A valorização e a dessacralização do texto

João Côrtes e Igor Fortunato em Eddy – Violência e Metamorfose (Foto: Elisa Mendes)
Na programação teatral de 2025, no Rio de Janeiro, a palavra ganhou certo destaque. É o que se pode perceber com o crescente (apesar de ainda tímido) debruçar sobre peças clássicas (O Bem Amado, Os Mambembes, Navalha na Carne, Gota D’Água, Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo, Dias Felizes, O Mercador de Veneza, As Bruxas de Salém, Édipo Rec, Hamlet) e, eventualmente, contemporâneas (A Baleia, As Pequenas Coisas, Choque: Procurando Sinais de Vida Inteligente, O Som que vem de Dentro), além de adaptações de textos literários (Veias Abertas 60, 30, 15 seg, Eddy – Violência e Metamorfose, (Um) Ensaio sobre a Cegueira, Os Irmãos Karamazov, O Papel de Parede Amarelo e Eu, A Procura de uma Dignidade, Torto Arado, esse último filiado à vertente musical). Mas, na maioria dos casos, o que prevaleceu não foi a leitura tradicionalmente respeitosa das obras dos autores, e sim apropriações atravessadas por diferentes graus de liberdade criativa. Quase todas as encenações evidenciaram a postura dessacralizada dos diretores em suas abordagens da palavra.
Se a transposição de textos da literatura pressupõe, a princípio, adaptações linguísticas que determinam alterações (mas vale lembrar que Aderbal Freire-Filho contrariou esse entendimento ao encenar livros na íntegra, base do conceito do romance-em-cena), o mesmo não necessariamente acontece quando se trabalha com dramaturgia para teatro. No entanto, muitos dos espetáculos oriundos de peças de autores renomados passaram por modificações decorrentes de articulações entre passado (o instante em que foram escritas) e presente (seja no que se refere às questões em pauta nos dias de hoje, seja à inserção em cena do aparato multimídia).
Variadas operações foram postas em prática. Houve montagens concebidas a partir de incisões nas peças por meio de mudanças nos contextos originais, supressão de personagens e/ou concentração em momentos específicos das histórias. Nos espetáculos que surgiram de livros, as reestruturações dos textos chamaram atenção – e também a ocasional preservação da construção literária.
De qualquer maneira, o contato com a palavra gerou algum temor. Talvez os artistas tenham tomado precauções diante do risco de provocar uma sensação exasperante no público do acelerado mundo atual. Assim, diversas montagens sinalizaram tendência de seduzir a plateia através de uma série de atrativos. A mencionada utilização dos recursos tecnológicos é um desses elementos, mas não o único. Com frequência, os espectadores foram convidados a subir ao palco – sendo literalmente incluídos na cena. E, conforme o esperado, sobressaiu notada preocupação em aproximar os espetáculos da velocidade do aqui/agora.
Contraste que se repete a cada ano, a cena oscilou entre a quantidade de monólogos e musicais. Ao longo do tempo, o formato do monólogo vem se impondo como estratégia de sobrevivência diante das inúmeras dificuldades enfrentadas na viabilização das produções teatrais, mas não só. Também desponta como expressão genuína de artistas que externam “sozinhos” no palco um conteúdo ou uma experiência, às vezes, intransferível (afirmações identitárias, reivindicações contundentes). Não foram poucos os que cumpriram temporada: O Motociclista no Globo da Morte, Pa!, Tip (Antes que me Queimem eu me Atiro no Fogo), Meu Remédio, A Procura de uma Dignidade, Pedrinhas Miudinhas, Céu da Língua, Na Quinta Dor, Perigosas Damas, Eu sou um Monstro, Aquele Trem, Criatura, uma Autópsia, Inventário, O Papel de Parede Amarelo e Eu, 20 Minutos Daqui, O Dinossauro de Plástico, Paixão Simples.
Nem os monólogos, nem os musicais, pertencem a uma mesma corrente. A linha do musical biográfico, voltada para o tributo a artistas da música popular brasileira, manteve a habitual constância, a exemplo de Martinho Coração de Rei – O Musical, Clara Nunes – A Tal Guerreira, Rita Lee – Uma Autobiografia Musical, A Pérola Negra do Samba, Djavan – O Musical e Zé Ketti, Eu Quero Matar a Saudade!. Essa valorização dos artistas do país, apesar de frequente, não constituiu a única manifestação do gênero. Musicais realizados a partir de textos autorais (Canções que eu Guardei pra Você, Donatello) e outros escorados em sucessos estrangeiros (Hair, Mudança de Hábito) marcaram presença. O panorama do teatro de mercado foi complementado por comédias de estilos distintos, mas de resultado junto ao público, como O Formigueiro, Meu Remédio, Céu da Língua, Férias, Fica Comigo esta Noite e A Sabedoria dos Pais.
Para completar, espetáculos já apresentados deram continuidade às suas temporadas (Prima Facie, Tom na Fazenda, Não me entrego, não!, Lady Tempestade) ou foram retomados depois de anos (Meu Caro Amigo, Narcisa). O passado veio à tona ainda por meio de importantes iniciativas. Cristina Bethencourt, Silvia Monte e Tania Brandão somaram esforços na homenagem ao dramaturgo João Bethencourt em evento (João Bethencourt – Um Homem de Teatro) centrado na leitura de algumas de suas peças. No terreno das publicações foram lançados os livros Sergio Cardoso: Ser e Não Ser, de Jamil Dias, sobre a trajetória do ator Sergio Cardoso; Estrelas e Malditos – Sucessos de Escândalo na Crise do Teatro Brasileiro Moderno, de Henrique Buarque de Gusmão, que se deteve em três explosivas montagens da segunda metade dos anos 1960 (Toda Nudez será Castigada, Senhora na Boca do Lixo e Navalha na Carne); O Rastro Atrás de Jorge Andrade, de Antonio Gilberto, sobre a célebre peça do dramaturgo e sua encenação sob a direção de Gianni Ratto; e Em Letra de Imprensa, de Flavio Marinho, reunindo textos jornalísticos em diferentes veículos da imprensa – fase anterior ao ingresso de Marinho na carreira de autor de teatro.
Fechando o ano – e apontando para o futuro –, o Teatro Sesc Ginástico foi reinaugurado, após uma longa reforma, com Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir. Um teatro emblemático no percurso da atriz, que, em 1961, estreou lá a polêmica montagem de Beijo no Asfalto, peça que Nelson Rodrigues escreveu, a seu pedido, para a companhia Teatro dos Sete.








