A intensa trajetória de um teatro

A atriz Maria Pompeu lembra dos primeiros anos do espaço, que, antes de homenagear Glaucio Gill, se chamava Teatro da Praça (Foto: Reprodução)
FESTIVAL DO RIO – Glaucio Gill – Um Teatro em Construção presta uma oportuna contribuição ao trazer à tona um pedaço importante da história da cena do Rio de Janeiro por meio da apresentação da trajetória de um dos espaços teatrais mais emblemáticos da cidade. A iniciativa, de acordo com a explicação estampada na tela, partiu da equipe do teatro, que, durante a reforma iniciada em 2024, pediu a diversos artistas que compartilhassem suas lembranças diante da câmera. Lea Van Steen e Rafael Raposo (atualmente à frente do teatro) dividem a direção.
A história do Teatro Glaucio Gill é disposta em ordem cronológica, de maneira didática, através das informações transmitidas por vários atores, atrizes, diretores e demais artistas. A atriz Maria Pompeu e o ator Sergio Fonta evocam os primeiros anos do então Teatro da Praça, inaugurado em 1958, e destinado a artistas egressos do Tablado, origem realçada pelo dramaturgo Pedro Kosovski. O teatro foi rebatizado de Glaucio Gill em homenagem ao ator, dramaturgo e apresentador que morreu após passar mal durante o seu talk show, fato destacado pelo cenógrafo José Dias.
No começo dos anos 1980, o teatro aglutinou a juventude em torno de espetáculos de grupos efervescentes como o Manhas e Manias e o Pessoal do Cabaré – e de projetos como o Manhas do Cabaré, a partir da junção dos dois coletivos –, conforme assinala o diretor Marcio Trigo, oriundo do Manhas, que também assinou a direção musical de Sapomorfose, texto de Cora Rónai, montagem que ganhou o palco do Glaucio Gill, sob a direção de Antonio Grassi.
Nas décadas de 1980 e 1990, um encenador foi fundamental para esse teatro: Aderbal Freire-Filho. De início, Aderbal mostrou espetáculos bem-sucedidos, casos de Besame Mucho, de Mario Prata, e, principalmente, Mão na Luva, de Oduvaldo Vianna Filho. Sua relevância, porém, transcendeu experiências avulsas. Diante do estado de abandono do espaço na segunda metade dos anos 1980, decidiu trabalhar em meio às ruínas do teatro.
Aderbal conseguiu reabri-lo, fundar uma companhia – o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE) – e concretizar, através da encenação de A Mulher Carioca aos 22 Anos, a partir do livro de João de Minas, o conceito de romance-em-cena. Com o CDCE, realizou mais espetáculos no teatro – Lampião, Rei Diabo do Brasil, Tiradentes, a Inconfidência no Rio e Turandot ou o Congresso dos Intelectuais. Muitos integrantes do CDCE abordam aquela fase intensa – Adriana Maia, Antonio Carlos Bernardes, Ana Barroso, Carmem Frenzel, Duda Mamberti, Dudu Sandroni, Gillray Coutinho, Malu Valle, Monica Biel, Orã Figueiredo, Thiago Justino, Xando Graça. No decorrer da gestão de Aderbal, grupos de diferentes partes do Brasil se apresentaram no palco, como o Galpão (com Álbum de Família), o Piollin (com o aclamado Vau da Sarapalha) e o Olodum (com Ó Paí Ó).
Depois da saída do CDCE, o Glaucio Gill recebeu o Centro de Exercícios da Utopia (CEU), grupo capitaneado pelo diretor Marcio Vianna, conhecido pelas proposições experimentais e sensoriais, ocasionalmente concebidas para um reduzido número de espectadores. Mas uma encenação, não vinculada a essas características, reverberou com especial impacto: O Futuro Dura Muito Tempo, baseado no livro de Louis Althusser, com Rubens Corrêa e Vanda Lacerda. Nos anos 2000, o teatro se manteve ativo por meio de seguidas ocupações artísticas e reformas estruturais.
O filme reúne ainda fotos de espetáculos marcantes que passaram por lá, como O Interrogatório (de Peter Weiss, direção de Celso Nunes), As Três Irmãs (de Tchekov, direção de José Celso Martinez Corrêa), Efeito dos Raios Gama nas Margaridas do Campo (de Paul Zindel, direção de Sergio Britto), Alzira Power (de Antonio Bivar, encenada por Antonio Abujamra e, pouco mais de 50 anos depois, por João Fonseca), A Resistência (de Maria Adelaide Amaral, direção de Cecil Thiré) e Hedda Gabler (de Ibsen, direção de Gilles Gwizdek), entre tantos.
Como expressão cinematográfica, Glaucio Gill – Um Teatro em Construção tem limitações evidentes. Van Steen e Raposo não dinamizam a formatação do documentário, registrando uma sucessão de depoimentos de artistas tendo, como imagem de fundo, as obras do teatro. Mesmo assim, os diretores colaboram para a difusão da memória, muitas vezes desvalorizada e ameaçada de se dissolver no imediatismo dos dias que correm.
Exibição hoje, às 16h, no Cine Santa Teresa