Ao sabor das referências

Cena de Jovens Amantes, filme de Valeria Bruni Tedeschi que destaca o universo do teatro (Foto: Jérôme Prébois)
Valeria Bruni Tedeschi destaca a intensidade das relações dentro e fora dos palcos em Jovens Amantes. Nesse novo filme, bastante ligado ao universo do teatro, a diretora mostra a jornada de atores envolvidos com um rigoroso processo de seleção para ingressar numa escola de atuação e depois firmando vínculos, na maioria das vezes, desestabilizadores.
Ao longo da projeção, diversas peças de teatro são mencionadas. Em algumas, a instabilidade dos elos é o tema, a exemplo de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder, centrada na escravidão amorosa da personagem-título, apaixonada por uma modelo oportunista, e A Gaivota, de Anton Tchekhov, que, por meio da conturbada conexão entre mãe (uma atriz incensada) e filho (um dramaturgo incompreendido), retrata a oposição entre os movimentos naturalista e simbolista.
Há mais referências: a peça A Prostituta Respeitosa, de Jean-Paul Sartre, o cineasta Bernardo Bertolucci, o ator Marlon Brando – parceria que remete ao incendiário O Último Tango em Paris (1972) –, o filme Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese, o ator, diretor e professor Lee Strasberg. Uma delas tem sabor especial para o público brasileiro. Trata-se da evocação, através de um cartaz, da montagem de Macunaíma, adaptação do livro de Mario de Andrade, dirigida por Antunes Filho.
O espetáculo de Antunes, que estreou em 1978, fez grande sucesso no Brasil e no exterior, em temporadas que duraram quase dez anos. Representou uma guinada na carreira do diretor, que, a partir desse instante, se distanciou das montagens avulsas, de mercado, e passou a trabalhar unicamente com companhia de teatro. Com a repercussão da encenação, o Grupo Pau-Brasil foi rebatizado de Grupo Macunaíma. Com a entrada do Sesc/SP, surgiu, em 1982, o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), um desdobramento do Macunaíma.
Apesar do cartaz de Macunaíma aparecer com constância, dois textos predominam em Jovens Amantes: Pentesileia, de Heinrich von Kleist, e, principalmente, Platonov, de Tchekhov. São as peças que os alunos/atores ensaiam sob a condução de personagens reais – os encenadores Pierre Romans (Micha Lescot), que comanda a montagem do texto de Kleist, e Patrice Chéreau (Louis Garrel), responsável pela transposição para o palco da peça de Tchekhov.
Conhecido não “apenas” como encenador, mas também como cineasta – basta lembrar de A Rainha Margot (1994) e Intimidade (1998) –, Chéreau esteve à frente do Theatre des Amandiers, onde transcorre boa parte da ação do filme de Tedeschi. Movidos pela inquietação artística, Chéreau e Romans frequentemente ultrapassam barreiras éticas, no que diz respeito à natureza do contato que estabelecem com os alunos/atores.
Ambientado na segunda metade da década de 1980 – contexto realçado por meio da epidemia da Aids, que assolou o mundo e tangencia os percursos de alguns personagens –, Jovens Amantes traz protagonistas, Stella (Nadia Tereszkiewicz) e Étienne (Sofiane Bennacer), mergulhados em convívio catártico e destrutivo. No entanto, mais do que dar vazão a uma crônica de afetos passionais, Bruni Tedeschi prioriza o amálgama entre vida e arte. A visceralidade é elemento comum ao que acontece no palco e nos bastidores – transparece nos personagens que os atores encarnam e no modo como administram as experiências sentimentais no cotidiano.
Duas falas de Adèle (Clara Bretheau), uma das alunas/atrizes selecionadas para a escola, evidenciam o comprometimento pessoal dos intérpretes com os personagens e com suas presenças em cena. “Se você sente vergonha quando atua é porque se revela”, observa. Pouco tempo depois, ao ser questionada sobre o que a motiva a fazer teatro, ela responde: “Porque quero falar com as palavras dos outros”. A personagem, nesse caso, é “tão-somente” canal para uma expressão íntima da atriz.
Inspirado nas vivências da própria diretora e de seus colegas durante o período de formação profissional, Jovens Amantes suscita mais interesse ao descortinar especificidades do teatro do que ao expor os embates amorosos de personagens marcados por excessos (como Étienne). Mas, mesmo diante de certa desigualdade, o filme se impõe como uma realização singular.
JOVENS AMANTES – Direção de Valeria Bruni Tedeschi. Com Nadia Tereszkiewicz, Sofiane Bennacer, Louis Garrel, Micha Lescot, Clara Bretheau. Em cartaz no Estação Net Botafogo 2 (às 20h30), no Estação Net Gàvea 1 (às 21h) e no Belas Artes Botafogo (às 13h30 e 18h30).