O texto do corpo

Atravessa minha Carne, filme de Marcela Borela, premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes (Foto: Divulgação)
TIRADENTES – As palavras não são as protagonistas de Atravessa minha Carne. Ao registrar – em Goiânia, em 2013 – o processo de criação de Por 7 Vezes, espetáculo da Quasar Cia. de Dança, Marcela Borela mostra conversas ocasionais durante os ensaios, mas o seu foco está nas imagens: de trechos de filmes do cinema mudo, da natureza e, principalmente, dos corpos, tudo mesclado, entre cor e preto e branco, na expressiva fotografia de Vinícius Berger.
A diretora destaca fragmentos de corpos (pés, mãos, braços), o movimento da respiração, a sobreposição de imagens de bailarinas dançando e de figuras fantasmagóricas (de certo modo, uma justaposição de diferentes tempos), a contracena visceral entre os corpos em atrito dos bailarinos. A intensidade da interação física (coreografia de Henrique Rodovalho, fundador da Quasar ao lado de Vera Bicalho) pode, inclusive, levar a um questionamento sobre os limites do corpo.
O público não se depara propriamente com um documentário didático, com entrevistas contextualizadoras, ainda que caiba assinalar uma linha evolutiva no decorrer da projeção. As primeiras imagens parecem anunciar o final – a desmontagem do palco, os elementos de cena sendo guardados -, mas logo Borela coloca o espectador diante da apresentação do espaço ocupado pela companhia e da construção do espetáculo por meio da confecção dos figurinos (de Cássio Brasil) pelas costureiras, da preparação das bailarinas no camarim e do cotidiano de ensaios.
Sem enveredar por uma condução tradicionalmente explicativa, a cineasta também propõe uma articulação não-reiterativa entre as imagens e a trilha sonora (de Ricardo de Pina), que não corresponde à música do espetáculo original. Como se percebe, o objetivo de um filme como Atravessa minha Carne – que saiu da recém-encerrada Mostra de Cinema de Tiradentes com o Prêmio Abraccine de melhor longa da mostra Autorias – não é, de forma alguma, fornecer um panorama histórico. Seja como for, Borela joga luz sobre essa relevante companhia de dança que surgiu na segunda metade da década de 1980.
ATRAVESSA MINHA CARNE – Documentário de Marcela Borela.