Amplo depoimento num único espaço

José Celso Martinez Corrêa em Palco-cama, de Jura Capela (Foto: Divulgação)
TIRADENTES – Para José Celso Martinez Corrêa, a cama é o espaço onde nascem muitas criações artísticas. Não por acaso, no documentário de Jura Capela, o encenador aparece, do início ao fim, em cima da própria cama, com copo de vinho nas mãos. Durante a maior parte do tempo, a câmera captura Zé Celso por meio de close no rosto; em breves instantes, ele se movimenta na cama.
Nesse palco-cama, Zé Celso fornece um amplo depoimento sobre a sua trajetória profissional. A entrevista foi realizada em 2007, época em que o diretor ainda estava envolvido com o monumental projeto de Os Sertões, adaptação do livro de Euclides da Cunha que rendeu cinco espetáculos (A Terra, O Homem 1, O Homem 2, A Luta 1, A Luta 2) no Teatro Oficina. Mas Zé Celso traça uma panorâmica que começa nos primórdios do Oficina, que surgiu dentro da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, com Vento Forte para Papagaio Subir, texto de sua autoria, e A Ponte, de Carlos Queiroz Telles, em montagem assinada por Amir Haddad.
A dramaturgia de Oswald de Andrade – levada ao palco na célebre encenação de O Rei da Vela, em 1967 – é dimensionada como divisor de águas no percurso de Zé Celso e do Oficina. Antes de O Rei da Vela, Zé Celso não economiza nas críticas. Faz restrições aos chamados chato-boys (expressão pejorativa que diz respeito à geração da revista Clima), ao teatro dos anos 1950 – que valorizou o texto em detrimento do corpo (Zé Celso considera o teatro como “lugar radical do corpo”) –, à difusão do realismo stanislavskiano e ao que avalia como limitações do drama social praticado pela companhia Teatro de Arena.
A partir de O Rei da Vela, o Oficina rompe com peças de estrutura cartesiana, estabelece uma relação mais direta, tanto na sedução quanto no confronto, com o público – vínculo até então reduzido devido à quarta parede da cena realista –, firma conexão com o tropicalismo e se apropria de referências as mais diversas ao aderir à antropofagia (“criação é devoração”, sintetiza Zé Celso).
Num pulo para o Oficina dos anos 1990, rebatizado de Uzyna Uzona, Zé Celso evoca o teatro orgiástico manifestado nas montagens de Bacantes, de Eurípedes, e Pra Dar um Fim no Juízo de Deus, texto radiofônico de Antonin Artaud, e menciona, rapidamente, o longo embate com o Grupo Silvio Santos, obstáculo na ambiciosa idealização de um teatro-estádio.
No século XXI, Zé Celso defende um teatro contaminado por interferências da realidade, como o Teatro Oficina na arquitetura de Lina Bo Bardi e Edson Elito concretizada na década de 1980. Frisa essa visão ao abrir a janela de seu quarto para que entrem a brisa e os ruídos da Avenida 23 de Maio – barulho que “vira mar”, na percepção do encenador.
Através de Palco-cama, Jura Capela dá continuidade ao seu elo com o teatro, valendo lembrar da inventiva transposição para o cinema de A Serpente (2019), peça de Nelson Rodrigues. Em termos de depoimento, não há grandes novidades em comparação com outros filmes centrados em Zé Celso, como Evoé! Retrato de um Antropófago (2011), de Tadeu Jungle e Elaine Cesar, e Fédro (2021), de Marcelo Sebá – o segundo, inclusive, com o encenador registrado numa cama ao lado do ator Reynaldo Gianecchini. Mesmo que tenha sido feita antes dos filmes citados, essa entrevista só chega ao público agora. De qualquer modo, escutar Zé Celso é sempre oportuno.
PALCO-CAMA – Direção de Jura Capela. Com José Celso Martinez Corrêa.


