Notas sobre a verdade

Wagner Moura e Danilo Grangheia em Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo (Foto: Caio Lírio)
A reflexão sobre a verdade está no centro de Um Inimigo do Povo, peça do norueguês Henrik Ibsen, e da apropriação dramatúrgica realizada pela diretora Christiane Jatahy, pelo ator Wagner Moura e pelo roteirista Lucas Paraizo na encenação atualmente em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). O protagonista do texto, o médico Thomas Stockman, se aproxima da figura do fanático da verdade, presente em peças de Ibsen, como O Pato Selvagem. Em sua cruzada pela verdade, Thomas não tem sua tenacidade questionada de maneira crítica, talvez pelo fato de defender uma causa nobre ao invés de se intrometer na esfera privada de outros indivíduos que eventualmente preferem conservar, em suas jornadas, uma capa de ilusão.
Thomas e seu opositor, o irmão e prefeito Peter, são, isto sim, personagens que simbolizam tomadas de posição contrárias diante do mundo: enquanto o primeiro prioriza a ciência, lutando pela saúde da coletividade em detrimento dos interesses econômicos, o segundo valoriza o lucro financeiro da cidade turística onde vive, ameaçado caso a estação balneária seja fechada a partir da divulgação da notícia de que a água está contaminada. À medida que a peça avança, Thomas é cada vez mais classificado como idealista e desconectado das urgências da realidade imediata, percepção distorcida que o condena a um crescente isolamento, e Peter se promove como porta-voz de uma perspectiva pragmática e bem menos incômoda.
Conforme anunciado no título, Jatahy não se “limita” a montar um texto de modo convencional, movida “tão-somente” pelo objetivo de contar uma história ao público. Nesse espetáculo, investe numa situação posterior à apresentação dos personagens e do conflito. Mostra os desdobramentos do embate entre o transparente Thomas e o manipulador Peter por meio do enfrentamento passional de ambos num tribunal. A plateia é transportada para essa circunstância, como se acompanhasse um julgamento e não uma representação teatral – por mais que o espaço onde a ação se desenrola seja mencionado como teatro. Uma proposta que lembra, em algum grau, a de Eduardo Wotzik na encenação de O Interrogatório, de Peter Weiss, com a diferença de que esta recomeçava até completar 24 horas, o que fazia com que a maioria do público assistisse a trechos e não a integridade da apresentação/do julgamento.
Em Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, os espectadores, além de testemunharem as argumentações de Thomas e Peter na exposição de seus pontos de vista, podem se candidatar a ver o espetáculo do palco, como integrantes do júri que avaliará se o protagonista é ou não um inimigo do povo. A realocação do público não se restringe aos espectadores que são deslocados fisicamente; também abarca o restante da plateia, que permanece em suas cadeiras, mas é levada a “se sentir”, pelo menos em certa medida, numa audiência de tribunal. As marcações frontais contribuem para que o público vivencie a ambientação do tribunal com mais veracidade e ocasionalmente “se esqueça” do ato teatral descortinado à sua frente. Há uma ocultação da teatralidade – que contrasta, no trabalho de Jatahy, com a revelação do artifício, da construção artística, seja através do desmonte do cenário em E se elas fossem para Moscou?, seja da presença da equipe técnica no palco em Corte Seco – nessa encenação elaborada a partir de estratégias de sedução do espectador. Uma proposição algo superficial, ainda que bastante eficiente.
A concepção visual da montagem, que reproduz o contexto do tribunal, colabora para esse apagamento do teatral. Há, no palco, os elementos necessários – as mesas onde os participantes do julgamento se encontram dispostos, as cadeiras, ao fundo, destinadas aos espectadores que “atuam” como integrantes do júri (cenografia de Thomas Walgrave), e a tela, que, localizada no meio do palco, dimensiona a importância do multimídia no teatro de Jatahy. Os atores aparecem vestidos de acordo com o perfil e a função que exercem (figurinos de Marina Franco). No entanto, a teatralidade não fica totalmente escondida, a exemplo da iluminação (de Walgrave), que, de forma discreta, transcende o funcional e gera uma impactante cena final.
Christiane Jatahy evidencia coerência com suas diretrizes de trabalho. Como em espetáculos anteriores – em especial, Julia (a partir de Senhorita Julia, de August Strindberg) e E se elas fossem para Moscou? (a partir de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov), a encenadora se dedica a uma operação autoral sobre texto clássico. Em Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, Jatahy reduz os personagens em cena, colocando Thomas, a filha dele, Petra, professora que desponta como advogada, Peter e, em breve participação, o editor do jornal. Os demais personagens – a esposa, os filhos e o sogro de Thomas – surgem em vídeo. A diretora volta, portanto, a estabelecer articulações entre a peça e a pesquisa centrada na interface entre teatro e cinema. Insere na estrutura do espetáculo sequências pré-gravadas, que dinamizam a ambientação única do tribunal ao trazerem os personagens – tanto os incluídos em cena quanto os de fora – em espaços diversos, com outras registradas no instante da apresentação. Relativiza, assim, o conceito do cinema como arte unicamente atrelada ao passado.
A conjugação entre passado e presente também se manifesta por meio da narração e da vivência dos acontecimentos na atuação de Wagner Moura. Na abertura e no encerramento do espetáculo, o ator se descola de Thomas, seu personagem. Observa-o à distância, comenta sobre ele, reforçando o teatro como instância da ficção, apesar de imprimir uma presença em primeira pessoa, desarmada, não representada. Wagner Moura e Danilo Grangheia aderem à “interpretação invisível”, atravessada pela naturalidade, sem resquícios de impostação. Moura se movimenta com muita fluidez pela variedade de estados emocionais de Thomas, que oscila entre a sobriedade de explanações contundentes e os rompantes de descontrole. Já Grangheia é menos catártico, em sintonia com um Peter sempre provocador, e se destaca não “apenas” através da fala como da escuta. Os dois atores demonstram pleno domínio da palavra. Julia Bernat, como Petra, filha de Thomas, transita da postura racional ao extravasamento.
Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo busca uma proximidade direta com o público, capturado por meio de mecanismos de inclusão na cena e de envolvimento na atmosfera do tribunal. A esses apelos se soma a aclimatação da peça ao Brasil. Em relação aos principais nortes de sua trajetória como encenadora – as dessacralizadas abordagens de peças clássicas e a mescla das linguagens do teatro e do cinema –, Christiane Jatahy mais confirma uma coerência do que desenvolve a pesquisa. O resultado, porém, conquista o espectador através de procedimentos executados com grande competência.
UM JULGAMENTO – DEPOIS DO INIMIGO DO POVO – Texto de Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo a partir da peça de Henrik Ibsen. Direção de Christiane Jatahy. Com Wagner Moura, Danilo Grangheia e Julia Bernat. Participação de Stella Rabello. Participações no filme: Marjorie Estiano, Jonas Bloch, Salvador Moura, Antônio Falcão, Antônio Rabello, José Moura. Participação online: Tatiana Henrique. Teatro II do CCBB (R. Primeiro de Março, 66). Seg. e de qua. a sáb., às 19h, dom., às 18h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada).


