Beth Zalcman e Thaís Loureiro em Boa Noite, Mãe (Foto: Hugo Moss)
Em Boa Noite, Mãe, Marsha Norman procura comover o espectador ao colocá-lo diante de um momento definitivo entre mãe e filha numa noite derradeira, quando a segunda informa à primeira sobre a sua determinação em cometer suicídio. O texto – que já foi encenado no Brasil em montagem de Ademar Guerra, com Nicette Bruno e Aracy Balabanian, e ganhou uma adaptação para o cinema, intitulada Noite de Desamor, de Tom Moore, com Anne Bancroft e Sissy Spacek – destaca a desesperança da filha em relação ao futuro e a situação da mãe como refém da filha, decidida a levar adiante o ato extremado.
A encenação de Hugo Moss – que cumpriu temporada na Sede das Cias. e segue agora no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura – é bastante simples e funcional, a julgar pelo cenário, do próprio Moss e de Luna Santos, que realça o nível sócio-econômico de mãe e filha por meio dos móveis da sala da casa de ambas, e dos figurinos, a cargo das duas atrizes (Beth Zalcman e Thaís Loureiro), que sublinham os perfis das personagens. A iluminação de Aurélio de Simoni oscila nos instantes mais intimistas entre mãe e filha, de modo a demarcá-los. Hugo Moss assina uma montagem discreta, de porte reduzido, que não se sobrepõe às interpretações das atrizes, claramente priorizadas.
Beth Zalcman e Thaís Loureiro evidenciam composições físicas – a primeira, no que se refere ao registro vocal da idosa e a segunda, à voz estrangulada, ao olhar que não fixa e a outros vícios corporais. Parece haver uma sobrecarga na caracterização, como se as construções das personagens permanecessem um tanto à mostra diante do público. Essa questão está mais presente no trabalho de Beth Zalcman do que o de Thaís Loureiro, que dimensiona a personagem para além dos sinais externos. Mas, seja como for, as atuações se tornam mais orgânicas à medida que a encenação avança. Boa Noite, Mãe é uma peça sentimental, conduzida com alguma habilidade por Marsha Norman – que sustenta a atenção da plateia em torno do desenlace da situação-base – e concebida como veículo para atrizes.
Augusto Boal na Université de la Sorbonne – Nouvelle, em Paris (Foto: Acervo Cedoc-Funarte)
A relevância de Augusto Boal na história do teatro brasileiro – realçada, nesse momento, por uma exposição (com curadoria do cenógrafo Hélio Eichbauer) e uma encenação (Os que Ficam, com texto e direção de Sérgio de Carvalho, em cartaz apenas até o próximo domingo) – é incontestável. Em meados da década de 1950, Boal voltou dos Estados Unidos, onde estudou com John Gassner e foi aluno ouvinte no Actors Studio, e ingressou no Teatro de Arena, prestando fundamental contribuição na difusão dos ensinamentos de Constantin Stanislavski e no projeto dos Seminários de Dramaturgia, que consistia em fazer com que os próprios integrantes do grupo escrevessem textos, tendo em vista a clareza em relação ao universo a ser abordado: a realidade do brasileiro das classes menos abastadas.
O vigor político – marcante a partir da entrada de componentes do Teatro Paulista do Estudante, em 1955 – e a proposta nacionalista – encorpada com a célebre montagem de José Renato para Eles não usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958 – deram um perfil ao grupo, que começou impreciso na primeira metade dos anos 1950. Além de Guarnieri e Boal, Oduvaldo Vianna Filho (que se desligaria do Arena em 1960 para se dedicar ao Centro Popular de Cultura), Flavio Migliaccio, Milton Gonçalves e Francisco de Assis escreveram textos. O Arena também encenou peças estrangeiras, mas sempre buscando uma conexão com a realidade brasileira – não por acaso, uma corrente denominada como nacionalização dos clássicos. Dentro do grupo, Boal conduziu ainda espetáculos estruturados de acordo com o Sistema Coringa, que implicou no barateamento dos custos das produções, na medida em que os atores (com exceção do protagonista) deveriam se revezar em mais de um personagem.
Entretanto, o trabalho de Boal não ficou restrito ao Arena, a julgar pela sua direção do show Opinião, mescla de depoimentos e canções que dotou a música de força política, e pela criação do Centro do Teatro do Oprimido, que visava a fazer com que o espectador tomasse consciência de sua condição de opressão, de modo a talvez transformar, por meio do teatro, a sua realidade. A prática do Teatro do Oprimido se internacionalizou. Foi empregada em países desenvolvidos porque a circunstância de opressão pode ser subjetiva e não “tão-somente” decorrente de um contexto sócio-econômico.
Todas essas informações estão reunidas na exposição, composta pela exibição de vídeos centrados em contribuições de Boal; fotos de cena, matérias de jornais e programas de espetáculos tanto dirigidos por Boal quanto realizados a partir de textos dele; painel com os acontecimentos da trajetória de Boal (incluindo os anos de exílio, em Buenos Aires, durante a década de 1970, e o período na Université de la Sorbonne-Nouvelle, em Paris); projeção de imagens com flagrantes de Boal trabalhando; e livros que trazem suas proposições artísticas.
Cena da montagem de Os que Ficam, em cartaz até domingo no CCBB (Foto: Divulgação)
Os que Ficam – Em cartaz na Sala A do Centro Cultural Banco do Brasil, a montagem de Sérgio de Carvalho, diretor da Cia. do Latão, parte de um registro interpretativo em primeira pessoa, no que se refere ao rápido depoimento de alguns atores do elenco, que revelam os vínculos – ou a ausência deles – familiares com a política. Esse teor pessoal do trabalho sobressai em outros momentos, a exemplo da lembrança de um dos principais locais de tortura durante a ditadura militar – na Rua Tutoia, no bairro do Paraíso, em São Paulo –, da evocação da música Eu vivo num Tempo de Guerra, composta por Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, emblemática no repertório da cantora Maria Bethânia, e, em especial, da presença de Julian Boal, filho de Augusto Boal, lendo cartas escritas pelo pai.
A natureza pessoal do espetáculo pode ainda ser detectada na preocupação em olhar para o passado (a Cia. do Latão tem se debruçado sobre a década de 1970, como, recentemente, na montagem de O Patrão Cordial, apropriação da peça O Senhor Puntilla e seu Criado Matti, de Bertolt Brecht) sem perder o presente de vista. Ao longo de Os que Ficam, determinadas questões que atravessam o tempo vêm à tona, como a importância de abordar a realidade de maneira dialética, não maniqueísta, a noção limitada de cultura, desvinculada da experiência política, e a busca por uma representação justa do homem comum, muitas vezes retratado de forma tipificada, distante da humanidade, a partir de um interesse sincero pelo outro, da tentativa de se afastar de uma perspectiva autocentrada.
Os que Ficam, como os espetáculos da Cia. do Latão, surge da necessidade de realização de um teatro vivo, que resulte da continuidade de uma linha de pesquisa artística, de uma articulação entre teoria e prática. Mas o caráter responsável da empreitada – próprio de um grupo que evidencia resistência ao se manter fiel aos princípios numa época em que negociação é palavra de ordem – não oculta algumas fragilidades, perceptíveis na dramaturgia (nas cenas de embate entre os atores engajados na construção de uma montagem de Revolução na América do Sul, de Augusto Boal) e no esgarçamento do espetáculo. Cabe, em todo caso, ressaltar, apesar do início claudicante, as atuações de Helena Albergaria, contundente nos instantes de enfrentamento, e Rogério Bandeira, uma presença segura.
O espetáculo de Gustavo Gasparani recebeu seis indicações (Foto: Leo Aversa)
Espetáculos bem distintos foram contemplados nas indicações ao 9º Prêmio APTR: o musical Samba Futebol Clube (contemplado no maior número de categorias – seis), a cargo de Gustavo Gasparani, Beije minha Lápide (cinco), montagem de Bel Garcia para o texto de Jô Bilac, Contrações, encenação de Grace Passô para a peça de Mike Bartlett, e E se elas fossem para Moscou? (ambos com quatro), apropriação de Christiane Jatahy de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, voltada para a sua pesquisa sobre a interface teatro/cinema. Diferentemente de outros prêmios, o da APTR inclui as categorias ator e atriz coadjuvante e produção. A cerimônia, que terá como homenageada a atriz Gloria Menezes, está marcada para o dia 24 de março, no Imperator.
Indicados:
Espetáculo – Contrações, E se elas fossem para Moscou?, Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir, Irmãos de Sangue, Samba Futebol Clube
Direção – André Curti e Artur Ribeiro (Irmãos de Sangue), Christiane Jatahy (E se elas fossem para Moscou?), Grace Passô (Contrações), Gustavo Gasparani (Samba Futebol Clube), Ivan Sugahara (Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir)
Atriz Protagonista – Amanda Vides Veras (Uma Vida Boa), Débora Falabella (Contrações), Isabel Teixeira (E se eles fossem para Moscou?), Yara de Novaes (Contrações)
Ator Protagonista – Candido Damm (Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum), Gustavo Gasparani (Ricardo III), Leandro Castilho (As Bodas de Fígaro), Marco Nanini (Beije minha Lápide)
Atriz Coadjuvante – Carolina Pismel (Beije minha Lápide), Inez Viana (Como é Cruel Viver Assim), Solange Badin (As Bodas de Fígaro), Stela Maria Rodrigues (Agnaldo Rayol – A Alma do Brasil)
Ator Coadjuvante – Fernando Eiras (O Grande Circo Místico), Gustavo Damasceno (O Funeral), Isio Ghelman (A Estufa), Leonardo Franco (Adorável Garoto)
Autor – Jô Bilac (Beije minha Lápide), Marcia Zanelatto (Desalinho), Gustavo Gasparani (Samba Futebol Clube), Renata Mizrahi (Galápagos)
Cenografia – Christiane Jatahy e Marcelo Lipiani (E se eles fossem para Moscou?), Daniela Thomas (Beije minha Lápide), Gringo Cardia (Chacrinha, o Musical), Nello Marrese (O Grande Circo Místico), Rogério Falcão (Os Saltimbancos Trapalhões)
Figurino – Carol Lobato (O Grande Circo Místico), Claudia Kopke (Chacrinha, o Musical), Luciana Buarque (Os Saltimbancos Trapalhões), Marcelo Marques (Edypop)
Iluminação – Bertrand Perez e Artur Ribeiro (Irmãos de Sangue), Daniela Sanchez (Uma Vida Boa), Elisa Tandeta (O Funeral), Paulo Cesar Medeiros (Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum), Tomás Ribas (Trágica.3)
Música – Leandro Castilho (As Bodas de Fígaro), Nando Duarte (Samba Futebol Clube), Tim Rescala (O Pequeno Zacarias – Uma Ópera Irresponsável), Wladimir Pinheiro (Lapinha)
Categoria Especial – Elenco da montagem de Samba Futebol Clube, Frederico Reder pela gestão do Theatro Net Rio, Heloisa Lyra Bulcão pelo livro Luiz Carlos Ripper – Para Além da Cenografia, Revista Aplauso pelo retorno da publicação, Sergio Saboya e Carolina Virguez pela idealização e tradução do livro Teatro Contemporáneo Brasileño
Produção – Beije minha Lápide, O Grande Circo Místico, Ópera do Malandro, Samba Futebol Clube
Candido Damm e Ana Velloso em Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum: cinco indicações (Foto: Claudia Ribeiro)
Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum e Beije minha Lápide foram os espetáculos que receberam o maior número de indicações entre as montagens do segundo semestre de 2014 contempladas ao 4º Prêmio Questão de Crítica (respectivamente, em cinco e quatro categorias). A primeira encenação é versão de Aderbal Freire-Filho para Em Família, peça de Oduvaldo Vianna Filho; a segunda reúne Marco Nanini e atores da Cia. Teatro Independente em torno de texto de Jô Bilac, sob a direção de Bel Garcia. Vinculado à revista eletrônica homônima, voltada para verticalizada reflexão teatral evidenciada em textos de natureza ensaística, o Prêmio Questão de Crítica gerou um desdobramento: o Prêmio Yan Michalski, destinado à produção teatral universitária, que está na segunda edição.
INDICADOS / SEGUNDO SEMESTRE DE 2014:
ELENCO
A Pior Banda do Mundo: Amanda Lyra, Carolina Bianchi, Clayton Mariano, Tomás Decina e Pedro Cameron
Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum: Ana Barroso, Ana Velloso, Bella Camero, Cândido Damm, Gillray Coutinho, Isio Ghelman, Kadu Garcia, Lorena da Silva, Paulo Giardini e Vera Novello
ESPETÁCULO
Beije minha Lápide
Tríptico Samuel Beckett
Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum
DIREÇÃO
Aderbal Freire-Filho por Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum
Bel Garcia por Beije minha Lápide
Inez Viana por O que você vai ver
ATRIZ
Ana Beatriz Nogueira por Uma Relação Pornográfica
Nathalia Timberg por Tríptico Samuel Beckett
ATOR
Cândido Damm por Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum
Leopoldo Pacheco por Depois do Ensaio
DRAMATURGIA
Alexandre Dal Farra por Conversas com meu Pai
CENOGRAFIA
Daniela Thomas por Beije minha Lápide
Fernando Mello da Costa por Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum
Janaina Leite e Alexandre Dal Farra por Conversas com meu Pai
FIGURINO
Camila Nuñez por Nossa Cidade
ILUMINAÇÃO
Beto Bruel por Beije minha Lápide
Tomás Ribas por Trágica.3
DIREÇÃO MUSICAL / TRILHA SONORA ORIGINAL
Botika e Cia dos Outros por A Pior Banda do Mundo
Marcelo Alonso Neves por Blackbird
CATEGORIA ESPECIAL
APTR pela realização da Campanha Teatro Para Todos
Carolina Virgüez pelas traduções das peças publicadas no livro Teatro Contemporáneo Brasileño
Cassio Scapin na montagem de Eu não dava praquilo (Foto: João Caldas)
Num plano mais evidente, o monólogo Eu não dava praquilo, atualmente em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, é uma homenagem à atriz Myrian Muniz, lembrada por sua trajetória teatral: a formação na Escola de Arte Dramática, o contato com o cenógrafo Flávio Império, o acúmulo de experiências no Teatro de Arena, o ingresso na companhia de Dulcina de Moraes, a fundação do Teatro Escola Macunaíma, a direção do show Falso Brilhante, da cantora Elis Regina. Entretanto, Muniz é trazida à tona como símbolo do sentido genuíno do ofício do ator, sintetizado numa passagem: “No teatro, você vê que pode fazer o outro. Quando você percebe o outro, se percebe também. Quando descobre o outro, se descobre também”. Talvez seja o momento em que mais sobressaia o comprometimento de Scapin não “só” com Muniz, mas com a sua profissão.
Cassio Scapin evoca Myrian Muniz no gestual largo, expansivo e, principalmente, no inconfundível registro vocal da atriz, áspero, rascante, realçando o caráter de tributo de Eu não dava praquilo. Como Muniz, o ator inclui o público em sua explanação. No roteiro de Cassio Junqueira e Scapin, o espectador ganha um “papel”: o de integrante da plateia de uma palestra de Myrian Muniz sobre o seu percurso artístico. A informalidade do relato é sublinhada pela requisição da participação do público, mas a interação resulta dispensável.
O diretor Elias Andreato conduz uma montagem enxuta, marcada por neutralidade, a julgar pela cenografia e pelo figurino assinados por Fabio Namatame. O cenário é composto por um pequeno tablado, sobre o qual há uma cadeira, e por cortinas pretas transparentes. No início do espetáculo a imagem do ator é parcialmente ocultada pelo fato de estar por trás das cortinas e por aparecer sentado de costas para o público. A plateia logo tem acesso à figura de Scapin, mas, seja como for, Andreato destaca a importância da revelação – da personalidade artística de Myrian Muniz, em escala localizada, e do próprio ator, dimensionado como profissional que deve buscar o autoconhecimento e se expor diante do espectador, em esfera mais abrangente.
Os focos da iluminação de Wagner Freire convergem para Scapin/Muniz, demonstrando sintonia com a proposta de neutralidade, quebrada apenas no instante de menção a Dona Doida – Um Interlúdio, monólogo com a atriz Fernanda Montenegro, sob a direção de Naum Alves de Souza, concebido a partir da reunião de poesias de Adélia Prado. Eu não dava praquilo desponta como uma montagem de porte reduzido que acertadamente abre mão da ambição de abordar a totalidade de uma jornada. Ao realizar um recorte da carreira de Myrian Muniz, a encenação toca, de modo oportuno, em questões amplas, determinantes, da profissão de ator.
Cena de Para os que estão em Casa: ciranda virtual (Foto: Julia Rónai)
Nos últimos tempos, alguns espetáculos vêm evidenciando a necessidade de abordagem das relações humanas nessas primeiras décadas do século XXI, principalmente no que diz respeito à substituição do contato real pelo virtual. Em Para os que estão em Casa, em cartaz no Espaço Sesc, Leonardo Netto buscou inspiração num filme dos anos 1990, Denise está Chamando, de Hal Salwen, mas a distância não é percebida. Como muitas pessoas nos dias de hoje, os personagens do texto que escreveu a partir da referência do filme priorizam o elo virtual, possivelmente devido ao medo de serem confrontados com o descompasso entre a imagem idealizada do outro e a verdadeira. Manter a separação geográfica soa mais seguro sob o ponto de vista afetivo.
A estrutura da cena realça o panorama descortinado por Leonardo Netto, com os personagens mergulhados em seus nichos, comunicando-se uns com outros apenas por meio de aparatos tecnológicos. O fato de os personagens ficarem encastelados em suas próprias casas se torna um desafio para os atores porque os impede de estabelecer contracena direta, olho no olho. Netto, que, além de autor, acumula a função de diretor (e mais a trilha sonora e os vídeos, estes em parceria com Renato Livera), valoriza a integração entre os atores na “distância”, a julgar pelo resultado equilibrado, harmonioso, obtido pelo elenco (formado por Adassa Martins, Ana Abott, Beatriz Bertu, Cirillo Luna, Isabel Lobo, João Velho e Renato Livera), no qual se destacam Adassa e João.
O painel traçado por Leonardo Netto é imediatamente reconhecível pelo público e, ao longo do espetáculo, o autor mais confirma um determinado quadro do que acrescenta novas informações. Mesmo assim, demonstra preocupação com certas sutilezas e proposições. À medida que os relacionamentos se desenvolvem, ainda que em esfera virtual, os personagens parecem um pouco menos atados à tecnologia. E uma personagem desvinculada do grupo, que gera desestabilização, transita fora da ciranda composta por todos os outros, que simbolizam a condição paradoxal de entrar em contato com o mundo ao permanecerem em espaços fechados. A iluminação de Aurélio de Simoni recorta, fraciona, o palco, em sintonia com o universo temático.
Rose Germano em Frida Kahlo – A Deusa Tehuana (Foto: Renato Mangolin)
Em Frida Kahlo – A Deusa Tehuana – trabalho da Cia. Espaço Cênico que retornou em nova temporada no Teatro Glaucio Gill – parece haver a intenção de transmitir ao público um perfil diversificado da pintora mexicana, a julgar pela estrutura dramatúrgica (assinada pelo diretor Luiz Antônio Rocha e pela atriz Rose Germano) realçada pela construção cênica do espetáculo.
A montagem começa com Rose Germano interpretando Dolores Olmedo Patiño, que difundiu a obra de Kahlo e Diego Rivera. Após esse prólogo, Rose passa a transitar pelo espaço vestindo diferentes Fridas. A atriz procura representar facetas diversas da retratada, perspectiva reforçada por constante troca de roupa. No palco despontam a relação com Rivera, a sexualidade, as severas dores físicas e instantes mais solares de sua trajetória.
Mas o objetivo não é plenamente alcançado nem na dramaturgia e nem na interpretação, que uniformiza a figura de Frida Kahlo. Rose Germano demonstra adesão à proposta. Há um desejo de encarnar Kahlo, não no sentido da mera imitação, e sim no da evidenciação de um comprometimento entre atriz e personagem traduzido em considerável entrega física. Seu registro vocal, porém, é linear, monocórdico, destituído da potência necessária para valorizar cenicamente Kahlo.
Luiz Antônio Rocha concebe um cuidadoso desenho de cena, assume alguma ousadia (no que diz respeito à preservação de tempos eventualmente exasperantes), mas incorre em certo grau de obviedade (a exemplo do momento de inclusão do público por meio do desgastado recurso da projeção da plateia em espelho).
O cenário de Eduardo Albini é composto por uma grande mesa, cadeiras coloridas e molduras que, pela ausência de imagem, podem servir de estímulo à imaginação do espectador. Os figurinos, também de Albini, são irregulares (o primeiro, referente à Dolores, é menos satisfatório). A iluminação de Aurélio de Simoni delimita áreas no palco e destaca as marcações da atriz no chão. A trilha sonora de Marcio Tinoco (há a presença de um músico em cena) é discreta, em adequado tom menor.
Maria Della Costa na montagem de Flávio Rangel para Depois da Queda, de Arthur Miller
O teatro brasileiro perdeu uma profissional de primeira grandeza no último sábado. Mesmo afastada do ofício de atriz, Maria Della Costa marcou a cena do país, conforme pode ser constatado na minuciosa biografia escrita por Tania Brandão (Maria Della Costa – Uma Empresa e seus Segredos, lançada pela editora Perspectiva). No livro, a autora traz à tona a inestimável contribuição da atriz e da companhia que liderou – o Teatro Popular de Arte (TPA), fundado em 1948 em parceria com o marido e empresário Sandro Polônio e rebatizado de Companhia Maria Della Costa (CMDC) em 1954, a partir da inauguração do Teatro Maria Della Costa. Tania Brandão realça a relevância da companhia, que teria sido encoberta pela trajetória do Teatro Brasileiro Comédia (TBC), mantido por meio de estratégia parecida: a alternância entre repertório dramatúrgico consistente (para garantir a respeitabilidade do empreendimento, iniciativa determinante no começo do teatro brasileiro moderno) e comercial (visando à sobrevivência econômica).
Ao longo de sua carreira, Maria Della Costa integrou montagens de textos ocasionalmente ousados, importantes (Mirandolina, de Carlo Goldoni, A Casa de Bernarda Alba e Bodas de Sangue, de Federico Garcia Lorca, A Alma Boa de Setsuan, de Bertolt Brecht, Depois da Queda, de Arthur Miller, As Alegres Mulheres de Windsor, de William Shakespeare, entre tantos outros), com algum destaque para a dramaturgia brasileira (Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, Gimba – Presidente dos Valentes, de Gianfrancesco Guarnieri). Trabalhou com diretores estrangeiros, que influenciaram decisivamente nos rumos da cena nacional – Ziembinski, Ruggero Jacobbi, Flamínio Bollini Cerri, Maurice Vaneau, Alberto D’Aversa, Gianni Ratto (que Maria e Sandro trouxeram da Itália) –, e com brasileiros promissores – Flávio Rangel. E deu a Fernanda Montenegro, então atriz de sua companhia, uma primeira grande oportunidade ao permitir que fizesse o papel principal na montagem de A Moratória, de Jorge Andrade, assinada por Ratto, em 1955.
Saulo Rodrigues e Angela Câmara em Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir (Foto: Dalton Valério)
O Prêmio Cesgranrio de Teatro, em sua segunda edição, consagrou Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir, montagem dirigida por Ivan Sugahara para o texto de Tennessee Williams. Apresentada em formato itinerante – e durante a tarde – na Casa da Glória, a encenação traz à tona uma das principais características do trabalho de Sugahara à frente da Cia. Os Dezequilibrados: o aproveitamento de espaços não-convencionais. Saiu da cerimônia ocorrida na noite da última terça-feira, no Copacabana Palace, com os prêmios de melhor espetáculo e iluminação (Renato Machado, que se viu diante do desafio de lidar com a luz do dia).
Três montagens com distintas filiações ao gênero musical receberam dois prêmios cada: Samba Futebol Clube, a cargo de Gustavo Gasparani, que entrelaça músicas e textos concebidos em torno do universo do futebol; O Grande Circo Místico, assinado por João Fonseca, que propôs mudanças em relação à encenação do início da década de 1980, a julgar pela inclusão de um texto e por canções acopladas ao repertório original; e As Bodas de Fígaro, texto de Beaumarchais transformado em ópera por Mozart (aproximado, por Leandro Castilho, de ritmos brasileiros).
Nas categorias ator e atriz venceram Candido Damm, que celebrou sua longa parceria artística com o diretor Aderbal Freire-Filho, e Suzana Faini, pela interpretação da autoritária matriarca de Silêncio!. Homenageado da noite, Ney Latorraca falou sobre a sua trajetória e celebrou a atriz Maria Della Costa, que morreu no último sábado, também evocada por Lilia Cabral (apresentadora da cerimônia ao lado de Paulo Betti), que destacou a importância dela em sua formação como espectadora.
Premiados:
Espetáculo – Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir
Direção – Gustavo Gasparani (Samba Futebol Clube)
Direção Musical – Leandro Castilho (As Bodas de Fígaro)
Ator – Candido Damm (Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum)
Atriz – Suzana Faini (Silêncio!)
Ator em Musical – Gabriel Stauffer (O Grande Circo Místico)
Atriz em Musical – Solange Badim (As Bodas de Fígaro)
Autor – Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes (O Dia em que Sam Morreu)
Cenografia – Nello Marrese (O Grande Circo Místico)
Figurino – Marcelo Marques (Edypop)
Iluminação – Renato Machado (Fala Comigo como a Chuva e me Deixa Ouvir)
Categoria Especial – Renato Vieira (pela direção de movimento de Samba Futebol Clube)
Isabel Teixeira, Julia Bernat e Stella Rabello em E se elas fossem para Moscou? (Foto: Paulo Camacho)
O conjunto de montagens apresentado em 2014 parece evidenciar alguns desequilíbrios. A produção do primeiro semestre – que concentrou trabalhos como 12 Homens e uma Sentença, E se elas fossem para Moscou?, Contrações, O Duelo e Samba Futebol Clube – se revelou bem mais sólida do que a do segundo. As atrizes brilharam mais do que os atores, a julgar pelas ótimas atuações de Ana Beatriz Nogueira, Carol Badra, Claudia Ventura, Debora Lamm, Isabel Teixeira, Miwa Yanagizawa, Nathalia Timberg, Solange Badim, Suzana Faini e Yara de Novaes – cabe, porém, lembrar das interpretações de Henrique Cesar, Isio Ghelman, Leopoldo Pacheco e Sergio Siviero. Houve interessantes propostas cenográficas, expressivas concepções no terreno da iluminação, mas reduzidas criações dignas de nota no setor dos figurinos.
Foi um ano particularmente fraco para a dramaturgia brasileira, valendo fazer breves menções ao trabalho de Marcia Zanelatto com a linguagem poética (em Desalinho), de Jô Bilac com o universo de Oscar Wilde (em Beije minha Lápide) e de Emanuel Aragão conectando a estrutura do texto com as condições de seus personagens (em Plano sobre Queda). Tchekhov rendeu duas apropriações instigantes, realizadas por Christiane Jatahy (em E se elas fossem para Moscou?) e por Georgette Fadel (em O Duelo). Além de Jatahy e Fadel, outros diretores imprimiram assinaturas marcantes, como Guilherme Leme Garcia (em Trágica.3 e Da Vida das Marionetes), Roberto Alvim (em Tríptico Samuel Beckett), Victor García Peralta (em Uma Relação Pornográfica) e Inez Viana (em O que você viu), sem perder de vista a prova de fôlego de Bruce Gomlevsky (que reeditou Festa de Família e encenou O Funeral).
Os musicais se apresentaram com esperado destaque, mas as melhores contribuições não seguiram formatações convencionais: Samba Futebol Clube abraçou a produção de décadas por meio de estrutura não-linear (ainda que houvesse espinha dorsal definida para o primeiro e o segundo ato) e As Bodas de Fígaro ganhou com direção musical singular para o original de Beaumarchais. No campo internacional desembarcaram no Rio de Janeiro a estética minuciosamente construída de Bob Wilson (The Old Woman) e a montagem sintética do Shakespeare’s Globe (Hamlet).
10 ESPETÁCULOS:
12 HOMENS E UMA SENTENÇA – Eduardo Tolentino de Araújo manteve, nessa montagem do original de Reginald Rose, a preocupação em valorizar o texto e o trabalho do ator, características de sua condução dentro do Grupo Tapa. No elenco, destaque para a interpretação de Henrique César.
BEIJE MINHA LÁPIDE – Jô Bilac procura capturar – com alguma irregularidade – a atmosfera de Oscar Wilde. Há uma sintonia entre texto e os elementos da montagem, dirigida por Bel Garcia, que realça certo jogo de espelhos, sintetizado na imponente cenografia de Daniela Thomas. Também cabe destacar o rendimento do elenco, os vídeos concebidos por Julio Parente e Raquel André e, em especial, a iluminação de Beto Bruel.
AS BODAS DE FÍGARO – Daniel Herz conduz simpática montagem do texto de Beaumarchais (transformado em ópera por Mozart). Acumulando direção musical com atuação, Leandro Castilho se apropriou do material original. O rendimento do elenco é irregular, mas o engajamento dos atores pode ser percebido na relação com variados instrumentos. Com timing preciso, Solange Badim e Claudia Ventura apresentam excelentes trabalhos.
CONTRAÇÕES – A montagem do texto de Mike Bartlett evidencia integração entre as questões abordadas e os procedimentos da encenação. A diretora Grace Passô realça a artificialidade do contrato de relação imposto pela gerente à funcionária por meio da exposição da construção da cena, em especial no que se refere à trilha sonora (Dr. Morris), produzida diante da plateia. Algumas soluções da direção resultam excessivamente literais, mas o espetáculo tem a seu favor a excepcional atuação de Yara de Novaes.
CONVERSAS COM MEU PAI – Depois de Festa de Separação, Janaína Leite segue investindo no registro interpretativo em primeira pessoa, vertente destacada no teatro contemporâneo que não se reduz ao mero desabafo. Nesse trabalho, a atriz coloca o público diante de propostas espaciais contrastantes, entre a cena destituída de elementos e a repleta, com aspecto de locação.
O DUELO – A partir do texto de Anton Tchekhov, Georgette Fadel assina uma encenação dotada de fluxo contínuo. A teatralidade fica evidente na utilização dos elementos básicos, como o plástico manipulado pelos atores para “produzir” o movimento do mar. É uma cena crua, distante da grandiosidade. Os atores demonstram envolvimento na construção da cena. Destaque para Sergio Siviero.
E SE ELAS FOSSEM PARA MOSCOU? – Christiane Jatahy dá continuidade à sua pesquisa relacionada à interface teatro/cinema com dois trabalhos, apresentados concomitantemente, a partir de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov: uma montagem e um filme decorrente do registro dessa montagem. Na encenação, a diretora coloca em tensão a estrutura realista e contrasta a atmosfera de época com tom contemporâneo. A atriz Isabel Teixeira sobressai, irrepreensível no preenchimento dos silêncios.
UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA – Apesar da previsibilidade do texto de Philippe Blasband, o diretor Victor Garcia Peralta assina uma montagem sem excessos, algo austera, marcada por movimentos contidos. Ana Beatriz Nogueira se apresenta com porte, com elegância que, porém, não esfria sua atuação. Vale destacar também a iluminação de Maneco Quinderé, que insere cor numa cena tomada por tons neutros.
SAMBA FUTEBOL CLUBE – Gustavo Gasparani contou com ótima equipe nesse novo musical, que não foi estruturado de acordo com uma convencional ordenação cronológica. Foi bem amparado pela pesquisa musical de Alfredo Del Penho e pela de textos de João Pimentel, pela direção de movimento e as coreografias de Renato Vieira, pela direção musical de Nando Duarte e pelo elenco entrosado e homogêneo.
TRÍPTICO SAMUEL BECKETT – Fiel às bases de seu teatro, Roberto Alvim reúne três textos de Samuel Beckett em espetáculo austero, impactante e destituído de ornamentos, características que potencializam a sensação de exasperação diante das questões que vêm à tona durante a encenação – a impossibilidade de reter a passagem do tempo, a solidão e a morte. Entre as atrizes, Nathalia Timberg consegue aproximar mais o texto do espectador.