Ato de reverência

O Fantasma da Ópera, curta-metragem de Julio Bressane e Rodrigo Lima (Foto: Divulgação)
TIRADENTES – O curta-metragem O Fantasma da Ópera é um filme de bastidores (making of do longa Pitico), em que Julio Bressane e Rodrigo Lima denunciam os truques, revelam os segredos, desfazem a magia ao destacarem o trabalho da equipe por trás das câmeras. De certo modo, Bressane e Lima prestam homenagem aos profissionais invisíveis aos olhos dos espectadores, mas fundamentais na concepção das imagens que o público verá quando o filme estiver pronto (como o balançar de uma cadeira sem ninguém sentado sobre ela, imagem fantasmagórica que aparece seguidamente no curta). Além dos integrantes anônimos, há breves aparições do elenco de Pitico – Josie Antello, presença frequente no cinema de Bressane, e Paulo Betti.
Formado por partes descartadas, por sobras, mas que podem ser preservadas como registros do processo de feitura de um filme, O Fantasma da Ópera contrasta ações concretas – como a do profissional que faz a cadeira balançar – com interações ininteligíveis da equipe e eventuais momentos de epifania de Bressane, evidenciados em seu rosto e intraduzíveis por meio de palavras.
Elementos habituais em seus filmes ressurgem, como a inclusão de marchinhas de Carnaval (no caso, História do Brasil, de Lamartine Babo) e a importância destinada à natureza. Mais do que características específicas, porém, o curta confirma a tenacidade de Bressane na realização de um cinema fiel a si mesmo, autoral, na contramão do mainstream, que não cede a quaisquer pressões do mercado.
Um cinema movido pela “soberania imaginativa”, expressão que sintetiza a temática da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Entretanto, apesar da sintonia com a questão central da programação, a escolha de O Fantasma da Ópera para a abertura da Mostra se justifica, sobretudo, como ato de reverência a Bressane, um diretor que, às vésperas de completar 80 anos, permanece em plena atividade e que, no decorrer do tempo, refinou esteticamente o seu “cinema de invenção”, mas sem se distanciar das bases que o norteiam.
O FANTASMA DA ÓPERA – Direção, roteiro e montagem de Julio Bressane e Rodrigo Lima.