Schiller ao sabor do tempo

Virginia Cavendish, Ana Cecília Costa e Letícia Calvosa em Mary Stuart (Foto: Priscila Prade)
O cronômetro permanentemente projetado na tela de fundo do cenário da versão de Nelson Baskerville para Mary Stuart está, de certa forma, inserido na circunstância da peça de Friedrich Schiller. Sinaliza os últimos momentos da rainha Mary Stuart, aprisionada há 18 anos pela também rainha Elizabeth I e prestes a ser condenada à morte. Mas esse elemento transcende a esfera ficcional e traz à tona uma tendência frequente em montagens de textos clássicos (que, felizmente, têm aparecido com crescente assiduidade no recente panorama da cena do Rio de Janeiro): a preocupação em estabelecer elo com o espectador contemporâneo por meio de encenações aceleradas e de sonoridades veementes.
Nesse espetáculo que sai de cartaz hoje da Caixa Cultural/Teatro Nelson Rodrigues, o desejo de conexão com o público se manifesta por meio de alguns procedimentos: o ritmo veloz do texto, o acento contundente que o elenco confere às falas – na aparente intenção de revestir as palavras de um caráter de ação –, o destaque a projeções confirmando o habitual investimento no multimídia, o eventual uso da trilha sonora (de Daniel Maia) de modo grandiloquente e a tentativa de transmitir à plateia uma sensação de inclusão através de ocasionais marcações de cenas nas escadas do teatro. São escolhas que se impõem mais como gatilhos de sedução do que como proposições decorrentes de uma investigação verticalizada da peça.
Essas características se somam aos apelos contidos na adaptação de Robert Icke, que prioriza o aspecto de trama em detrimento da densidade do texto de Schiller. Mas, apesar do reducionismo, o público acompanha com interesse os desdobramentos do embate entre as duas rainhas, que se digladiam em conflito aquecido pelos demais personagens, que se posicionam em lados opostos e apresentam seus argumentos ou colocam em prática estratégias de manipulação.
Os recursos utilizados, tanto no plano da dramaturgia quanto no da encenação, para atrair a plateia ficam evidenciados no palco, que, porém, preserva uma noção de síntese, distante da espetaculosidade. A cenografia de Marisa Bentivegna é composta por escadas que não levam a lugar nenhum – ou levam a lugares invisíveis aos olhos dos espectadores, adquirindo, justamente por isso, qualidade sugestiva. São contribuições mais instigantes que as dispersivas projeções. Os figurinos de Marichilene Artisevskis fazem referência ao contexto histórico (golas aristocráticas) e aos tempos atuais, mas sem se fixarem nem no passado, nem no presente, o que amplia possibilidades de leitura. A iluminação de Wagner Freire oscila entre a panorâmica da cena e o recorte de determinados instantes.
O elenco, mesmo sintonizado na exaltada articulação do texto – registro exercido com especial habilidade por Cesar Mello –, demonstra domínio da palavra. Ana Cecília Costa dimensiona a autoridade e o desnorteio da rainha Elizabeth. A atriz se afasta do previsível, surpreendendo pelas entonações conferidas a trechos do texto, nos quais sobressai um jogo de representação e fingimento. Tangencia o artifício, mas não incorre no mero exagero. Virginia Cavendish, como Mary Stuart, imprime uma intensidade pouco orgânica nos primeiros minutos do espetáculo. Revela, contudo, segurança na cena mais importante: a do encontro entre as rainhas, quando transita por diferentes temperaturas emocionais.
A rivalidade entre Mary Stuart e Elizabeth I já rendeu encenações autorais, diretamente ligadas ou não ao texto de Schiller, como Denise Stoklos in Mary Stuart e Rainha(s): Duas Atrizes em Busca de um Coração, a cargo de Cibele Forjaz, além de montagens da peça original, realizadas por diretores como Gabriel Villela, Antonio Gilberto e, num passado mais longínquo, Ziembinski. O espetáculo de Nelson Baskerville, ainda que influenciado por uma recorrente e algo desgastado mecanismo de atualização do clássico, captura a atenção do público.
MARY STUART – Texto de Friedrich Schiller. Direção de Nelson Baskerville. Com Virginia Cavendish, Ana Cecília Costa/Ana Abbott, Letícia Calvosa, Adilson Azevedo, César Mello, Eucir de Souza, Joelson Medeiros, Jhonnas Oliva, Giovani Tozi, Alef Barros e Julia Terron. Caixa Cultural/Teatro Nelson Rodrigues (Av. República do Paraguai, 230). Qui. e sex., às 19h, sáb. e dom., às 18h. Ingressos: Plateia – R$ 40 e R$ 20 (meia); Balcão – R$ 30 e R$ 15 (meia). Último dia.








