Questão de poder

Velson D’Souza e Julianna Gerais em Oleanna (Foto: Caio Gallucci)
SÃO PAULO – A espacialidade da montagem de Oleanna colabora consideravelmente para o jogo de tensão concebido por David Mamet. É o que se pode notar tanto em relação à escolha do espaço onde a encenação dirigida por Daniela Stirbulov está em cartaz (o Espaço de Convivência do Teatro Vivo) quanto à criação cenográfica (de Carmem Guerra).
No que se refere ao espaço teatral propriamente dito, o público é acomodado bem próximo da cena, em lados opostos, e no mesmo plano dos atores/personagens para acompanhar, em crescente estado de suspensão, o digladiar entre o professor John, envolvido com o processo da compra de uma nova casa, e a aluna Carol, que se sente deslocada e humilhada por não conseguir assimilar os conteúdos abordados em aula.
O cenário é bastante simples, mas, na passagem da primeira para a segunda cena, há uma alteração na disposição dos móveis. Não se trata de uma rearrumação da sala do professor, onde o embate se dá, e sim de uma mudança de ângulo. Mamet apresenta justamente diferentes ângulos, pontos de vista, perspectivas, de uma história.
Entre John e Carol se estabelece uma disputa de poder. De início, o poder está nas mãos do professor, que, com o seu diploma, representa a autoridade acadêmica e desfruta de conforto e estabilidade dentro da universidade, benefícios simbolizados pela sala que ocupa. A aluna seria a parte mais frágil do conflito, dependente dos critérios do mestre para ter suas reivindicações contempladas. Mas essa dinâmica logo se inverte, em especial quando John, atravessado pela vaidade, oferece burlar as regras do sistema, aprovando Carol com a nota máxima com a condição dela encontrá-lo, ainda que com fins acadêmicos, ao longo do ano.
Se o desenho emocional de John é evidente, o de Carol parece mais nebuloso. Em que medida as atitudes que ela passa a tomar são consequência de uma indignação legítima diante de assuntos que tem dificuldade de acessar e não dialogam com sua realidade de vida? Será que ela decide manipular as circunstâncias de acordo com os seus interesses para conquistar o poder usufruído pelo professor na esfera acadêmica?
Nesse segundo caso, a personagem não derrubaria a hierarquia; ao contrário, passaria a exercê-la. De certo modo, não há como anular a hierarquia, até quando atores e espectadores estão posicionados no mesmo plano, como nessa montagem de Oleanna. Promover uma equivalência entre elenco e público é impossível. A princípio, os atores detêm o poder. Eles conduzem a cena, sabem o que vai ocorrer. Dominam a situação, enquanto os espectadores são surpreendidos pelo desenrolar da história e eventualmente ameaçados pela proximidade dos atores. Mas nem tudo é tão delimitado. Os atores também sofrem intromissões do acaso e são afetados pela temperatura e pressão dos espectadores, distintos a cada noite.
O fato é que Mamet constrói Carol como uma personagem incômoda não por contestar a soberania do professor, mas pela maneira como faz. Suas falas adquirem um tom de certeza e ela passa a se expressar em nome de um grupo que nunca é esclarecido, de uma suposta defesa da democratização do ensino. No entanto, Carol talvez aja movida por uma vingança pessoal decorrente da sensação de rebaixamento provocada por um professor cego para as necessidades alheias. Pelo menos, até se sentir acuado.
A interação entre John e Carol é constantemente acidentada. As frases são interrompidas, entrecortadas. Os personagens não se escutam e, portanto, não respondem aos questionamentos. O diálogo não acontece. Quem tem poder não quer negociar – primeiro o professor, depois a aluna. Mamet desenvolve essa relação repleta de atrito com habilidade, esbarrando, no desfecho, na inverossimilhança. Afinal, se Carol acusa John de tentativa de estupro, não faz sentido voltar a encontrá-lo, ainda mais em ambiente reservado.
Seja como for, Oleanna é uma peça polêmica, aparentemente coerente com as escolhas de Daniela Stirbulov, que, nos últimos tempos, assinou a montagem de um texto controverso de William Shakespeare, O Mercador de Veneza. Em Oleanna, a diretora evita maiores interferências. Valoriza a dramaturgia de Mamet e o trabalho do elenco à frente de personagens que realizam transições contrastantes. Julianna Gerais percorre, de forma orgânica, os variados estágios de Carol, da insegurança à contundente revolta que norteia as ações da aluna a partir de determinado momento. Velson D’Souza dá vazão à permanente agitação do professor algo arrogante – uma espécie de fluxo cortado que se manifesta na fisicalidade e na palavra – e à desestabilização que toma conta do personagem durante a peça.
Oleanna é um texto que tende a gerar inquietação, uma intensidade nervosa que extravasa do palco para a plateia. A montagem de Daniela Stirbulov preserva as características da obra original – assim como a dupla de atores, sintonizada em cena – e, dentro de uma concepção minimalista, lança ocasionais, mas instigantes, proposições.
OLEANNA – Texto de David Mamet. Direção de Daniela Stirbulov. Com Julianna Gerais e Velson D’Souza. Teatro Vivo / Espaço Convivência (Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460). Sex. e sáb., às 20h, dom., às 18h. Ingressos: R$ 100,00 e R$ 50,00 (meia-entrada). Até domingo.