Calorosos elos afetivos

Taís Araujo interpreta Mayah em Mudando de Pele (Foto: Nana Moraes)
A transição atravessada por Mayah, personagem de Mudando de Pele, peça de Amanda Wilkin interpretada por Taís Araujo, é evidenciada por meio das palavras e da concepção da cena. No texto, Mayah termina um relacionamento amoroso, se desliga, de modo contundente, do emprego e vai morar na casa de Mildred, idosa jamaicana com quem estabelece conexão sólida, num prédio repleto de ruídos que sinalizam calorosos elos afetivos. Realçando o rito de passagem de Mayah – um processo vinculado e, ao mesmo tempo, que transcende a questão racial –, o palco do Teatro Sesc Ginástico, onde a montagem dirigida por Yara de Novaes está em cartaz, se transforma num espaço cada vez mais personalizado.
No começo, o espaço parece árido, com poucos elementos que não fornecem uma ambientação minuciosa e nem sintetizam o mundo de Mayah, apesar de pertencerem a ele. Na parte restante do palco, o público se depara com uma mesa onde artistas produzem sonoridades para a cena. Existe, portanto, um dentro e um fora da peça inseridos no palco. De um lado, a apresentação, ainda que reduzida, de um espaço próprio da personagem; de outro, a exposição da mecânica, da engrenagem, da partitura sonora do espetáculo. As musicistas Dani Nega e Layla acumulam o dentro e o fora ao participarem da construção da cena e interagirem com a atriz/personagem.
Na peça de Wilkin, traduzida por Diego Teza, Mayah também se encontra dentro e fora das situações. Mayah narra aquilo que vivenciou. Está descolada das circunstâncias, mas nem por isso sua postura é fria e distanciada. A vivência se manifesta tanto nos momentos localizados no presente quanto naqueles em que narra de forma comprometida algo que aconteceu. Na narração/passado e na vivência/presente, Mayah se revela intensa, assim como a atriz que a interpreta. Mas a personagem não é plana. Seu estado de espírito altera – e, com ele, o palco, que vai sendo florestado, à medida que a encenação avança, por meio da inclusão de plantas em oposição à tela com paisagem artificial e gasta inicialmente disposta diante da plateia (cenografia de André Cortez).
A mudança pessoal de Mayah é mostrada, nessa montagem, de maneira mais exteriorizada, característica, até certo ponto, estimulada pelo formato narrativo da peça (que lembra Prima Facie, texto de Suzie Miller, outro solo bem-sucedido conduzido por Yara de Novaes). A encenação de Mudando de Pele reforça esse formato narrativo através de excessivas marcações frontais da atriz, que direciona boa parte das falas para o público. A previsibilidade da movimentação, porém, não chega a engessar o espetáculo. Há, pelo menos, uma cena que dimensiona a quebra das barreiras emocional na jornada de Mayah: aquela em que Mildred mexe no cabelo de Mayah, instante lancinante destacado pela interpretação sensível de Taís Araujo. O desenho que a atriz traça de Mayah é nítido e não restrito a um perfil externo. Além disso, Taís compõe as personagens citadas na peça sem cair nas armadilhas da dispersão e da exibição de versatilidade.
Em relação às demais criações que constituem o espetáculo, há uma valorização da teatralidade. A iluminação de Gabriele Souza oscila entre contrastes – em especial, entre o meio tom e a explosão de luz. Os figurinos de Teresa Nabuco propõem um aproveitamento inventivo através de recombinações da mesma roupa, ideia louvável, mas parcialmente concretizada.
Em Mudando de Pele, o público é colocado diante da estrutura da peça, por meio do recurso da narração, e da montagem, através de constante reconfiguração cênica. Mas essas escolhas não afastam o espectador, envolvido pelo resultado contagiante.
MUDANDO DE PELE – Texto de Amanda Wilkin. Direção de Yara de Novaes. Com Taís Araujo. Participações de Dani Nega e Layla. Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, 187). Qui. e sex. às 19h, sáb. e dom., às 17h. Ingressos: R$ 60,00 (inteira), R$ 30,00 (meia-entrada), R$ 15,00 (credencial plena Sesc e conveniados), gratuito (público cadastrado no PCG). Até domingo.