Entre o discurso engajado e a imagem abstrata

Tainah Longras em Vinte!, encenação que faz mais uma apresentação hoje no Teatro Cleon Jacques (Foto: Maringas Maciel)
FESTIVAL DE CURITIBA – Os criadores de Vinte! – Tainah Longras (idealizadora, dramaturga e atriz do espetáculo), Maurício Lima (dramaturgo, diretor e ator), AfroFlor e Muato – se proclamam artistas do próprio tempo. Essa inserção é, em última instância, inevitável, na medida em que não há como não estabelecer vínculo com a época em que se vive. Talvez a diferença resida na forma como o mundo reverbera em cada artista e nos trabalhos que realiza.
Em Vinte! – espetáculo que já passou pelo Rio de Janeiro e faz mais uma apresentação hoje no Teatro Cleon Jacques, dentro da programação da Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba –, os atores se posicionam sobre o aqui/agora a partir de uma perspectiva histórica. Evocam as primeiras décadas do século XX, destacando a segregação sofrida pelas camadas populares, vitimadas por mecanismos como o Bota Abaixo (a demolição dos cortiços no Centro do Rio de Janeiro, que ocasionou a remoção dos moradores para áreas mais distantes, e a remodelação da cidade com o intuito de aproximá-la da arquitetura parisiense). Debruçam-se sobre manifestações discriminadas (como o maxixe) e, mais detidamente, sobre as atividades da Companhia Negra de Revistas, coletivo que teve existência breve (entre 1926 e 1927), mas importante, marcado pelas conduções de De Chocolat e Jaime Silva, pela revelação de Grande Otelo (ainda criança, apelidado de Pequeno Otelo), pela regência de Pixinguinha e por espetáculos como Tudo Preto – esmiuçado, analiticamente, na estrutura de quadros/esquetes do Teatro de Revista, na dramaturgia de Longras e Lima.
Os autores abordam a perpetuação do racismo, mas sem perderem de vista as especificidades dos contextos das duas décadas de 20 (1920/2020) que norteiam a pesquisa. Mencionam, não por acaso, iniciativas recentes do teatro concebido por artistas negros. Há, em Vinte!, um certo diálogo com a linguagem documental, reforçado, em dados momentos, pelos livros que surgem em cena e por falas de teor acadêmico. Mas o espetáculo oscila entre o engajamento assumido e frontal e proposições que transcendem o peso do discurso por meio de articulações entre o teatro e artes como a música, a dança e as artes plásticas em cenas mais abertas à livre interpretação. A iluminação de Dadado de Freitas realça esse contraste ao preencher o palco com rasgos geométricos e, em outros instantes, optar por uma luminosidade mais “dura” com o objetivo de incluir a plateia de modo mais evidente.
O refinamento estético sobressai ao longo da apresentação, conforme se pode perceber em diversos setores devidamente integrados. Júlia Vicente assina a direção de arte, terminologia que abarca os figurinos, bastante criativos na variação de tons de preto e na sobreposição de texturas variadas, e a cenografia sintética, resumida basicamente a uma superfície, também preta e composta por materiais diferentes. Sintonizados em cena, os atores se expressam por meio da palavra, do canto e do corpo (direção de movimento de Rômulo Galvão), do qual extraem sonoridades (direção musical de Muato).
Vinte! é uma encenação que transita entre a concretude do texto politizado e a abstração de imagens algo enigmáticas. Na intercalação entre esses procedimentos opostos prevalece o rigor da criação, flagrante na expressividade dos corpos, na conjugação entre as artes e no apuro formal.
VINTE! – Texto de Mauricio Lima e Tainah Longras. Direção de Mauricio Lima. Com AfroFlor, Mauricio Lima, Muato e Tainah Longras. Teatro Cleon Jacques (Av. Mateus Leme, 4700). Hoje, às 20h30. Ingressos: R$ 85,00 e R$ 42,50 (meia-entrada).