Específico e universal

Jiddu Pinheiro e Paula Cohen em Finlândia (Foto: José de Holanda)
Desde o título, essa peça do dramaturgo francês Pascal Rambert sublinha uma especificidade. Finlândia é o país onde a história se passa – mais exatamente, dentro de um quarto de hotel, em Helsinque. As particularidades se estendem nessa montagem, em cartaz no Teatro Domingos de Oliveira, que atribui aos personagens os mesmos nomes do ator e da atriz que os interpretam. E, como os personagens do texto, Paula Cohen e Jiddu Pinheiro formam um casal na vida real. Essas aproximações, porém, têm o objetivo de mostrar como os conteúdos abordados na peça são universais.
Os personagens se chamam, aqui, Paula e Jiddu, evidenciando o comprometimento dos artistas, mas poderiam ter quaisquer nomes. O desgastado panorama humano descortinado é facilmente reconhecível. De um lado, a esposa, que expõe a reduzida ambição profissional e denuncia o jogo de manipulação na esfera conjugal orquestrado pelo marido; do outro, o marido a acusa de priorizar o trabalho em detrimento da convivência familiar e tenta retomar o casamento a partir de uma determinação autoritária, encoberta, até então, por sua postura aparentemente submissa.
No entanto, esse embate feroz, que acontece numa longa jornada madrugada adentro, não escapa totalmente do genérico. O texto se inscreve na tradição de peças que colocam o leitor/espectador diante do digladiar de um casal, como Quem tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee, só para citar um exemplo emblemático. O conflito centrado na relação oposta que marido e esposa estabelecem com o sistema – como atriz, ela adere a projetos de mercado, enquanto ele continua atado aos princípios ideológicos da juventude – também não é propriamente original. Remete a peças como Mão na Luva, de Oduvaldo Vianna Filho. Além disso, apesar de o comportamento dos personagens trazer, no decorrer de Finlândia, novas informações e camadas sobre eles (em especial, no caso de Jiddu), a dinâmica muda pouco (ela reclamando e agindo de maneira cada vez mais enfática, ele se defendendo e ameaçando), o que gera uma sensação de repetição.
A montagem de Pedro Granato segue, à primeira vista, a linha realista na apresentação do confronto do casal. O palco tem a área da cena delimitada pela cenografia de Marisa Bentivegna, que insere os personagens no espaço descrito na peça (o quarto de hotel), mas com recintos apenas sugeridos, invisíveis aos olhos dos espectadores, como a cozinha do apartamento. Quando a personagem realiza um movimento amplo, largo, para sinalizar a abertura da janela do apartamento, algum estranhamento se impõe. Não parece, contudo, haver a intenção de quebrar com a ambientação proposta, realçada pelas gradações sutis da iluminação de Bentivegna e pelos figurinos de Iara Wisnik, não muito práticos para Paula Cohen, que, ocasionalmente, precisa ajeitar a roupa. De qualquer modo, em dado instante – aquele em que o casal interrompe a sucessão de agressões e volta a se conectar no campo sexual –, a filiação da peça de Rambert à vertente realista é relativizada. A luz adquire tonalidades fortes e exuberantes (vermelho e azul, as cores dos figurinos). E a fisicalidade cotidiana é substituída pela dança executada por Paula Cohen.
Os recursos de cena – há ainda projeções no cenário – não se sobrepõem às atuações, valorizadas em primeiro plano. Paula Cohen não investe numa evolução previsível do estado emocional da personagem. A atriz demonstra habilidade tanto na dosagem de diferentes temperaturas dramáticas quanto no trânsito entre o realismo e a eventual suavização dessa linguagem. Jiddu Pinheiro se distancia da obviedade ao buscar entonações distintas para trechos do texto e destaca facetas diversas de um personagem menos linear do que insinua no início. Turí completa o elenco em participação na parte final.
À medida que a peça se desenrola, Rambert amplia a percepção do leitor/espectador a respeito dos personagens. Mas a briga permanente e exaltada entre eles possui uma certa uniformidade de tom que o espetáculo não soluciona. Mesmo assim, as interpretações de Paula Cohen e Jiddu Pinheiro e as proposições artísticas que integram a cena sustentam o interesse em torno de Finlândia.
FINLÂNDIA – Texto de Pascal Rambert. Direção de Pedro Granato. Com Paula Cohen, Jiddu Pinheiro e Turí. Teatro Domingos de Oliveira (Av. Padre Leonel Franca, 240). Sex. e sáb., às 20h30 e dom., às 19h. Ingressos: R$ 50,00 e R$ 25,00 (meia-entrada).


