Aventura pelo desconhecido

Os atores do coletivo Ocutá em A Máquina, de João Falcão (Foto: Humberto Araujo)
FESTIVAL DE CURITIBA – O tempo se impõe como temática central de textos escritos ou adaptados por João Falcão. Existem evidentes pontos de conexão entre A Máquina – livro de Adriana Falcão transportado para o teatro por João há pouco mais de 25 anos e novamente para a montagem apresentada, nesse momento, no Festival de Curitiba – e A Dona da História – peça de João. Em ambos os textos, um mesmo personagem se divide entre o eu da juventude e o eu da maturidade e olha para a própria trajetória em perspectiva num questionamento sobre as escolhas feitas ao longo dos anos.
João Falcão também aborda o tempo por meio da conjugação entre os procedimentos de narração – que remete ao relato de experiências do passado – e vivência – atada ao presente. Essa alternância transcende a esfera literária e se constitui como desafio ao elenco. Mas, ainda que atreladas a passado e presente, narração e vivência não despontam exatamente como planos opostos. Afinal, o ato de narrar não é exercido de modo frio e distanciado, e sim contaminado pela intensidade das experiências.
Em A Máquina, a estruturação do texto é mais complexa do que a história –bastante simples, mas valorizada pela qualidade poética – sobre a interação entre um jovem casal de namorados diante de um impasse aparentemente insolúvel: Karina, a moça, quer desbravar o mundo ao invés de continuar ao lado de Antonio na pequena cidade onde moram. Ele, então, decide buscar o mundo para ela. Esse enredo singelo guarda proposições instigantes. Antonio é interpretado por quatro atores, enquanto Karina permanece como figura unitária. Antonio parte para a ação. Não é, porém, agente do desejo; sai pelo mundo para não perder a namorada. Já Karina, apesar de iludida pelo que vê nas novelas de televisão, tem em si o ímpeto da mudança, da não acomodação, do inconformismo. Num certo sentido, todos podem ser Antonio, ao passo que Karina é única.
O lugar onde vivem, Nordestina, faz referência direta a uma região do Brasil, mas simboliza os muitos vilarejos pacatos marcados por um ritmo bem mais lento que a agitação febril que atravessa os corpos dos jovens. Esse lugar, específico e abrangente, não ganha qualquer ambientação. Se João Falcão concebeu o palco como caixinha de surpresas em Uma Noite na Lua, texto de sua autoria que levou para a cena, em A Máquina, agora como antes, o palco fica vazio do início ao fim, despojado e aberto à imaginação do espectador, ocupado “apenas” pelos atores, que giram vigorosamente uma roda localizada no meio do espaço (cenografia de João Falcão e Vanessa Poitena).
Sem, portanto, fornecer uma moldura realista, João Falcão, que assina a direção, lança estímulos ao público através da música (criação que partilha com Ricco Vianna, sendo a música original de DJ Dolores) e da iluminação (de Cesar de Ramires), que assinala as precisas e meteóricas entradas dos personagens em cena. As contribuições artísticas mais estimulantes residem nos figurinos artesanais de Chris Garrido, que misturam estampas e sobrepõem tecidos heterogêneos em colagens inventivas, de alguma forma afinadas com a aventureira jornada de Antonio pelo desconhecido. Mas o espetáculo – em especial na segunda metade, quando se torna mais feérico do que lúdico – se afasta um pouco da atmosfera de sonho e encantamento. A agilidade, elemento fundamental da dramaturgia, se reduz, em passagens ocasionais, a efeito dentro da encenação.
Em todo caso, A Máquina se comunica de maneira calorosa com o público, elo favorecido pela disposição em arena (os espectadores assistem à montagem em arquibancadas erguidas no palco da Ópera de Arame), por instantes de quebra da quarta parede e pela vibração do elenco – composto por Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto, integrantes do coletivo Ocutá, e Agnes Brichta – que demonstra apreciável vitalidade física. Os atores estabelecem sincronia no trabalho em conjunto e a atriz dimensiona, sem exagerar, as reações emocionais de Karina.
A Máquina não é um espetáculo desprovido de irregularidade, mas essa nova versão comprova o potencial do texto de João Falcão para envolver o espectador através de um bem-sucedido somatório de criações.
A MÁQUINA – Texto de Adriana Falcão. Adaptação e direção de João Falcão. Com Agnes Brichta, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto. Ópera de Arame (R. João Gava, 920). Hoje, às 19h e 21h30. Ingressos: R$ 85,00 e R$ 42,50 (meia-entrada).