Um mambembe repleto de interferências

Paulo Betti e Claudia Abreu em Os Mambembes (Foto: Annelize Tozetto)
Por meio de O Mambembe, Artur Azevedo (que a concebeu com a colaboração de José Piza), presta uma homenagem ao ofício teatral. Esse tributo atravessa a peça, centrada na atividade de uma companhia de teatro que percorre o interior do Brasil (de acordo com a tradição mambembe) se apresentando, mesmo diante de dificuldades econômicas que soam intransponíveis.
Nessa burleta – terminologia que diz respeito a uma comédia de costumes com inserções de números musicais – escrita no início do século XX, Azevedo retrata a estrutura de funcionamento de uma companhia da época. Um coletivo capitaneado por um empresário – descrito como profissional não “apenas” responsável pelo dinheiro, mas como figura que não abre mão de levar adiante o sonho da realização teatral – e constituído por artistas escalados para os personagens a partir de tipologias físicas, faixas etárias, perfis interpretativos e projeção hierárquica dentro do grupo.
Ao longo de O Mambembe, Azevedo mostra a nova formação da companhia marcada pela entrada de uma atriz amadora, Laudelina, convidada pelo empresário, Frazão, para logo assumir um posto de destaque, e as peripécias e os imprevistos que acontecem nas viagens às cidades pequenas, relacionados tanto à escassez de recursos quanto às manobras para lidar com os arroubos de um capitão com aspiração a dramaturgo, Pantaleão. No encerramento da peça, Azevedo chama atenção para um empreendimento ambicioso pelo qual lutou, mas não viu concretizado porque morreu em 1908, um ano antes de sua inauguração: o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O Municipal, inclusive, foi celebrado através da gloriosa primeira montagem da companhia Teatro dos Sete, que encenou, em 1959, sob a condução de Gianni Ratto, o texto de Azevedo. Um fato lembrado pela atriz Fernanda Montenegro, que pertenceu ao grupo, no final da sessão de Os Mambembes no último dia 8.
Fiel ao universo da peça, esse espetáculo dirigido por Emílio de Mello e Gustavo Guenzburguer foi idealizado como iniciativa mambembe, com a equipe artística transitando de ônibus por diferentes regiões do Brasil e realizando apresentações em ruas, praças e parques. Nessa temporada no Rio de Janeiro – que termina amanhã, no Teatro Oi Casa Grande –, houve um distanciamento da base popular do projeto, na medida em que o espetáculo migrou para espaço fechado e elitizado, mudança que implicou em adaptações na movimentação cênica e na interação com o público.
Mas os aspectos que norteiam a montagem não se alteram na passagem da rua para o edifício teatral. Apesar de o amor ao teatro surgir realçado em O Mambembe por meio da tenacidade dos artistas da companhia, essa exaltação se manifesta mais fora do texto do que através dele, em especial no final, quando os integrantes do elenco se descolam da peça para proclamar, individualmente, a adesão ao ofício, a conexão com o espírito do mambembe (são todos mambembes, segundo o título no plural). Diante das interferências no texto, a história de Azevedo se desenrola de maneira um tanto fragmentada em cena. O público perde a oportunidade de usufruir de forma mais plena de uma peça tão bem escrita e calorosa, que radiografia, pela perspectiva do humor, as agruras e o inquebrantável apego à prática teatral.
Ao invés de transportar para o palco a integralidade de O Mambembe, os diretores optaram por valorizar um caráter processual, possivelmente com o intuito de gerar no espectador a sensação de espetáculo pulsante e não cristalizado. Essa escolha, que não escapa de um certo lugar-comum da cena contemporânea, aparece em setores diversos da montagem. Os atores não interpretam, cada qual, um único personagem, mas se revezam, durante todo o tempo, entre vários. Assim, não “incorporam”, não se fundem aos personagens. Ao contrário, evidenciam o jogo de entrar e sair, passando rapidamente por eles. Os personagens são identificados por adereços coloridos sobrepostos a trajes neutros. Mesmo que sobressaia a ideia de peças tiradas de um baú, do teatro como brincadeira lúdica, a concepção dos figurinos de Marcelo Olinto carece de maior elaboração. A impressão de inacabado também desponta na cenografia de Marcelo Escañuela, que resulta indefinida na sugestão da estrutura de um ônibus.
Entrosado, o elenco – Claudia Abreu, Deborah Evelyn (na noite da apresentação substituída por Camí Boher), Julia Lemmertz, Leandro Santanna, Orã Figueiredo e Paulo Betti – preserva o gestual largo, expansivo, intencionalmente caricato, próprio do teatro popular. Orã Figueiredo demonstra domínio singular na composição dos personagens e na comunicação estabelecida com a plateia, momentos em que a narrativa de Azevedo fica um pouco mais conservada. Entre esses instantes, cabe ressaltar os referentes às discussões e à montagem da prolixa peça de Pantaleão, A Passagem do Mar Amarelo.
O Mambembe traz à tona um modo antigo de fazer teatro. Mas a paixão pela profissão se impõe como elo com o presente. A necessidade de frisar a ligação entre a temática da peça e os dias de hoje acaba aproximando o espetáculo de muitas experiências cênicas do aqui/agora e distanciando-o do frescor do texto de Azevedo.
OS MAMBEMBES – Texto de Artur Azevedo (com colaboração de José Piza). Direção de Emílio de Mello e Gustavo Guenzburguer. Com Claudia Abreu, Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Leandro Santanna, Orã Figueiredo e Paulo Betti. Teatro Oi Casa Grande (Av. Afrânio de Melo Franco, 290). Qui., sex. e sáb., às 20h e dom., às 18h. Ingressos: Plateia VIP – R$ 200,00 (inteira) e R$ 100,00 (meia-entrada); Plateia setor 1 – R$ 180,00 (inteira) e R$ 90,00 (meia-entrada); Balcão setor 2 – R$ 160,00 (inteira) e R$ 80,00 (meia-entrada); Balcão setor 3 – R$ 90,00 (inteira) e R$ 45,00 (meia-entrada).