Todas as facetas de um ator

Sérgio Mamberti, ator homenageado no filme de Evaldo Mocarzel (Foto: Divulgação)
TIRADENTES – Como cineasta, Evaldo Mocarzel tem se voltado, entre outras vertentes, a opressivos contextos sociais – em filmes como À Margem da Imagem (2003), À Margem do Concreto (2005), Jardim Angela (2007) e À Margem do Lixo (2008) –, a experimentação poética – em Quebradeiras (2009) –, a jornadas pessoais – em Do Luto à Luta (2005) e As Quatro Irmãs (2018) – e à importante documentação de espetáculos teatrais, principalmente de companhias de São Paulo, trabalho desdobrado na esfera teórica, a julgar por sua tese de doutorado, intitulada Arquiteturas do Risco e do Inesperado – Derivas Documentais e Dramáticas Fraturadas na Cena Paulistana Contemporânea. Sérgio Mamberti – Memórias do Brasil se aproxima desse último bloco, em especial a projetos ligados à carreira de intérpretes específicos como Íttala Nandi em Retratos Brasileiros e no solo Paixão Viva.
Mocarzel sinaliza a ambição de cobrir todos os campos de atuação de Sérgio Mamberti (1939-2021). Em se tratando de um documentário de cerca de 90 minutos de duração, determinadas condensações são inevitáveis. O trabalho em teatro ganha compreensível prioridade, mas sua militância política e as atuações no cinema e na televisão não deixam de ser lembradas. Cabe ao próprio Mamberti apresentar em primeira pessoa, por meio de narração em off, sua trajetória ao público. Após os instantes iniciais, centrados na percepção de Mamberti do teatro como manifestação artística compartilhada e visceral, Mocarzel dispõe os acontecimentos da vida do ator homenageado a partir de dois critérios, de algum modo, contraditórios – a cronologia e a separação por blocos temáticos.
No primeiro bloco, o diretor se detém sobre a infância e a adolescência do ator: as informações e memórias do avô, dos pais e do irmão (o também ator Claudio Mamberti), o cotidiano em Santos, o impacto com o fim da Segunda Guerra Mundial, o despertar da consciência social e da paixão pelo cinema e a amizade com a escritora e militante Patrícia Galvão, a Pagu – evocada através de cenas do bom filme Eternamente Pagu (1988), de Norma Bengell. De Santos, Sérgio Mamberti migrou, aos 17 anos, para São Paulo com o intuito de estudar arquitetura, mas já desejando o teatro.
Mocarzel envereda, então, pela extensa e oportuna parte dedicada ao teatro. Mamberti cursa a Escola de Arte Dramática (EAD) e é apresentado por Cacilda Becker a Antonio Abujamra – passando a atuar, sob a condução dele, no engajado Grupo Decisão (momento assinalado, mas sem menção ao nome do grupo). Com o início da ditadura, acentua o seu comprometimento político em trabalhos como Navalha na Carne, peça contundente de Plinio Marcos, em montagem a cargo de Jairo Arco e Flexa, O Balcão, de Jean Genet, na polêmica e bem-sucedida encenação de Victor García, Réveillon, texto de Flavio Marcio em espetáculo de Paulo José, em sua direção para Concerto nº1 Piano e Orquestra, peça de João Ribeiro Chaves Neto, e nas produções do Theatro São Pedro, relevante polo de resistência capitaneado por Mauricio e Beatriz Segall que merecia mais espaço no filme.
Na sua casa, na Rua dos Ingleses, em São Paulo, Mamberti acolheu o elenco de Roda Vida – espetáculo de José Celso Martinez Corrêa para o texto de Chico Buarque –, espancado após a invasão do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). E hospedou atores do grupo norte-americano Living Theatre, que vieram ao Brasil para trabalhar com o Teatro Oficina, uma vez que as duas companhias estavam afinadas na prática de um teatro libertário, desestabilizador na interação com os espectadores e voltado para o rompimento de padrões comportamentais e sexuais. O intercâmbio, porém, não deu certo e culminou com a prisão de integrantes do Living em Ouro Preto, situação que Mamberti se esforçou para reverter. O ator traz à tona ainda o episódio da devolução dos Sacis, o prêmio concedido por O Estado de S.Paulo, quando muitos artistas depositaram suas estatuetas na portaria do jornal como protesto à postura do veículo naquele período da ditadura.
O bloco do teatro é complementado com a participação de Mamberti, no início dos anos 1970, em montagem de peça de José Vicente (A Última Peça, título não informado), um dos autores da chamada Geração de 69, em Paraty, momento marcado pela crescente experiência com ácidos, que, segundo Mamberti, ampliou o mergulho em si, o autoconhecimento. Em sintonia com a narrativa, Mocarzel quebra com uma organização tradicional entre texto e imagens, enfileiradas em ritmo acelerado.
O cineasta sublinha a presença de Sérgio Mamberti em fases emblemáticas do Brasil e os cargos políticos que ocupou. Retoma o universo particular por meio da discreta exposição da vida amorosa de Mamberti – os casamentos com Vivian, precocemente falecida e mãe dos três filhos do ator (Duda, Carlos e Fabrício), que depois adotou Daniele, e com Ednardo. De maneira mais rápida, o filme destaca trabalhos de Mamberti no cinema – em O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogerio Sganzerla, e Toda Nudez será Castigada (1973), de Arnaldo Jabor – e na televisão – na novela Vale Tudo, de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, em que interpretou, de forma saborosa, o mordomo Eugenio, que não perdia a chance de pontuar as falas com referências cinematográficas, e na série Castelo Rá-Tim-Bum, de Cao Hamburger e Flavio de Souza.
Através de Sérgio Mamberti – Memórias do Brasil, Evaldo Mocarzel presta um consistente tributo ao ator e à produção artística do país. Além desse filme, Mocarzel realizou Sérgio Mamberti – Memórias de um Ator Brasileiro, série em três episódios exibida no Sesc TV. E já há um livro publicado sobre o ator: Sérgio Mamberti: Senhor do meu Tempo, de Dirceu Alves Jr. (coautor).
SERGIO MAMBERTI – MEMÓRIAS DO BRASIL – Filme de Evaldo Mocarzel.








