Provocativa articulação de contrastes

Rodrigo Pandolfo e Karen Coelho em Coyote (Foto: @icarus.filmes)
Coyote, peça do dramaturgo escocês Eric Coble, coloca o público diante de um universo realista através de personagens representantes da solidão nas cidades – Melinda, dedicada ao emprego noturno na fábrica onde trabalha, e Tony, confinado dentro de casa. Outros “temas” emergenciais, como as implicações do capitalismo e a preocupação com a natureza, se somam à desolação afetiva que norteia ambos. Coble, porém, aborda questões da realidade por meio de circunstâncias cada vez mais distantes do real.
Antes do texto começar a se afastar do real – ou, mais exatamente, da verossimilhança das situações –, o autor concebe uma estrutura distinta da interação cotidiana. De início, os personagens se expressam em separado, sem firmarem um elo direto. Tornam-se cúmplices ao se depararem com um coiote e se sentirem fascinados pelo animal. Mais do que isso, Melinda e Tony corporificam a experiência com o coiote. Mas não agem de forma semelhante em relação a ele.
Na montagem atualmente em cartaz no Teatro Poeirinha – com Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo, que, além de dividirem a cena, assinam a direção (com interlocução artística de Jefferson Miranda) –, as diferenças não ficam restritas ao plano da ficção. Também se manifestam nos registros interpretativos dos atores. Enquanto Pandolfo investe em composição mais “armada”, realçando a permanente insegurança do personagem no modo como diz as palavras e na maneira que as corta na fala, Coelho não se desprende totalmente de uma vertente naturalista, até quando o alucinatório se impõe, estabelecendo, assim, um contraste instigante. A atriz vence os desafios lançados pelo texto sem qualquer artificialismo numa atuação bastante sólida.
O vínculo e o descolamento do real transparecem ainda na cenografia de Cássio Brasil, composta por placas quadradas que, retiradas, revelam terra que simboliza a natureza e, ao mesmo tempo, uma paisagem inóspita. Uma proposta que concilia apreciável originalidade e noção de síntese. Os figurinos de Brasil sugerem uma sobreposição algo desconexa de trajes que apontam, mas desconstroem o cotidiano. A iluminação de Ney Bonfante valoriza gradações e, em outros instantes, mudanças bem demarcadas. A trilha sonora de Marcello H. acentua a estranheza da peça.
Coyote, na tradução de Diego Teza, é um texto que conjuga a crítica concreta aos descaminhos do mundo com uma atmosfera delirante, articulação especialmente perceptível no ímpeto incendiário de Melinda, determinada a aniquilar a urbanidade e reflorestar o maior espaço possível. A encenação materializa no palco o caráter provocativo da dramaturgia singular de Coble.
COYOTE – Texto de Eric Coble. Direção e atuação: Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo. Interlocução artística de Jefferson Miranda. Teatro Poeirinha (R. São João Batista, 104). De qui. a sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 100,00 e R$ 50,00 (meia-entrada).