Cena despojada com imagens inventivas

André Celant e Glaucia Rodrigues em O Som que vem de Dentro (Foto: Annelize Tozetto)
O título da peça do dramaturgo norte-americano Adam Rapp destaca a interioridade – no caso, dos dois personagens, a professora de literatura Bella Lee Baird e o aluno Christopher Dunn. De maneiras distintas, ambos evidenciam subjetividades conturbadas. Ela administra o cotidiano com independência, no que diz respeito ao campo pessoal e à solidez conquistada dentro do meio acadêmico, mas lida com o diagnóstico de uma doença grave em estágio avançado. Ele, portador de permanente sensação de desajuste com as regras determinadas pelo sistema, percebe na literatura uma possibilidade de extravasamento da inquietação que o norteia. Por outro lado, O Som que vem de Dentro, na tradução de Clara Carvalho, é uma peça para ser analisada em sua exterioridade, no que se refere à escrita, à construção formal, particularmente na oscilação entre duas esferas temporais diversas – a da narração (portanto, ao que já aconteceu), exercida por Bella, e a da vivência dos fatos no instante em que ocorrem.
Em relação ao desenvolvimento da situação-base, circunstâncias bruscas irrompem ao longo do texto. Parece pouco provável que, pelo menos num primeiro momento, uma personagem defendida e atada a formalidades como Bella, mesmo que vulnerável devido ao quadro de saúde, releve a postura agressiva e contestadora de Christopher; e, ao final, Christopher, ainda que emocionalmente desestabilizado e decidido a fazer com que Bella leia seu texto, reage com indiferença a um extremado pedido dela. A estranheza se impõe mais uma vez – e tanto no âmbito da dramaturgia quanto no da encenação – quando Bella descreve, com intensidade, um encontro sexual, quebrando, de modo intencional, com a atmosfera sóbria da peça e da própria montagem. A contenção cede lugar aos gestos largos, expansivos, da atriz, posicionada de costas para o público.
À frente do espetáculo em cartaz no Teatro Glauce Rocha, João Fonseca aproxima o texto do espectador através de citações a escritores e livros brasileiros, mas acertadamente não propõe uma aclimatação da peça ao país. Sem se limitar ao “efeito” sedutor dessas menções e também sem investir em interferências contundentes na dramaturgia, o diretor realça o potencial de envolvimento do texto por meio de uma cena despojada, mas não destituída de inventividade. Entre os componentes da montagem, sobressai o cenário de Nello Marrese, que parte de uma sugestão de ambientação realista, transcendendo, porém, essa moldura. A imagem de galhos retorcidos ao fundo do palco sintetiza a paisagem invernal demarcada no texto e os quadros-negros espalhados pela estrutura vertical, sintonizados com os universos dos personagens, são manipulados de forma criativa, assim como elementos da cenografia, em especial o giz, simbolizando neve, e a mesa, não restritos a funções utilitárias. Os figurinos de Marieta Spada vestem os personagens em acordo com seus perfis e ocupações. A iluminação de Daniela Sanchez contrasta, em certa medida, tonalidades discretas com eventuais explosões de cores. No elenco, Glaucia Rodrigues transita entre a exposição/descrição dos acontecimentos e a instantaneidade da experiência. Nos dois planos, a atriz domina a palavra, qualidade adquirida no decorrer de décadas de trabalho na Cia. Limite 151, um coletivo voltado para a valorização da literatura dramática. André Celant tem alguma dificuldade em imprimir credibilidade às ações e reações abruptas do personagem.
O Som que vem de Dentro, a peça, nem sempre soa verossímil na apresentação das situações. Mas a montagem conecta o espectador com a escuta do texto e com uma cena que instiga por meio da concepção visual.
O SOM QUE VEM DE DENTRO – Texto de Adam Rapp. Direção de João Fonseca. Com Glaucia Rodrigues e André Celant. Teatro Glauce Rocha (Av. Rio Branco, 179). Sex. e sáb., às 19h, dom., às 18h. Ingressos: R$ 60,00 e R$ 30,00 (meia-entrada).








