Vida e morte do coletivo

Cena de Cão, espetáculo que reúne integrantes dos grupos Clowns de Shakespeare e Magiluth (Foto: Renato Mangolin)
Ao longo de suas trajetórias, as companhias Clowns de Shakespeare (de Natal) e Magiluth (do Recife) vêm realizando apropriações de renomadas obras da dramaturgia – a exemplo, do primeiro coletivo, de Sua Incelença, Ricardo III, Muito barulho por Quase Nada, ambos adaptados de peças de William Shakespeare, e Ubu – O que é Bom tem que Continuar, versão do texto de Alfred Jarry, e do segundo, de Édipo REC, a partir da tragédia de Sófocles, Dinamarca, decorrente de Hamlet, de Shakespeare, e Viúva porém Honesta, de Nelson Rodrigues. Em Cão, espetáculo concebido pelos dois grupos atualmente em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a inspiração foi Coriolano, de Shakespeare.
Nessa nova montagem, a intenção não foi reproduzir o enredo e os personagens da peça. A conjugação com o texto de base se dá através de problemáticas abrangentes, como discrepância social e exploração política. Mas existe uma questão mais específica que a encenação dirigida por Fernando Yamamoto e Lubi (Luiz Fernando Marques) aborda: o convívio em grupo.
Na circunstância proposta na dramaturgia de Giordano Castro e Yamamoto, trabalhadores encarregados de arrumar um espaço teatral para um evento político se veem cada vez mais desnorteados diante das ordens disparatadas daqueles que ostentam posições de autoridade. Os atritos se multiplicam e a convivência entra em colapso com a sucessão de determinações impraticáveis. É como se a estrutura hierárquica inviabilizasse a continuidade do coletivo.
Essa percepção suscita uma reflexão sobre a viabilidade da permanência do coletivo de teatro. Por maior que seja o desejo de estabelecer relações horizontalizadas, em que medida essa ambição é totalmente viável? A pergunta é ainda mais pertinente numa encenação como Cão, que resulta da interação entre integrantes de duas companhias de teatro. Vale lembrar que o Grupo Galpão destacou num de seus últimos espetáculos (Nós, sob a direção de Marcio Abreu) a temática da crise dentro do coletivo.
Na esfera da ficção, Cão é uma montagem sobre bastidores – da organização de um evento por trabalhadores desarticulados pelo despotismo dos que comandam. Também é sobre os bastidores do teatro. Tanto que a cenografia de Yamamoto, Lubi e Rogério Ferraz parece em construção, com os elementos de cena inseridos e retirados com constância pelos personagens/atores. As engrenagens do teatro ficam expostas frente a plateia. Nem tudo, porém, é colocado à disposição do público, que perde movimentações dos atores, parcialmente escondidas atrás do cenário. O cão, que intitula o espetáculo (termo mencionado em Coriolano), desponta como figura ameaçadora e invisível aos olhos dos espectadores. O espaço da cena é ocultado do público. E é ampliado, não se restringindo ao palco – atores transitam pelos corredores do teatro, entram pela porta de acesso da plateia.
A aparente anarquia que atravessa a montagem de Cão reforça o aspecto de obra inacabada. Nos dias de hoje, há, inclusive, um fascínio pelo espetáculo em processo, a ponto de festivais de teatro trazerem, com frequência, em suas programações trabalhos não finalizados – tanto para realçar o fato de nunca estarem finalizados, tendo em vista que as apresentações são necessariamente distintas umas das outras, quanto para incluir o espectador dentro da realização, mostrando que ele pode influenciar a criação e vivenciá-la como algo pulsante, não cristalizado. Não é esse exatamente o caso de Cão, uma encenação sobre processo e não mais em processo que as que se encontram em cartaz.
Os diretores apostam numa estética do rascunho e, ao mesmo tempo, numa estilização evidenciada, contraste bastante presente na iluminação de Ronaldo Costa, que opõe a neutralidade à explosão cromática. O elenco também oscila entre um certo desmonte da representação, própria à reprodução de uma atmosfera cotidiana, e composições assumidamente marcadas, caricaturais, sublinhadas pelos figurinos extravagantes de Maria Esther. Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz enveredam por esses registros interpretativos diversos, demonstrando domínio técnico (de corpo e voz) e timing.
Apesar dos méritos, Cão, montagem que faz referência à tragédia como recurso humorístico (a brincadeira com a quantidade de mortes nas tragédias de Shakespeare), evolui rumo à comédia desvairada sem alcançar a graça pretendida, a não ser em momentos isolados. A situação única contida no texto, agravada com a crescente falta de controle dos personagens à medida que a ação avança, não se sustenta durante as quase duas horas da encenação. Além disso, a dramaturgia sugere investimento num procedimento conhecido: a partir da progressiva suspensão do real, da instalação do nonsense, estimular associações com a realidade – com o contexto político do aqui/agora.
Cão é um espetáculo que sinaliza um paradoxo: nasceu do bem-vindo intercâmbio criativo entre duas companhias de teatro, mas enfoca a crise do coletivo. Essa oposição, aliada à instigante construção cênica, tende a mobilizar o público, mesmo diante das restrições apontadas.
CÃO – Texto de Giordano Castro e Fernando Yamamoto. Direção de Fernando Yamamoto e Lubi (Luiz Fernando Marques). Com Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66). De qui. a sáb., às 19h e dom., às 18h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada).
