Transparência e artifício

Luciana Lopes em Incondicionais, encenação da Amik Teatro (Foto: Renato Mangolin)

A companhia Amok Teatro passou por transições desde que foi fundada em 1998. Essas mudanças dizem respeito à concepção da cena. Os primeiros espetáculos do grupo conduzido por Ana Teixeira e Stephane Brodt traziam exuberância, não no sentido do deslumbramento visual estéril, e sim na revelação, por meio de refinadas criações formais, de universos distantes da esfera do cotidiano. A partir da Trilogia da Guerra (O Dragão, Kabul e Histórias de Família), as encenações se tornaram mais austeras e norteadas pela síntese. A valorização de artistas e personagens negros, que afirmam suas identidades em meio a contextos opressivos, se acentuou nos trabalhos posteriores. A Amok se aproximou mais da realidade – não a necessariamente reconhecível, de imediato, pelo público brasileiro –, mas a das tragédias que assolam o mundo.

Ao enveredar por um caminho distinto, a Amok não se desvinculou por completo de seu passado. O espectador pode voltar a encontrar proposições estéticas bastante sofisticadas, a exemplo da recente montagem de Furacão. A natureza ritualizada de uma cena marcada pela precisão permanece, mesmo que de maneira menos evidente. Nem tudo foi alterado: os diretores da companhia continuam investindo em adaptações de textos já existentes e em operações dramatúrgicas nascidas da conjugação de obras diversas.

Nesse segundo caso está Incondicionais, montagem em cartaz até domingo no Espaço Sesc. O texto, assinado por Teixeira e Brodt, surgiu de articulação com os livros Prisioneiras, de Dráuzio Varella, Presos que Menstruam, de Nana Queiroz, Prisioneiras – Vida e Violência atrás das Grades, de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz, e, principalmente, Cadeia – Relatos sobre Mulheres, de Débora Diniz. Trata-se de uma dramaturgia formada por depoimentos, atrelada ao real, em assumida conexão com o documental. Os diretores desenvolveram um texto que entrelaça as jornadas de detentas e o breve, mas intenso, contato com funcionárias/assistentes dentro do presídio feminino. As atrizes se revezam entre as personagens das presas e das funcionárias – todas nominadas, com personalidades próprias, ao invés de reduzidas a suas funções. O objetivo não é fazê-las experimentar dois lados de uma realidade dramática. As personagens não se dividem entre heroínas e vilãs. A lógica maniqueísta não rege uma dramaturgia na qual impera a solidariedade – insuficiente, porém, para interferir na estrutura de um sistema desigual e perverso.

O texto sugere uma busca pela transparência, por uma concretude que não dá margem a abstrações. Não há propriamente desafios e obstáculos à apreciação, lacunas a serem preenchidas pela imaginação do espectador. Os autores transmitem discursos diretos, apresentam um quadro social contundente, mostram o sofrimento de mulheres vitimadas pela violência.

Essa clareza também se materializa numa cena limpa. A cenografia de Ana Teixeira reúne elementos básicos (mesa, bancos, cadeiras, mesas, copos, recipientes de comida, papéis e canetas). Um objeto discreto – o pequeno espelho usado pelas personagens – remete, longinquamente, ao espaço do teatro, aos camarins do Théâtre du Soleil (mas em escala diminuta), onde os dramaturgos/diretores trabalharam, nichos nos quais os atores da companhia francesa se maquiam à vista do público antes do espetáculo começar. Há uma grade de ferro ao fundo do palco, que separa a sala para onde as presas são trazidas e colocadas diante das assistentes do restante dos espaços do presídio, inacessíveis aos olhos dos espectadores. Dentro dessa configuração, cabe questionar a utilização parcial da arena, considerando a escassez de teatros com esse formato no Rio de Janeiro.

Os figurinos de Stephane Brodt são fiéis aos trajes de detentas e funcionárias, mas não se limitam exatamente à reprodução; seguem uma simplicidade rigorosa, têm teatralidade. A iluminação de Renato Machado concilia o plano geral, panorâmico, referente a uma realidade adversa comum às personagens aprisionadas, com a individualização de cada uma delas. A inserção da música como dramaturgia na cena, característica da Amok, ocorre, em Incondicionais, através do canto, entoado pelas atrizes dentro das circunstâncias presentes no texto.

O registro interpretativo, contudo, destoa, pelo menos em parte, desse teatro de construção oculta. As atrizes – Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo – imprimem vozes impostadas, articuladas, que expõem o artifício da composição. São atuações que aparecem, diferentemente da organicidade das demais criações que integram essa encenação dirigida, em parceria, por Ana Teixeira e Stephane Brodt. Apesar disso, as atrizes interpretam as personagens com sinceridade e sem idealização.

Incondicionais oscila entre um teatro de técnica invisível, mais refinado na concepção da cena do que da dramaturgia, e outro que se anuncia, em especial por meio das vozes de suas intérpretes. Mas, em que pese certa contradição, a montagem sinaliza a fidelidade de Ana Teixeira e Stephane Brodt à investigação do real, uma das vertentes determinantes de uma companhia consistente como a Amok.

INCONDICIONAIS – Texto e direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt. Com Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo. Espaço Sesc – Arena (R. Domingos Ferreira, 160). Qui. e sex., às 20h, sáb. e dom., às 18h. Ingressos: R$ 30,00, R$ 27,00 (conveniados), R$ 21,00 (credencial plena Sesc), R$ 15,00 (meia entrada) e gratuito (público cadastrado no PCG).