Entre o extravasamento e a contenção

Tiago Martelli e Malu Galli em Mulher em Fuga (Foto: Nana Moraes)
A partir do entrelaçamento de dois livros do escritor francês Édouard Louis – Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta –, reunidos em costura dramatúrgica assinada por Pedro Kosovski, a montagem de Mulher em Fuga conjuga vozes: a principal, de Monique, mãe de Édouard, que tenta se desvencilhar do relacionamento violento com um homem, situação que se repete ao longo de sua trajetória; e a secundária, do escritor, que se empenha ao máximo para ajudá-la a escapar de uma rotina brutal.
Monique e Édouard surgem em cena como personagens contrastantes, mas não destituídos de gradações. Ela extravasa o que sente, quase que em permanente catarse, decidida a romper com um ciclo de maus-tratos; sinaliza, contudo, vulnerabilidade que a pode levar a retomada de uma dinâmica de vida perigosa. Ele demonstra postura racional, apesar dos eventuais embates passionais com a mãe, potencializados pela discrepância econômica e cultural entre ambos – Monique, pertence à classe trabalhadora, Édouard se tornou intelectualizado – e pela sexualidade do filho. Também não há esquematismo na mescla entre narração e vivência. Se no plano do presente a intensidade sobressai, a evocação do passado não se dá de forma exatamente fria e distanciada.
Os personagens representam propostas artísticas distintas. De um lado está Monique, porta-voz de uma encenação transbordante, física, que surpreende, como no instante em que uma parede subitamente cai para revelar a personagem/atriz tocando bateria. De outro, Édouard, símbolo de uma montagem mais convencional, cerebral, a exemplo da cena em que aparece sentado, diante do notebook. A junção dessas duas linguagens gera algum desequilíbrio nesse espetáculo dirigido por Inez Viana.
Os registros diversos se estendem às interpretações. Malu Galli domina, de maneira plena, uma atuação dramática. A atriz imprime autoridade em cena, perceptível, em especial, no modo contundente como diz o texto, característica que não entra em contradição com o estado de opressão da personagem. Tiago Martelli tem presença mais neutra, menos sanguínea, reduzindo o fluxo emocional do espetáculo.
Seja como for, Inez Viana procura expressar os conteúdos da dramaturgia na concepção cênica da montagem. Esse esforço louvável é parcialmente bem-sucedido. A cenografia de Dina Salém Levy se revela instigante na combinação de material (madeira) e cor (verde) e na imprevisível orquestração de toda a estrutura no fundo da cena. Mas a grande mesa, disposta em diagonal, é um pouco alta para a proporção palco/plateia do Teatro Firjan Sesi, obstruindo, em parte, a projeção inicial (dependendo de onde o espectador estiver localizado) e a ação da personagem cortando legumes. A iluminação de Aline Santini destaca, em dado momento, um espaço inacessível aos olhos do público, imagem sugestiva e aberta a possibilidades de sentido na jornada de uma personagem que caminha rumo à libertação e ao desconhecido. Os figurinos de Ticiana Passos opõem cores vibrantes (para Monique) e sobriedade (para Édouard). A trilha sonora de Felipe Storino acentua a pulsação nervosa do espetáculo.
Ao oscilar entre a quebra de barreiras (físicas, emocionais, espaciais, artísticas) e a preservação de determinadas convenções próprias de uma cena acadêmica, Mulher em Fuga incorre em certa indefinição. Mas a elaboração das questões promovidas pela dramaturgia nas criações artísticas que constituem a montagem e a interpretação de Malu Galli estimulam o espectador.
MULHER EM FUGA – Dramaturgia de Pedro Kosovski a partir de livros de Édouard Louis. Direção de Inez Viana. Com Malu Galli e Tiago Martelli. Teatro Firjan Sesi (Av. Graça Aranha, 1). Qui. e sex., às 19h, sáb. e dom., às 17h. Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada).