Uma carreira marcada pela excelência

Beatriz Segall em Emily, monólogo em que interpretou a escritora Emily Dickinson (*)
A importância de Beatriz Segall, que completou centenário de nascimento no dia 25 de julho, supera, em muito, a imagem de austeridade decorrente, em grande medida, das personagens de sucesso que interpretou com excelência em novelas de televisão. No teatro, manteve assiduidade desde meados da década de 1960, quando retomou a carreira iniciada no começo dos anos 1950 na companhia Os Artistas Unidos – iniciativa liderada por Henriette Morineau, Carlos Brant e Helio Rodrigues, e centrada no repertório de boulevard, nas montagens de Um Cravo na Lapela, de Pedro Bloch, e Jezabel, de Jean Anouilh.
Morineau foi uma das presenças fundamentais no início da trajetória profissional de Beatriz (cabe assinalar outra influência, a de Sadi Cabral no curso do Serviço Nacional de Teatro, do qual a atriz participou). Ao voltar para os palcos em 1964, Beatriz substituiu Morineau na encenação de Andorra, de Max Frisch, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina. Na companhia, integrou ainda o elenco da montagem de Os Inimigos, de Máximo Gorki.
Durante a ditadura militar, período atravessado por violência que vitimou diversos artistas, Beatriz adotou postura combativa ao lado do marido, Mauricio Segall. Ambos estiveram à frente do Theatro São Pedro, marcado, na época, por espetáculos como A Longa Noite de Cristal, de Oduvaldo Vianna Filho (direção de Celso Nunes), A Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade, de Tankred Dorst (direção de Gianni Ratto), e Frank V, de Friedrich Dürrenmatt (direção de Fernando Peixoto). A montagem de O Interrogatório, de Peter Weiss, se tornou um capítulo à parte. Antes da estreia, Mauricio foi preso e ficou desaparecido. Beatriz, então, passou a conduzir os rumos do São Pedro.

Beatriz Segall em A Senhora das Cartas, solo pertencente ao projeto Retratos Falantes, do Grupo Tapa (Foto: Paulo Emilio)
Na segunda metade da década de 1970, Beatriz Segall conquistou projeção pública graças à televisão e brilhou na encenação de Flavio Rangel para À Margem da Vida, de Tennessee Williams. Nos anos 1980, interpretou, com grande sensibilidade, duas escritoras: Emily Dickinson – em Emily, de William Luce, em solo a cargo do jovem Miguel Falabella – e Lillian Hellman – em Lillian, monólogo assinado por José Possi Neto. Mais um feito considerável: O Manifesto, de Brian Clark, montagem dirigida por Possi, em que dividiu o palco com Claudio Corrêa e Castro.
Nessa mesma década firmou sólido encontro com o Grupo Tapa. Assim como Beatriz, o coletivo capitaneado por Eduardo Tolentino de Araujo valoriza a dramaturgia consistente, seja brasileira, seja estrangeira. A atriz trabalhou com o Tapa em O Tempo e os Conways, de J.B. Priestley. A parceria ganhou continuidade, mais de dez anos depois, com Do Fundo do Lago Escuro, de Domingos Oliveira, e, na primeira década do século XXI, com A Senhora das Cartas, solo pertencente ao projeto Retratos Falantes, de Alan Bennett. Estabeleceu contato com mais um grupo célebre, o Galpão, em A Guerra Santa, de Luís Alberto de Abreu.
A qualidade da dramaturgia permaneceu como espinha dorsal no percurso de Beatriz Segall no teatro, a exemplo de Três Mulheres Altas, de Edward Albee, Ponto de Vista, de David Hare, espetáculos em que desenvolveu o vínculo com o encenador José Possi Neto, e Estórias Roubadas, de Donald Margulies, montagem intimista de Marcos Caruso. E Beatriz não perdeu o elo com o texto brasileiro, conforme se percebeu em O Lado Fatal, de Lya Luft, derradeira realização do diretor Marcio Vianna, que morreu precocemente, e Quarta-feira, sem Falta, lá em Casa, comédia de costumes de Mario Brasini levada ao palco por Alexandre Reinecke.
Professora de francês na juventude, Beatriz Segall não se desconectou do ensino – não por acaso, resgatando-o nas últimas décadas. Uma dedicação que diz bastante sobre uma atriz intensamente comprometida com o trabalho, detalhista na construção das personagens e avessa aos holofotes.
(*) A foto, retirada do programa de sala da encenação de Emily, não tem autoria específica estabelecida. No programa consta que as fotos são de Alair Gomes e Ivan Lima.