Variações e repetições

Vera Fischer, Leonardo Franco e Vitor Thiré em O Casal mais Sexy da América (Foto: Joaquim Araújo)
O dramaturgo norte-americano Ken Levine destaca, em O Casal mais Sexy da América, a importante temática do etarismo, cada vez mais debatida nos dias de hoje. Por meio de seus protagonistas, a atriz Susan White e o ator Robert MacAllister, o autor aborda a desvalorização de profissionais veteranos, especialmente aqueles cujas carreiras estão ligadas à difusão das próprias imagens na indústria do entretenimento.
Susan e Robert se projetaram como atores que alcançaram sucesso na juventude dentro de uma estrutura de mercado, a exemplo da série para a televisão que fizeram juntos. O sistema foi mais implacável com Susan, como costuma ocorrer com as mulheres, mais cobradas pela preservação de padrões estéticos pré-definidos. Não há como deixar de associar a trajetória de Susan com a de sua intérprete, a atriz Vera Fischer, estrela no passado, que, ao longo do tempo, se tornou menos cobiçada no cinema e na televisão, mas manteve sólido vínculo com a profissão, principalmente por meio do teatro, a julgar pela presença constante nos palcos.
Levine mostra o reencontro de Susan e Robert, após décadas de afastamento, devido à morte de um dos atores da série. A questão do etarismo vem à tona desde os primeiros minutos, quando os personagens revelam como administraram suas carreiras a partir do momento em que os convites glamourosos diminuíram bastante. Mas, depois de estabelecer o contexto ao qual os personagens pertencem, o autor evidencia dificuldade em desenvolver a peça.
A sensação de estagnação, que se impõe à medida que o texto avança, não é minimizada pelos recursos utilizados por Levine. O desdobramento da situação de Susan e Robert por meio de uma circunstância que surge na segunda metade não injeta sangue novo na peça. A inclusão de referências diversas a artistas conhecidos (Nicole Kidman) e a peças (Love Letters, de A.R. Gurney, montada, no Brasil, por Flavio Marinho, com Eva Wilma e Carlos Zara no elenco) não ultrapassa o charme de ocasião. E a alternância de climas, entre a comédia maliciosa e a rememoração dramática de traumas, distancia o texto de uma atmosfera sofisticada.
Responsável pela direção do espetáculo em cartaz no Teatro Clara Nunes e pela tradução do texto, Tadeu Aguiar adequadamente não transporta a peça para o Brasil. Imprime dinâmica no palco e apresenta uma cena com certo refinamento na reprodução realista de uma determinada ambientação – no caso, o quarto de hotel onde Susan se hospeda. O cenário de Natália Lana é muito atraente na harmonização das cores e na disposição do mobiliário. Mas há alguma fricção entre a moldura elegante e as marcas na janela e no rodapé desgastado – sinais tímidos de um luxo decadente que a peça não chega a sugerir, por mais que Susan reclame do quarto assim que entra nele. Essas poluições visuais parecem mais consequência da conservação do cenário, que, de qualquer modo, tem uma concepção mais que inspirada. Os figurinos de Dani Vidal e Ney Madeira estão em sintonia com os perfis de Susan e Robert. A iluminação de Sergio Martins contribui para a instalação das diferentes temperaturas emocionais vivenciadas pelos personagens. A direção de movimento de Sueli Guerra colabora para instantes de humor nas passagens em que ambos são confrontados com suas restrições físicas.
Os atores fazem considerável esforço no trabalho com uma dramaturgia frágil. Vera Fischer transita com habilidade pelos distintos estados da personagem. Expõe as facetas de Susan – entre elas, o comportamento aristocrático e vaidoso que camufla a insegurança em relação à carreira e a desestabilização que irrompe na parte final. Leonardo Franco, num personagem com um pouco menos de nuances, contrasta a interação natural com o tom impostado do ator que interpreta, mas essa artificialidade intencional destoa na última cena. Vitor Thiré realça, com timing ajustado, o contraponto geracional do jovem funcionário do hotel.
O Casal mais Sexy da América é uma peça que procura conciliar a fruição despretensiosa do espectador com uma oportuna reflexão sobre o pantanoso terreno da fama. Ken Levine, porém, não consegue sustentar a vivacidade do diálogo. Insere variações, mas incorre na repetição. Mesmo que o acontecimento teatral diga respeito à cena e não à literatura dramática – e que o espetáculo não seja desprovido de méritos artísticos –, o resultado aqui fica inevitavelmente atrelado às limitações do texto.
O CASAL MAIS SEXY DA AMÉRICA – Texto de Ken Levine. Direção de Tadeu Aguiar. Com Vera Fischer, Leonardo Franco e Vitor Thiré. Teatro Clara Nunes (R. Marquês de São Vicente, 52/3º andar). Sex. e sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 150,00 e R$ 75,00 (meia-entrada plateia), R$ 120,00 e R$ 60,00 (meia-entrada balcão), R$ 50,00 e R$ 25,00 (balcão popular).