no próximo domingo, no Oi Futuro/Flamengo –, o autor frisa a conexão entre os personagens e seus momentos históricos. A ação é dividida em três épocas: 1967, na noite da primeira transmissão ao vivo de TV via satélite com os Beatles cantando All You Need is Love; início da década de 1990; e 2014. Como o mundo, os personagens, integrantes de uma mesma família, adquirem condutas menos libertárias com o correr dos anos, seja por abrirem mão de um modo de vida transgressor pela segurança financeira, seja por buscarem desde o princípio o enquadramento no sistema.
Na primeira parte, três jovens aparecem vivendo intensamente o instante; na segunda, dois deles ressurgem como pais de dois adolescentes e o quadro familiar disfuncional fica evidente, em especial devido à postura leviana e ácida da mãe, pouco preocupada com o estado emocional dos filhos; e na terceira, a situação dos filhos, já crescidos, se agravou e os pais viraram representantes de uma aristocracia agonizante. Esse último “ato” sugere uma interessante inversão de valores: a filha questiona a permissividade dos pais por não terem reprimido sua opção por uma carreira artística sem estabilidade, ao invés de direcioná-la para profissões mais sintonizadas com o pragmatismo do século XXI. Entre cada uma das partes há uma elipse e os personagens voltam transformados. Uma encenação de Love, Love, Love deve cumprir um importante desafio lançado pelo texto – o de tornar críveis essas transições, frequentemente abruptas. Esse objetivo é atingido, com exceção talvez da passagem da moça entrosada com o espírito hippie da primeira parte para a mãe consumista da segunda, por mais que o mundo tenha caminhado nesse sentido.
As mudanças decorrentes do curso do tempo são condensadas na cenografia de André Cortez, que resume variações comportamentais por meio das alterações realizadas num sofá e numa visualidade cada vez menos caótica e mais asséptica. Os figurinos de Fabio Namatame também resumem os perfis dos personagens através de trajes exuberantes, decadentes ou apagados. A trilha sonora de L.P. Daniel traz à tona as atmosferas dos períodos abordados, aproximando o contexto inglês do brasileiro. Eric Lenate extrai ótimos desempenhos do elenco (formado por Ary França, Débora Falabella, Mateus Monteiro, Rafael Primot e Yara de Novaes), com destaque para Novaes, que imprime modulações às falas ferinas da mãe e não incorre na armadilha do exagero, Falabella, que transita com fluência entre a composição da adolescente do segundo “módulo” (apreciável trabalho de voz) e o naturalismo da frustrada mulher do terceiro, outro estágio da mesma personagem, e Primot, que reafirma sua habilidade em construções acentuadas, mas dotadas de organicidade.
Deborah Evelyn é Amanda em Fluxorama (Foto: André Gardenberg)
Reunião de solos escritos por Jô Bilac, Fluxorama foi encenado anteriormente com proposta diversa, na qual atores (Inez Viana, Rita Clemente e Vinicius Arneiro) dirigiam uns aos outros. A nova montagem, em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), ganhou o acréscimo de mais um monólogo (Medusa) aos três já existentes (Amanda, Luiz Guilherme e Valquíria) e é assinada por uma única diretora – Monique Gardenberg – que conduz quatro atores – Deborah Evelyn, Emílio de Mello, Luiz Henrique Nogueira e Marjorie Estiano (os dois primeiros entraram no lugar de Juliana Galdino e Caco Ciocler, que fizeram a temporada paulistana).
Bilac parece ter se inspirado ao longe no irlandês Samuel Beckett. O otimismo da Winnie de Dias Felizes, inquebrantável apesar dos movimentos cada vez mais reprimidos devido ao corpo paulatinamente soterrado, vem à tona na jornada de Amanda. Talvez pela perspectiva concreta da morte diante dos crescentes impedimentos físicos, ela procura manter contato, nem sempre entusiasmado, com aqueles que a rodeiam, com tudo o que resta. A perda gradual dos sentidos estimula a sua imaginação, a invenção de uma realidade paralela.
Luiz Guilherme, mais do que se opor à finitude, recusa-se a morrer deprimido. Ele sofreu um grave acidente de carro. Imobilizado e ferido dentro do automóvel, tenta não se desesperar. Para tanto, adota postura, até certo ponto, racional por meio da enumeração dos afazeres do cotidiano. Não consegue, porém, deixar de lembrar de um relacionamento intenso.
A derrocada do controle decorrente da exaustão da maratonista Valquíria, manifestada através da expressão de palavras desconexas, evoca o monólogo ininteligível de Lucky em Esperando Godot ou a desarticulação entre o movimento da boca e o pensamento em Eu Não. Em Medusa, o personagem também demonstra dificuldade para domar o fluxo de pensamento. Afinal, não atinge concentração suficiente para abstrair os ruídos externos (e internos) em momento de meditação.
A maioria dos personagens se torna menos inteligível à medida que os solos avançam. A desconexão não está presente “apenas” nos discursos, mas na própria forma da escrita (o programa do espetáculo reúne as quatro pequenas peças), que valoriza as reticências em detrimento de estruturas mais conclusivas. Com exceção de Amanda, a construção dramatúrgica que soa mais sólida, os textos de Fluxorama evidenciam um grau de dispersão que pode afastar o espectador. Contudo, a dispersão é uma espécie de defesa dos personagens diante do confronto com a morte ou, pelo menos, com situações extremadas.
Centrados em corpos levados ao limite, os textos de Bilac oferecem desafios interessantes e contrastantes aos atores, em especial no que se refere à inação de Luiz Guilherme, personagem de Luiz Henrique Nogueira, e à corrida sem trégua de Valquíria, papel destinado a Marjorie Estiano. Deborah Evelyn dosa com habilidade as gradações emocionais em Amanda e Emílio de Mello comprova seu domínio interpretativo em Medusa.
Monique Gardenberg imprime bom acabamento ao espetáculo, a julgar pelas projeções da cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara (com coordenação de Camila Schmidt) que contextualizam de maneira detalhada as histórias (a sala em Amanda, a floresta em Luiz Guilherme, as ruas de São Paulo, à noite, em Valquíria e o banheiro em Medusa), pelos figurinos de Cassio Brasil, adequados aos perfis e às circunstâncias dos personagens, pela iluminação, a cargo da diretora, reveladora de variações sutis, e pela música de Philip Glass, que emoldura a cena.
Taís Araujo e Lázaro Ramos em O Topo da Montanha (Foto: Juliana Hilal)
Peça da dramaturga norte-americana Katori Hall centrada no encontro entre o ativista político Martin Luther King, logo antes de sua morte, e a camareira Camae durante uma noite num hotel de Memphis, O Topo da Montanha segue a gramática do realismo para subvertê-la a partir do momento em que a verdadeira identidade da personagem feminina é revelada. A montagem dirigida por Lázaro Ramos (com codireção de Fernando Philbert), que encerra temporada no próximo domingo no Sesc Ginástico, realça, por meio de determinados mecanismos, essa transição do texto.
A cenografia de André Cortez, que insere o quarto de King dentro de uma moldura, ilustra bem essa integração. O quarto surge disposto num plano suspenso, numa espécie de palco sobre palco, pouco intimista devido à distância em relação ao público. Ao invés do ambiente tomar conta do palco imprimindo no espectador a sensação de realidade, o formato de quadro evidencia o caráter cenográfico, teatral. Quando o texto explode com o realismo, o cenário rompe com as delimitações de sua estrutura e se amplia. A iluminação de Valmyr Ferreira também sublinha transições da peça e as diferenças de registro – aberta nas passagens cômicas, recortando a figura de King/Lázaro nos discursos contundentes realizados de frente para a plateia –, além de injetar cor na neutralidade do cenário. Nesse sentido, o espetáculo expõe movimentos da dramaturgia de modo, até certo ponto, previsível.
Ao “obedecer” a peça, a montagem chama atenção para procedimentos empregados pela autora com resultado questionável, como a já mencionada ruptura do realismo (o problema não reside na proposta em si, e sim no encaminhamento dado à Camae) e a aposta em humor popular que passa a contrastar com a identidade dela. Os figurinos de Tereza Nabuco reforçam a oposição entre o político e a camareira através de roupa mais sóbria para ele e mais colorida para ela. Lázaro Ramos e Taís Araujo potencializam as principais características de seus personagens. Mas o ator valoriza oportunos e surpreendentes, apesar de breves, instantes de humor, na primeira metade. A atriz procura comunicabilidade mais direta com o público por meio das tiradas cotidianas que se opõem ao extremismo da situação. Ambos apresentam uma contracena fluente, conduzindo o espetáculo com segurança.
Mesmo reiterando, em algum grau, a dramaturgia, a montagem abre espaço para a sutileza – na trilha sonora de Wladimir Pinheiro, que fornece acompanhamento suave e constante – e para a autoria – nas projeções de Rico e Renato Vilarouca, em especial nas exibidas próximas ao final do espetáculo, estampando no palco diversas personalidades e iniciativas que contribuíram de maneira fundamental para a denúncia da violenta discriminação sofrida pelos negros. A encenação de O Topo da Montanha presta uma importante e justa homenagem, transcendendo – mas sem minimizar – o contexto histórico específico que aborda.
Cena de Mateus, 10, espetáculo do grupo Tablados de Arruar (Foto: Otávio Dantas)
A companhia paulistana Tablados de Arruar apresentou ao público do Rio de Janeiro repertório composto pela encenação de Mateus, 10 e pela Trilogia Abnegação (Abnegação I, Abnegação II – O Começo do Fim, Abnegação III – Restos). Trata-se de uma importante iniciativa do Espaço Sesc, onde os espetáculos foram mostrados, na medida em que o intercâmbio entre trabalhos de grupos teatrais de cidades distintas muitas vezes não ocorre. Vale lembrar que o Sesc também trouxe recentemente, de São Paulo, a encenação de Cais ou Da Indiferença das Embarcações, da Velha Cia.
Há em Mateus, 10, montagem anterior à Trilogia Abnegação, um certo questionamento do conceito de interioridade a partir da jornada do pastor Otávio, que se tornou mais pragmático que espiritualizado. Na dramaturgia de Alexandre Dal Farra, o pastor externa seu desapego pela interioridade, definida com frequência como espaço depositário das emoções, da essência de cada indivíduo, oposta à aparência, normalmente entendida como embalagem, como uma espécie de capa enganadora e sedutora. O pastor parece desconfiar desse jogo de contrastes, mas se fixa na literalidade da aparência sem chegar a percebê-la como instância reveladora. Nesse sentido, o dinheiro tem que estar limpo. As notas poluídas precisam ser descartadas. O frango que ele rejeita no jantar deve apodrecer. A preocupação com a aparência se manifesta ainda no creme para pele vendido pela esposa do pastor – creme, porém, que a própria vendedora não usa.
O espetáculo dirigido por Dal Farra e João Otávio é dividido em três partes realçadas por mudanças na disposição espacial. A primeira coloca o espectador diante da desestabilização de Otávio em sua fé, crise que extravasa para a relação conjugal. Na segunda parte, o público é deslocado para outro espaço e passa a pertencer à massa de fiéis que preenche a igreja de Otávio. Na terceira, a plateia é deslocada novamente para assistir ao clímax dos conflitos num encontro entre todos na casa de um personagem onde imperam a ruína e a decadência morais. Esse último ato traz uma alteração de registro, substituindo a solenidade marcante até então pelo humor patético.
Essas variações chamam atenção nas dramaturgias dos espetáculos da Trilogia. Em Abnegação I, o texto é lacunar, destituído da intenção de localizar com exatidão o espectador acerca do contexto histórico no qual os personagens estão mergulhados. Em Abnegação II, a localização é feita. Logo no início do espetáculo, a plateia é informada de que o grupo se inspirou no assassinato do político Celso Daniel. Mas não há o intuito de reconstituir os acontecimentos de maneira tradicionalmente documental porque é impossível acessar o modo como se deram. Afinal, a evocação do passado é ficcional, resultante de uma interpretação dos fatos. Em toda a Trilogia (mas, em especial, em Abnegação III) há cenas em que os personagens dialogam sem se olharem, com os atores dispostos de frente para o público, recurso empregado talvez com o objetivo de assinalar a ausência de interação entre eles. Os atores – Alexandre Tavares, Amanda Lyra, André Capuano, Antonio Salvador, Clayton Mariano, Gabriela Elias, Janaina Leite, Vinicius Meloni e Vitor Vieira – aderem a um registro expansivo sem, contudo, enveredarem pela trilha do exagero. Constroem personagens críveis, distantes da mera caricatura.
Cena de O Pão e a Pedra, montagem da Cia. do Latão (Foto: Lenise Pinheiro)
Em O Pão e a Pedra, montagem em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) até a próxima segunda-feira, os integrantes da Companhia do Latão evidenciam vínculo com o universo que abordam – o das greves metalúrgicas no ABC paulista no final dos anos 1970, retratado de modo a suscitar no público um elo com os dias de hoje –, comprovando o caráter político de seu trabalho. Sem perder a conexão com a realidade, o grupo aposta em dramaturgia (assinada pelo diretor Sérgio de Carvalho) que realça a ficção por meio da projeção de trecho de filme e do destaque aos mecanismos de representação através de personagens (a operária ao camuflar sua identidade através de aparência masculina) e situações (o garoto ao brincar de colocar bigode, a outra operária ao esconder a própria gravidez). São momentos que acentuam o jogo dos disfarces, procedimento marcadamente teatral.
A Companhia do Latão conjuga passado e presente ao revelar aqui ecos do Teatro de Arena, em especial no que se refere ao investimento numa dramaturgia voltada para os menos abastados e à tensão entre o dramático e o épico. Esse dado, importante em textos do final da década de 1950 escritos e encenados dentro do grupo fundado por José Renato, se materializa, em O Pão e a Pedra, na oscilação entre a necessidade individual e o bem coletivo e na valorização de pessoas específicas que, porém, simbolizam uma determinada condição sócio-econômica num panorama que as transcende. Não há como deixar de evocar, particularmente, Eles não usam Black-Tie, texto de Gianfrancesco Guarnieri dotado dessas características, cuja montagem alavancou a trajetória do Arena em 1958. Na adaptação para o cinema, pouco mais de 20 anos depois, Leon Hirszman alterou o contexto original da peça (uma favela do Rio de Janeiro) para o das greves do ABC, o mesmo de O Pão e a Pedra.
A dramaturgia traz a alternância entre a narração – em certo instante, o público é informado de que Luiz Inácio Lula da Silva será mencionado, mas não interpretado por algum ator, talvez pelo fato de o foco do texto recair sobre homens e mulheres comuns e não sobre líderes – e a vivência – cabendo assinalar a imersão dos atores (Beto Matos, Debora Rebecchi, Érika Rocha, Helena Albergaria, João Filho, Ney Piacentini, Rogério Bandeira, Sol Faganello e Thiago França) nas circunstâncias lançadas pelo texto. Espetáculo que não reproduz o real, mas dialoga com essa esfera, O Pão e a Pedra sugere fragmentos de ambientes significativos para os personagens, tanto no que diz respeito ao mundo do trabalho quanto à breve suspensão do cotidiano duro, na cenografia de Cassio Brasil, composta por uma estrutura circular e por elementos dispostos ao redor (armário de vestiário, pedaços de carros, tanque, miniatura de roda gigante). A direção musical de Lincoln Antonio, executada ao vivo, influencia decisivamente na temperatura da cena e na construção de atmosferas.
Larissa Bracher em Genderless – Um Corpo Fora da Lei (Foto: Elisa Mendes)
O projeto Operação Rio Diversidade, em cartaz até o próximo sábado no Teatro do Sesi, é composto por quatro solos conduzidos por artistas diferentes – autores, diretores e atores. Idealizada por Marcia Zanelatto, a iniciativa, contudo, evidencia sintonia entre as suas partes, sem que esse entrosamento resulte em uniformização.
As abordagens de sexualidades distintas dos padrões pré-estabelecidos unem, de modo abrangente, os quatro textos. Em Genderless – Um Corpo Fora da Lei, escrito por Zanelatto, ocorre um ritual de despedida do próprio corpo por meio da evocação da jornada verdadeira de Norrie May-Welby, que, após viver 26 anos como homem, “renasce” em corpo feminino, mudança, porém, que não apazigua por completo sua íntima sensação de desencontro. A autora destaca o descompasso entre corpo e alma, a sexualidade como elemento de constituição do indivíduo (“De quem é o seu corpo com todas as suas intimidades?”) e lança uma questão: seria o personagem atravessado pela necessidade de ter todas as possibilidades, pela dificuldade de não abrir mão de qualquer alternativa e, assim, de lidar com a perda, ou portador de uma multiplicidade genuína (“há em meu corpo uma infinidade de órgãos extremamente sexuais”)?
A realidade também inspirou Joaquim Vicente em A Noite em Claro. O macabro assassinato de um homem por um garoto de programa com mais de 100 facadas traz à tona a morte brutal do encenador Luiz Antônio Martinez Corrêa na segunda metade da década de 1980. Na estrutura do texto, o ator (Thadeu Matos) transita entre os dois papéis antagônicos – o do michê que, num violentíssimo ato catártico, revela uma sexualidade mal resolvida (“De quantas facadas você precisa para eliminar o seu ódio?”) e o da vítima. A repressão ganha tratamento diverso em Como Deixar de Ser, de Daniela Pereira de Carvalho, sobre uma mulher que, sufocada, externa a ânsia por contato com outra, algo jamais concretizado (“Nós nunca nos vimos nuas. Apenas parte do corpo”). A personagem expressa culpa pelo que sente (“Eu nunca vou ter coragem de colocar para fora esse desejo estocado”), herança do convívio com a mãe. Não consegue exercer o desejo e nem se manter em permanente opressão. A pluralidade sexual, presente em Genderless – Um Corpo Fora da Lei, é realçada, de maneira bem menos promissora, em Flor Carnívora, texto estéril de Jô Bilac ambientado numa sociedade vegetal.
As partes de Operação Rio Diversidade não têm no universo temático o único ponto em comum, tendo em vista as conexões entre as contribuições artísticas que se somam no espetáculo. Apesar de capitaneados por diretores variados, os monólogos contam com os mesmos profissionais em áreas como as de cenografia (Daniel de Jesus) e iluminação (Daniela Sanchez). A integração fica especialmente clara nas propostas de iluminação, o que não significa que se reiterem umas às outras. Parece existir uma conceituação na concepção da luz, que restringe propositalmente o acesso integral dos espectadores às imagens cênicas (em muitos momentos, o público vê “tão-somente” fragmentos dos atores), descortinadas aos poucos. Em Flor Carnívora há um longo trecho no escuro. Quando a luz volta, a atriz Gabriela Carneiro da Cunha demora a mostrar o rosto à plateia. Em Como Deixar de Ser predominam as gradações sutis. Em determinados solos, os atores manipulam, em certa medida, a luz sobre os próprios corpos. São os casos de Uma Noite em Claro, no qual a silhueta do ator “estampa” a tela, onde é projetado, logo após, seu rosto, e de Genderless – Um Corpo Fora da Lei, no qual o rosto de Larissa Bracher é parcialmente iluminado pela tela de um aparelho.
Já no campo da cenografia há menos unidade, o que não deve ser considerado como demérito. Em Como Deixar de Ser é notável a concentração de objetos antigos (vitrola, baú, abajur), de acordo com o perfil da personagem, e em Uma Noite em Claro causa impacto a mesa repleta de facas espetadas. Os figurinos sintetizam a condição dos personagens (como o traje masculinizado em Genderless – Um Corpo Fora da Lei) ou confirmam seus estados emocionais (as cores fechadas sublinhando a repressão da mulher de Como Deixar de Ser). A música é uma escolha constante para encerrar os solos – ocasionalmente, entoada pelos atores.
Os diretores potencializam as atuações. Em Genderless – Um Corpo Fora da Lei, Guilherme Leme Garcia valoriza a partitura física de Larissa Bracher, que domina a cena com voz suave e densa. Em Como Deixar de Ser, Renato Carrera aproxima Kelzy Ecard da frequência contundente de uma personagem em instante de extravasamento. Em Uma Noite em Claro, Cesar Augusto faz com que Thadeu Matos oscile de forma expressiva entre os extremos da situação. Em Flor Carnívora, Ivan Sugahara leva Gabriela Carneiro da Cunha a adotar um tom de explanação diante da plateia. Interligados por breves aparições de Magenta Dawning, que contrastam com a dramaticidade da maioria dos textos, os monólogos de Operação Rio Diversidade, em que pese uma eventual irregularidade, apresentam apreciável vínculo no palco.
Antígona e Mata teu Pai são apropriações de tragédias gregas que empregam procedimentos diversos em relação aos textos de origem. No caso da primeira, em cartaz no Teatro Poeirinha, o diretor Amir Haddad e a atriz Andrea Beltrão mantêm o título da peça de Sófocles e recorrem à tradução de Millôr Fernandes inserindo eventualmente linguajar afinado com a contemporaneidade; na segunda – que encerrou apresentações no Espaço Cultural Sergio Porto e terá sessões no Gamboavista e no Festival de Curitiba –, Grace Passô concebeu uma peça autônoma a partir de Medeia, de Eurípedes.
As operações dramatúrgicas visam à amplitude temporal. Em Antígona, Haddad e Beltrão não se “limitam” aos fatos circunscritos nesse texto específico. Estampam na parede do teatro cartazes destacando a descendência de Antígona. Uma arqueologia que traz à tona não apenas as duas peças anteriores da Trilogia Tebana – Édipo Rei e Édipo em Colono –, como um passado ainda mais remoto. Já o vocabulário ocasionalmente informal e popular da atriz é um mecanismo que tende a promover um elo com o espectador de hoje.
Esse recurso, por si só, resultaria artificial e insuficiente. No entanto, a peça de Sófocles realça embates que continuam pertinentes nos dias atuais – em especial, no que diz respeito ao conflito entre a lei instituída e a determinação individual. No texto, Creonte, rei de Tebas, proíbe que Polinice, classificado como traidor de guerra, que morreu em luta contra o irmão, Eteocles, seja enterrado. Irmã de ambos, Antígona desobedece a ordem do monarca. Age de acordo com seu princípio moral, que considera como a lei mais importante a ser seguida.
Além do potencial reflexivo da peça, a conexão com o aqui/agora é frisada, na encenação de Haddad, por meio da materialização de uma Antígona que sua e se descabela. As heroínas trágicas normalmente pertencem a dinastias nobres, distantes da massa, mas humanizadas devido à exposição de suas falhas – são dominadas por sentimentos proibidos. Fragilizada pela tragédia familiar (a descoberta do parentesco dos pais, a cegueira de Édipo, a morte dos irmãos), Antígona, na versão de Haddad/Beltrão, desponta como figura carnal, com a qual se pode estabelecer identificação.
Há uma quebra de hierarquia tanto no modo nada submisso do encenador e da atriz na abordagem da obra de Sófocles quanto na proposta de vínculo firmada com a plateia. Andrea Beltrão recebe os espectadores na entrada do teatro e permanece no palco, ao final, à disposição do público. A suspensão da quarta parede fica concentrada nesses minutos anteriores e posteriores à sessão propriamente dita. Se por um lado a instalação e preservação (pelo menos, parcial) da barreira entre plateia e espetáculo durante a maior parte do tempo não direciona a atriz para a adoção de um tom interpretativo austero, hierático, por outro Beltrão não envereda por um registro de atuação invisível, transparente, naturalizado. A composição da personagem é evidenciada por meio de um trabalho corporal vigoroso, expansivo, sem que esse caminho implique necessariamente em perda de contato com a palavra ou de reverberação íntima dos acontecimentos, a exemplo das passagens em que Antígona expressa as justificativas pessoais que motivam suas ações. São instantes de verticalização, diferentes daqueles em que a atriz transita por outros personagens além da heroína esboçando fisicalidades de maneira mais propositadamente sugestiva do que acabada. Prevalece, contudo, um tom interpretativo que sinaliza a preocupação em aproximar a tragédia do público.
Debora Lamm em Mata teu Pai (Foto: Aline Macedo)
Em Mata teu Pai, novo projeto da Cia. OmondÉ, Grace Passô comprova que a tragédia atravessa os séculos ao traçar uma ligação entre a origem de Medeia – estrangeira que abandonou sua pátria para acompanhar Jasão, assassinando, na fuga, o próprio irmão – e a via-crúcis enfrentada pelos imigrantes na atualidade – com foco no contexto da Síria. O caráter político da dramaturgia também transparece na inversão sexual (ao invés de filhos, Medeia tem duas filhas), alteração que dialoga com a reivindicação de igualdade de direitos da mulher em relação ao homem nos dias de hoje.
Diretora da montagem, Inez Viana aprofunda a articulação contida no texto ao tematizar os excluídos de agora por meio de um coro formado por mulheres do povo (moradoras da região da Gamboa, com mais de 65 anos) e, entre elas, um homem travestido, em referência aos portadores de sexualidades distintas dos padrões pré-fixados, ainda vitimados diariamente. A diretora investe em aproximação entre o espetáculo e os espectadores ao destiná-los os papéis das filhas de Medeia. Em dado momento há uma cena de amamentação que insinua que as integrantes do coro representariam as filhas, mas essa possibilidade fica circunscrita à passagem mencionada. O título do texto dá a impressão de atribuir uma função ativa às filhas, como se Medeia transferisse para elas o ato de matar – assassinar Jasão, o homem que a abandonou para casar com uma mulher mais jovem e mais rica, e não as crianças, como estratégia para atingir o ex-marido, conforme acontece no original –, mas essa mudança mais instiga a imaginação do que se impõe como leitura fechada.
Como Medeia diante das filhas (espectadores), Debora Lamm argumenta com intensidade direta e contundente. Inflama-se, em certos instantes, sem, porém, se exceder, demonstrando cuidado em controlar a emoção. Sintonizada com as questões levantadas na dramaturgia e na encenação, a atriz evoca sua própria descendência ao entoar canto judaico. Viana, escorada no texto de Passô, inclui Medeia numa contemporaneidade caótica, numa atmosfera desoladora, a julgar pela paisagem apocalíptica – repleta de computadores quebrados e amontoados de forma estilizada como num escombro, numa ruína – da cenografia de Mina Quental. Um panorama acentuado pelo figurino cor de carne, gasto, de Sol Azulay, pela partitura sonora áspera, rascante (direção musical de Felipe Storino) e pela iluminação agressiva (abusando do efeito de cegueira junto ao público), apesar de dosada nas cenas realizadas no fundo do palco e com bom resultado no aproveitamento do globo espelhado, de Nadja Naira e Ana Luzia de Simoni.
Antígona e Mata teu Pai são trabalhos que intencionalmente não se ajustam a um padrão de acabamento. Enquanto a encenação de Amir Haddad deixa à mostra uma aparência de esboço – por meio da atriz que subverte as habituais recomendações ao público antes do início da sessão (celulares podem ficar ligados) e da aparelhagem de som e da mesa com água à vista dos espectadores –, a de Inez Viana extrai parte de sua potência das presenças de não profissionais no coro. São opções que decorrem, em algum grau, dos olhares dessacralizados lançados na direção do clássico.
Auê, musical dirigido por Duda Maia (Foto: Bruno Braga)
Musical do grupo Barca dos Corações Partidos, Auê saiu consagrado da quarta edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro, que tomou conta do Copacabana Palace na noite da última terça-feira. O outro espetáculo contemplado em mais de uma categoria foi Gritos, da Cia. Dos à Deux. A cerimônia, apresentada por Irene Ravache e Eriberto Leão, teve como homenageada a atriz Nicette Bruno e contou com um marcante discurso de agradecimento do ator Marcos Caruso.
Premiados:
Espetáculo – Auê
Direção – Duda Maia (Auê)
Direção Musical – Alfredo Del-Penho e Beto Lemos (Auê)
Atriz – Debora Bloch (Os Realistas)
Atriz em Teatro Musical – Laira Garin (Gota D’Água (A Seco))
Ator – Marcus Caruso (O Escândalo Philippe Dussaert)
Ator em Teatro Musical – Alexandre Rosa Moreno (A Cuíca do Laurindo)
Autor – Grace Passô (Vaga Carne)
Cenografia – André Curti e Artur Luanda Ribeiro (Gritos)
Figurino – Luiza Fardin (Se eu Fosse Iracema)
Iluminação – Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier (Gritos)
Categoria Especial – Wolf Maya (pela construção do Teatro Nathalia Timberg)
Auê concorre em cinco categorias do Prêmio APTR (Foto: Divulgação)
O musical Auê lidera as indicações ao Prêmio APTR, que tem, como elementos diferenciais, a categoria de produção (concedida pelos próprios integrantes da associação) e a separação entre atores protagonistas e coadjuvantes.
Indicados:
Espetáculo – A Paz Perpétua, Auê, Gritos, Nós
Direção – Aderbal Freire-Filho (A Paz Perpétua), Artur Luanda Ribeiro e André Curti (Gritos), Duda Maia (Auê), Márcio Abreu (Nós)
Autor – Cláudia Mauro (A Vida Passou por Aqui), Felipe Vidal (Cabeça — Um Documentário Cênico), Fernando Marques (Se eu Fosse Iracema), Grace Passô (Vaga Carne)
Ator Protagonista – Kiko Mascarenhas (O Camareiro), Marcos Caruso (O Escândalo Philippe Dussaert), Otto Jr. (Amor em Dois Atos), Zécarlos Machado (Gata em Telhado de Zinco Quente)
Atriz Protagonista – Adassa Martins (Se eu Fosse Iracema), Cláudia Mauro (A Vida Passou por Aqui), Debora Bloch (Os Realistas), Julia Lund (Amor em Dois Atos), Laila Garin (Gota D’água [A Seco]), Suzana Faini (O Como e o Porquê)
Ator Coadjuvante – Ary França (Galileu Galilei), Gustavo Damasceno (Os Cadernos de Kindzu), Pedroca Monteiro (Sucesso), Stéphane Brodt (Os Cadernos de Kindzu)
Atriz Coadjuvante – Clara Carvalho (Anti-Nelson Rodrigues), Juliana Guimarães (Sucesso), Luciana Lopes (Os Cadernos de Kindzu), Lydia Del Picchia (Nós)
Cenografia – André Cortez (O Camareiro), Daniela Thomas e Camila Schmidt (Os Realistas), Fernando Mello da Costa e Estúdio Radiográfico (Céus), José Dias (Dorotéia), Márcio Medina (Galileu Galilei)
Figurino – Beth Filipecki e Renato Machado (O Camareiro), Carol Lobato (Cinderela), Kika Lopes (Auê), Luiza Fardin (Se eu Fosse Iracema), Lulu Areal (Dorotéia)
Iluminação – Jorge Farjalla, Patrícia Ferraz e José Dias (Dorotéia), Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier (Gritos), Maneco Quinderé (O Como e o Porquê), Beto Bruel (Os Realistas)
Música – Alfredo Del-Penho e Beto Lemos (Auê), Luciano Moreira e Felipe Vidal (Cabeça — Um Documentário Cênico), Beto Lemos, Fernando Mota e Marcelo H (Gritos), Nando Duarte (Gilberto Gil, Aquele Abraço — O Musical), Stéphane Brodt (Os Cadernos de Kindzu)
Categoria especial – Wolf Maia (pela construção do Teatro Nathalia Timberg), Eduardo Rieche (pelo lançamento do livro Yara Amaral, a Operária do Teatro), Flávio Marinho (pelo lançamento do livro Teatro é o Melhor Programa), Cesar Augusto (pela multiplicidade de suas ações artísticas), Projeto Rio Diversidade
Produção – Auê, Gota D´água [A Seco], O escândalo Philippe Dussaert, Os Realistas
Gritos, encenação da Cia. Dos à Deux (Foto: Renato Mangolin)
O teatro apresentado no Rio de Janeiro ao longo de 2016 foi tomado por temporadas meteóricas, fator que dificultou a repercussão das encenações – por isso, voltadas a um público reduzido. O problema não está na realização de projetos específicos para plateias restritas – algo que pode evidenciar um desejo genuíno de estabelecer uma relação individualizada com o espectador –, mas na concentração da atividade teatral num círculo cada vez mais diminuto.
Aqueles que se dedicam a propostas investigativas, de cunho notadamente autoral, costumam permanecer em cartaz durante pouco tempo e enfrentam obstáculos para retornar ao circuito; já o teatro de mercado desponta com frequência decrescente. Em todo caso houve espetáculos representativos, mais no primeiro semestre do que no segundo e tanto de companhias quanto avulsos.
Além das montagens listadas abaixo, trabalhos em encenações diversas devem ser destacados. Em termos de atuação, as de Caco Ciocler em Caesar – Como Construir um Império, Bernardo Marinho em Os Sonhadores, Emilio de Mello e Debora Bloch em Os Realistas, Laila Garin em Gota D’Água (a Seco), Helena Varvaki em A Outra Casa, Denise Fraga em Galileu Galilei, Luciano Chirolli em Memórias de Adriano, Kiko Mascarenhas em O Camareiro, Grace Passô em Vaga Carne, Vilma Melo em Chica da Silva – O Musical, Julia Lund em Amor em 2 Atos, Marcos Caruso em O Escândalo Philippe Dussaert, Juliana Guimarães e Pedroca Monteiro em Sucesso e Ricardo Kosovski em Boa Noite, Professor. Entre as direções mais expressivas, as de Eduardo Wotzik em Estudo paraMissa para Clarice, Aderbal Freire-Filho em A Paz Perpétua e Adriana Schneider e Lucas Oradovschi em Cidade Correria. As dramaturgias de Jacy, assinada por Pablo Capistrano e Iracema Macedo (com colaboração de Henrique Fontes), Alice Mandou um Beijo, a cargo de Rodrigo Portella, e O Açougueiro, de autoria de Samuel Santos, merecem menção.
Também cabe elogiar as cenografias de Daniela Thomas e Camila Schmidt em Os Realistas, Adriano e Fernando Guimarães e Ismael Monticelli em Hamlet – Processo de Revelação, Rodrigo Portella em Alice Mandou um Beijo, André Cortez em Gota D’Água (a Seco), Aurora dos Campos em Os Sonhadores e Camila Rodrigues em Antes do Café; os figurinos de Lulu Areal em Doroteia, Kika Lopes em Gota D’Água (a Seco), Luiza Fardin em Se eu Fosse Iracema, Marcelo Olinto em Gilberto Gil – Aquele Abraço e Thanara Schönardie em Valsa nº6; as iluminações de Roberto Alvim em Caesar – Como Construir um Império, Tomás Ribas em Fatal, Rodrigo Belay em Os Sonhadores, Nadja Naira em Vaga Carne, Aline Santini em Chet Baker – Apenas um Sopro e Lucia Koch e Carolina Mendonça em Tragédia: uma Tragédia.
Houve ainda importantes contribuições, como os livros Teatro é o Melhor Programa, de Flavio Marinho, e Yara Amaral: a Operária do Teatro, de Eduardo Rieche, a idealização do projeto Que Tempos são Esses?, da Cia. Ensaio Aberto, composta por exposição, leituras dramatizadas, seminários e mostra de filmes marcando os 60 anos da morte de Bertolt Brecht, o recorte de espetáculos poloneses, a exibição de vídeos de encenações de Tadeusz Kantor e a realização de debates em ambiente universitário no Tempo Festival, a direção de movimento de Renato Vieira em Lili e a Rede Baixada em Cena, que reuniu 18 coletivos de 13 cidades da Baixada Fluminense, iniciativa relevante a julgar pela pouca circulação dos espetáculos e grupos. Vale registrar a inauguração de espaços teatrais – o Nathalia Timberg, acoplado à sala Nathalinha, o Cesgranrio e o Riachuelo – num momento em que tantos foram demolidos ou continuam fechados.
Nós, montagem do Grupo Galpão (Foto: Guto Muniz)
DESTAQUES:
CABEÇA (UM DOCUMENTÁRIO CÊNICO) – Musical do coletivo Complexo Duplo, com dramaturgia, assinada pelo diretor Felipe Vidal, centrada num diálogo entre passado e presente. O álbum Cabeça Dinossauro, dos Titãs, de 1986, é evocado sem que se perca de vista os dias de hoje. A integração entre os atores/músicos (Felipe Antello, Felipe Vidal, Guilherme Miranda, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira e Sergio Medeiros) sobressai.
CAIS OU DA INDIFERENÇA DAS EMBARCAÇÕES – Montagem da Velha Companhia, dirigida por Kiko Marques (acumulando ainda as funções de autor e ator), que concilia as instâncias do dramático e do épico ao focar nas jornadas de personagens específicos – pertencentes a diferentes gerações que moram em Ilha Grande ou seguem vinculados a essa localidade depois de terem saído de lá – e, a partir das trajetórias deles, apresentar um breve panorama do Brasil ao longo de décadas do século XX.
O COMO E O PORQUÊ – Encenação elegante e sóbria de Paulo de Moraes para o texto da americana Sarah Treem sobre o conflito entre duas mulheres de gerações distintas que pertencem à mesma área. Suzana Faini comprova domínio na articulação entre pensamento e fala, convence sobre a intimidade da bióloga com o universo abordado e demonstra precisão nas transições propostas pela dramaturga. Na iluminação, Maneco Quinderé destaca os espaços de ausência.
ESSE VAZIO – O diretor Sergio Módena conseguiu apreciável equilíbrio interpretativo entre os atores Daniel Dias da Silva, Gustavo Falcão e Sávio Moll na encenação do texto do argentino Juan Pablo Gómez sobre o encontro de três amigos de infância no velório de um quarto.
GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE – Eduardo Tolentino de Araujo indica possibilidades de leitura para o texto de Tennessee Williams a partir da proposta cenográfica de Ana Mara Abreu e Alexandre Toro e do figurino de Gloria Kalil para Maggie. O vestido encardido de Maggie e o esqueleto de uma cama e os espelhos embaçados que compõem o cenário explicitam (sem reiterar) o desgaste dos relacionamentos que atravessam a peça. No elenco, Zecarlos Machado frisa a rispidez de Paizão sem enveredar por linearidade redutora da humanidade do personagem.
GRITOS – André Curti e Artur Luanda Ribeiro dão continuidade e renovam a pesquisa que move a Cia. Dos à Deux, voltada para um teatro sem uso de palavras. Aqui, assinam um espetáculo político, mas nada panfletário, e colocam o espectador diante do desafio de ver demais (os atores por trás das máscaras) e, ao mesmo tempo, de menos (a iluminação, de Ribeiro e Hugo Mercier, propositadamente reduzida).
LEITE DERRAMADO – Roberto Alvim estabelece uma relação criativa com a obra original de Chico Buarque, procurando extrair um sumo, a partir de uma leitura autoral, ao invés de se limitar a descortinar um enredo diante do público. O diretor assina uma montagem rigorosa, valorizada pelo trabalho minucioso e contundente de Juliana Galdino como o centenário Eulálio D’Assumpção.
MYRNA SOU EU – Sob o pseudônimo de Myrna, Nelson Rodrigues assinou coluna no jornal Diário da Noite, em 1949. Nessa montagem de Elias Andreato, porém, Myrna transmite conselhos sentimentais num programa de rádio a partir da leitura de cartas enviadas pelos ouvintes. A interpretação de Nilton Bicudo revela domínio corporal e vocal. O ator não limita o trabalho à caracterização; ao contrário, apropria-se da feminilidade. Sem enveredar por linha apelativa, diverte o público graças a precisa noção de timing.
UM NOME PARA ROMEU E JULIETA – Dani Lossant realiza uma nova visita ao projeto encenado há dez anos dentro do ambiente universitário. Os atores (Diogo Liberano, Carolina Ferman, Andrêas Gatto, Daniel Chagas, Márcio Machado e Morena Cattoni) imprimem marcas de presença no espaço, cada vez mais poluído. Juntamente com a cenografia (da própria Lossant), os figurinos de Luci Vilanova exibem evidências de uso e contribuem para um visual nada asséptico. A destacar ainda, a direção de movimento de Nathalia Mello.
NÓS – A sobrevivência do Galpão ao longo de mais de três décadas coloca o grupo numa certa posição de resistência frente ao contexto da cena contemporânea, na medida em que as companhias de porte médio tendem a sucumbir diante dos obstáculos crescentes (fenômeno que já ocorreu com as grandes). A preparação de uma sopa simboliza o projeto conjunto, que, porém, não é executado harmoniosamente. O jogo de repetições contido na dramaturgia (a cargo do diretor Marcio Abreu e do ator Eduardo Moreira) evidencia o cansaço nas relações, fragilizadas por ânimos cada vez mais exaltados. No elenco, Teuda Baura concentra as atenções.