Uma festa para João Bethencourt

João Bethencourt, dramaturgo homenageado na mostra em cartaz no Teatro Glauce Rocha (Foto: Reprodução)
Um dos maiores nomes da tradição da comédia de costumes, gênero que atravessa a história do teatro brasileiro desde o começo do século XIX, João Bethencourt (1924-2006) está ganhando homenagem. A programação da mostra João Bethencourt – Um Homem de Teatro, resultado da soma de esforços de Cristina Bethencourt (filha do autor), Tania Brandão e Silvia Monte, inclui leituras dramatizadas de algumas de suas peças e exposição – tudo em cartaz no Teatro Glauce Rocha, com entrada gratuita, até 10 de dezembro.
Nascido na Hungria, Bethencourt construiu sólida trajetória no Brasil como diretor e, principalmente, como dramaturgo. Entre as suas peças, As Provas do Amor foi montada por Maurice Vaneau no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e A Ilha de Circe ou Mister Sexo, sob a sua condução, no Teatro do Rio, grupo liderado por Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque. Outros textos foram aclamados pelo público – casos de O Dia em que Raptaram o Papa (consagrada no exterior), Bonifácio Bilhões e A Venerável Madame Goneau.
Apesar de formado como engenheiro agrônomo, Bethencourt se aprimorou no terreno artístico na Universidade de Yale. Estabeleceu parcerias duradouras, em especial com o ator Jorge Dória e com o diretor José Renato, participou das efervescentes domingueiras na casa de Anibal Machado e conviveu com os produtores Jorge Ayer e Oscar Ornstein. Adaptou e traduziu diversas peças, sinalizando particular interesse pela dramaturgia de Molière. Não por acaso, dirigiu montagens de Escola de Mulheres, O Doente Imaginário, As Malandragens de Scapino e O Avarento.
Bethencourt também assinou encenações de muitas comédias, como Plaza Suíte, de Neil Simon (com Fernanda Montenegro encabeçando o elenco), A Gaiola das Loucas, de Jean Poiret, Camas Redondas, Casais Quadrados, de Ray Cooney e John Chapman, A Divina Sarah, de John Muriel (com Tonia Carrero), O Amante Descartável, de Gerard Lauzier, Quarenta Quilates e Lily e Lily (as duas últimas de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy e em montagens protagonizadas, respectivamente, por Henriette Morineau e Eva Todor). Dirigiu ainda a renomada atriz portuguesa Eunice Muñoz em Summer and Smoke, de Tennessee Williams. Sua experiência no campo da direção foi comprovada no mundo acadêmico, mais exatamente no Departamento de Direção da UniRio.
Para o ciclo de leituras que está sendo apresentado, às quartas-feiras, na Sala Murilo Miranda, foram selecionadas as peças O Colar da Rainha (lida, com direção de Silvia Monte, na semana passada), Tem um Psicanalista na Nossa Cama (atração de hoje, com direção de Paula Sandroni), a citada Bonifácio Bilhões (marcada para semana que vem, com direção de Antonio Gilberto) e A Ovelha Rebelde (agendada para o dia 3 de dezembro, com direção de Cristina Bethencourt). Em relação a Tem um Psicanalista…, uma informação curiosa: de início, a peça se chamava Dolores Três Vezes por Semana. O título confundiu parte do público, que acreditou que a encenação era realizada três vezes por semana. Diante dessa indefinição, o espetáculo não fez boa bilheteria. Mas se tornou sucesso a partir do instante em que foi rebatizado.
No que diz respeito à exposição, com curadoria de Tania Brandão e Cristina Bethencourt e disposta no foyer do Teatro Glauce Rocha, reúne fotos e programas de espetáculos, maquetes de cenário e objetos pessoais do dramaturgo, como a máquina de escrever em que trabalhava e prêmios de teatro conquistados. A programação terminará no dia 10 de dezembro, data em que Bethencourt completaria 101 anos, com uma festa teatral.
Com percurso profissional abordado por Rodrigo Murat no livro O Locatário da Comédia (Imprensa Oficial), João Bethencourt é um mestre do vaudeville e um dos vários autores brasileiros pouco lembrados no aqui/agora. Por isso, a mostra dedicada a ele surge como uma oportunidade preciosa.
Exposição – De qua. a dom., das 14h às 18h30. Foyer do Teatro Glauce Rocha (Av. Rio Branco, 179). / Leituras Dramatizadas – Às qua., das 18h30 às 20h30. Sala Murilo Miranda (Av. Rio Branco, 179, 8º andar). / Festa Teatral – Dia 10/12, às 18h30. Sala Murilo Miranda (Av. Rio Branco, 179, 8º andar).





