Desconstrução em imagens

Gabriela Duarte em O Papel de Parede Amarelo e Eu, encenação dirigida por Alessandra Maestrini e Denise Stoklos (Foto: Priscila Prade)
Conto de Charlotte Perkins Gilman, O Papel de Parede Amarelo foi publicado pouco mais de dez anos depois de Casa de Bonecas, peça de Henrik Ibsen. A proximidade não se limita ao tempo histórico (últimas décadas do século XIX); há um elo temático. O norueguês Ibsen frisou nesse e em outros textos a importância do livre-arbítrio da mulher. Em Casa de Bonecas, mostrou a conscientização de Nora, que, num final particularmente polêmico, se desliga de um modelo de casamento convencional e estável para viver sua independência, deixando os filhos aos cuidados do marido. A norte-americana Perkins Gilman descreveu, no conto, o martírio de uma mulher controlada pelo marido, que a mantém fechada dentro de uma casa, numa configuração de relacionamento em que ela é constantemente infantilizada por ele. As situações não são idênticas, mas ambos os textos destacam mulheres que, oprimidas por uma sociedade comandada pelos homens, proclamam um rompimento.
A inclusão do Eu no título da encenação assinada por Alessandra Maestrini e Denise Stoklos, em cartaz no Teatro I Love Prio, sugere a intenção de estabelecer uma conexão entre a época em que o texto foi escrito e a contemporaneidade. Esse diálogo entre períodos distintos não se manifesta através de alterações evidentes sobre a obra original, e sim por meio de proposições que atravessam a encenação, a exemplo dos ritmos musicais da ambientação sonora de Thiago Gimenes e Tiago Saul. Mas, apesar da atualidade da questão – o apagamento da voz da mulher –, o conto de Gilman, pelo menos da forma como surge disposto em cena, parece algo estacionado sobre uma circunstância única. A montagem suscita mais interesse pelo modo como a desconstrução da personagem se materializa em cena do que pelo texto em si.
A conjugação entre tempos diferentes também se dá através da transposição da literatura para o teatro. Maestrini e Stoklos preservaram a estrutura do conto. Grande parte do texto é dito em off; a outra, pela atriz no instante da apresentação. Essa oscilação implica no entrelaçamento de dois tempos – o passado, referente à narrativa literária, e o presente, determinado pela fala no aqui/agora do acontecimento teatral. As diretoras orquestram uma espessura entre a fala em off e no momento da cena. De início, há um contraste entre o registro vocal natural, cotidiano, da narração e a máscara facial carregada, caricata, escrachada, estilizada da atriz. Mas, apesar dessa espécie de atrito entre a fala gravada e a expressão do rosto, a articulação entre narração e vivência não escapa por completo da reiteração – em certo grau, pelo fato de Gabriela Duarte não sustentar as instigantes estranhezas (como o riso debochado, sarcástico) que marcam sua atuação nos primeiros minutos do espetáculo.
As diretoras propõem uma concepção estética impactante, perceptível na tonalidade forte do figurino extravagante (de Leandro Castro) e da surpreendente iluminação (de Cesar Pivetti), além da clausura de um espaço cênico recortado e tomado por uma crescente “chuva” de retalhos de papéis amarelos, que, derramados em formatos e intensidades diversos, preenchem a cena, restringindo, propositadamente, a movimentação da atriz (cenografia de Marcia Moon). À medida que a apresentação avança, a personagem envereda por processo de despojamento da própria imagem, flagrante num desnudamento simbólico – o desfazer da roupa, o batom borrado, o abandono da peruca. A personagem se despe de artifícios, como etapas de preparação para o gesto de rasgar a rede que a aprisiona. Em sintonia com a jornada dela, a cena abdica brevemente de sua exuberância.
O Papel de Parede Amarelo e Eu traz à tona a forçada reclusão de mulheres, muitas a partir do diagnóstico de histeria. Esse confinamento, emocional e geográfico, já rendeu um espetáculo singular – Hysteria, do Grupo XIX de Teatro, dirigido por Luiz Fernando Marques. No caso dessa nova encenação, em que pese a relevante abordagem da perpetuação do sofrimento existencial imposto à mulher, a tradução visual dos conteúdos repercute mais do que a palavra.
O PAPEL DE PAREDE AMARELO E EU – Texto de Charlotte Perkins Gilman. Direção de Alessandra Maestrini e Denise Stoklos. Com Gabriela Duarte. Teatro I Love Prio (Av. Bartolomeu Mitre, 1110). Sex. e sáb., às 20h, dom., às 19h. Ingressos: R$ 100,00 e R$ 50,00 (meia-entrada).