Os limites do corpo

Verônica Santos em A Bailarina Fantasma (Foto: Rodrigo Leal)
Contextos diferentes surgem conjugados na estrutura de A Bailarina Fantasma, trabalho concebido por Wagner Antônio e selecionado para a Mostra Lucia Camargo do recém-encerrado Festival de Curitiba. A partir da escultura A Pequena Bailarina de 14 Anos – criada por Edgar Degas, nas últimas décadas do século XIX, tendo como modelo a estudante Marie van Goethe –, Dione Carlos, responsável pela dramaturgia, mescla a conjuntura da obra original com a realidade vivenciada pela bailarina Verônica Santos, desde que, ainda criança, na periferia de Belo Horizonte, se interessou por balé clássico.
Verônica evoca com o passado histórico e o seu próprio passado. Em dados instantes, sua imagem se mistura com as sombras de bailarinas fantasmas (ou seriam duplos de Verônica?). Dessa contracena entre presente (o acontecimento ao vivo, frente ao público, característica de manifestações artísticas como o teatro e a dança) e passado (o multimídia, geralmente pré-gravado), despontam questões: os obstáculos enfrentados por Verônica devido a sua condição social e ao fato de ser uma bailarina negra, o desencontro com um padrão corporal idealizado e imposto, a constituição física particular que a levou a quebrar muitos ossos no decorrer do tempo.
Como se pode perceber, Verônica Santos destaca os limites do corpo e a superação de barreiras quase intransponíveis. Também extravasa os limites do espaço cênico ao romper, ao final, com as delimitações de portas e janelas e, num ato libertário, ganhar a imensidão do meio externo. De certo modo, A Bailarina Fantasma é um trabalho norteado pela dramaturgia do espaço. A apresentação inicia fora da sala do Teatro Cleon Jacques, quando Verônica aparece e relata à plateia como começou o vínculo com a dança e as especificidades do seu corpo. Já nesse momento, amalgama palavra (através da narração de sua jornada) e movimentação física em discreta interação com alguns espectadores. Verônica se coloca como indivíduo diante de outros indivíduos e não de uma massa uniforme e compacta genericamente classificada como público.
Dentro da sala, cada espectador estabelece a sua maneira de se relacionar com o que se descortina ao redor. Não há espaço determinado para ver o trabalho. Os espectadores transitam pelo espaço livremente, mas conduzidos pelos deslocamentos de Verônica, que executa partituras de movimentos em áreas diversas da instalação de Wagner Antônio, composta por nichos geométricos, praticável, pequenos espelhos ovais, varas e pedaços de cera (que sugerem os fragmentos de ossos, constantemente mencionados por Verônica). As projeções não se restringem às imagens das bailarinas fantasmagóricas, mas também valorizam as palavras de Dione Carlos, que entrelaçam tópicos concretos (em especial, o racismo) com a reverberação dessas pautas na subjetividade de Verônica. Os espectadores são estimulados a aderir a uma proposta imersiva por meio do acompanhamento musical de Natália Nery, de sonoridades que remetem à pulsação (desenho de som de Guilherme Zomer) e, principalmente, da presença impactante de Verônica.
O borramento de fronteiras tradicionais – entre palco e plateia e entre as artes (dança, teatro, música, artes plásticas) – está na base de uma considerável quantidade de trabalhos na cena contemporânea. Mas a articulação de elementos artísticos provocativos e inquietantes imprime singularidade a A Bailarina Fantasma.
A BAILARINA FANTASMA – Idealização de Estúdio de Produção Cultural e Fernando Gimenes. Encenação e instalação cênica de Wagner Antônio. Com Verônica Santos.








