Destaques da cena em 2025

Bruna Guerin, Marília Lopes, Guilherme Magon, George Sauma e Felipe Hintze: conjunto afinado (Foto: Ale Catan)
CANÇÕES QUE EU GUARDEI PRA VOCÊ – O espetáculo do Núcleo Experimental, resultante da parceria entre o diretor Zé Henrique de Paula e a diretora musical Fernanda Maia, não ambiciona uma subversão do musical, mas não se limita a reeditar padronizações do gênero. “Leva a sério” as situações da peça de Bernardo Marinho e Valentina Castello Branco, ao mesmo tempo em que eventualmente as desconstrói. O objetivo não é conscientizar o espectador em relação a alguma problemática, e sim envolvê-lo num prazeroso jogo teatral. Em destaque, as atuações de Bruna Guerin, bastante divertida nas faíscas de descontrole e na evidenciação física da crescente indecisão da personagem, e Guilherme Magon, que acentua um perfil específico através de sotaque e voz anasalada, elementos que não chegam a tipificá-lo.

João Côrtes, Julia Lund e Igor Fortunato: entre o distanciamento do relato e a intensidade do instante (Foto: Elisa Mendes)
EDDY – VIOLÊNCIA E METAMORFOSE – A encenação dirigida por Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky a partir de livros de Édouard Louis demonstra fidelidade e amadurecimento em relação à pesquisa artística da Polifônica Companhia, voltada para a transposição para o palco de material literário ocasionalmente centrado em depoimentos de indivíduos confrontados com situações extremadas. A companhia também dá continuidade à articulação entre teatro e cinema – o primeiro calcado numa “essencialidade” que se traduz na priorização do ator e da palavra e o segundo, na necessidade do aparato tecnológico, de imagens que transcendem as “limitações” do espaço teatral. Os integrantes do elenco (João Côrtes, Igor Fortunato e Julia Lund) administram a alternância entre um certo distanciamento emocional próprio do relato e a intensidade do acontecimento no instante em que transcorre.

Rodrigo Fagundes e Lucas Drummond: habilidade no humor doce-amargo (Foto: Costa Blanca Films)
O FORMIGUEIRO – Autor do texto e diretor da montagem, Thiago Marinho imprime humor doce-amargo, transitando entre uma linha de comicidade aberta, expansiva, e certa melancolia quando os personagens – irmãos reunidos para a comemoração do aniversário da mãe, em estado avançado de Alzheimer – externam verdades dolorosas. Marinho demonstra apreciável domínio de escrita em momentos em que os personagens, envolvidos em ações concomitantes, não estabelecem, de fato, uma interação. E articula bem os personagens com a figura da mãe, presente e mencionada durante todo o tempo, simbolizada pelo xale na cadeira de rodas, invisível aos olhos dos espectadores.

Eduardo Moscovis: Narração com pleno domínio da emoção (Foto: Catarina Ribeiro)
O MOTOCICLISTA NO GLOBO DA MORTE – O dramaturgo Leonardo Netto criou um personagem conflituado, que se apresenta como indivíduo pacífico, avesso a embates, mas que se surpreende com a própria reação ao ser confrontado com atitudes brutais, perversas. Em cena, Eduardo Moscovis domina o recurso da narração, presentificando o relato dos acontecimentos. A sintonia com o aqui/agora do ato teatral faz com que a fala do ator surja preenchida por imagens devidamente “visualizadas” pelo espectador. Moscovis demonstra pleno controle da emoção, considerando o modo como a inclui em trechos do depoimento. O diretor Rodrigo Portella renuncia à exuberância, optando pelo despojamento visual – mas um minimalismo minuciosamente concebido, conforme se pode perceber, em especial, na iluminação de Ana Luzia de Simoni.

Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar: violência estampada no corpo (Foto: Ligia Jardim)
VEIAS ABERTAS 60 30 15 SEG – Na dramaturgia cênica do espetáculo d’Aquela Cia., o caráter enérgico e contagiante da dança surge em incômodo contraste com toda a violência tematizada no texto autoral de Carolina Lavigne e Pedro Kosovski – a partir do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano – e ao longo da encenação de Marco André Nunes: a violência vivenciada, em diversos momentos históricos, pelos muitos oprimidos em diferentes países da América Latina. Não por acaso, o corpo desponta de maneira central na cena (a direção de movimento de Marcia Rubin se revela fundamental). Cabe destacar a atuação de Carolina Virgüez, que sobressai pelo domínio da palavra, proferida com contundência, e do corpo, em passagens que surpreendem pelo controle físico.


