Controle milimétrico na cena de Bob Wilson

Bob Wilson em A Última Gravação de Krapp, encenação apresentada no festival Porto Alegre em Cena (Foto: Mariano Czarnobai)
O teatro de Bob Wilson (1941-2025), encenador que morreu na última quinta-feira, é frequentemente destacado pelo rigor estético, característica evidenciada na concepção de uma cena monumental, na qual imperavam o impacto de cores explosivas ou neutras e a precisão cirúrgica da iluminação. Mas não é suficiente reduzir suas proposições a formulações visuais arrebatadoras.
Nome de referência do teatro pós-moderno, responsável por encenações louvadas como Einstein on the Beach, o norte-americano Bob Wilson caminhou em direção contrária à linha psicológica e naturalista. Sua cena era norteada pelo gestual expandido, estilizado – influência do cinema mudo – e com a intensidade do registro clownesco. Os intérpretes pareciam seguir indicações bastante específicas sem, porém, cristalizarem, como figuras sem vida. Tanto que vários artistas consagrados atuaram sob seu comando, a exemplo de Isabelle Huppert, Willem Dafoe, Mikhail Baryshnikov e Adriana Asti.
Os espetáculos não forneciam sentidos fechados ao público e nem uma articulação reiterativa entre texto e imagem. Os espectadores eram estimulados a criar associações próprias a partir dos diversos estímulos heterogêneos lançados ao longo da apresentação. Orquestrador, Wilson exercia o máximo possível de controle sobre os procedimentos da cena, estruturada de maneira milimétrica, como assumida construção, como artifício.
Alguns espetáculos de Wilson desembarcaram no Brasil. Na década de 1970, Vida e Obra de Dave Clark teria sido uma das inspirações de Antunes Filho em Macunaíma, uma das emblemáticas encenações do teatro brasileiro. Também vieram para cá montagens resultantes de imersões de Bob Wilson na dramaturgia do irlandês Samuel Beckett: A Última Gravação de Krapp – com Wilson como ator – e Dias Felizes – com Asti no papel de Winnie.
Isabelle Huppert veio ao Brasil com Quartett, de Heiner Müller, na versão de Wilson, com quem trabalhou ainda em Orlando, a partir do livro de Virginia Woolf, e Mary Said What She Said, de Darryl Pinckney. Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe contracenaram como diferentes lados da mente de um escritor em A Velha, texto do russo Daniil Kharms (adaptado por Pinckney). E Wilson se debruçou sobre um astro brasileiro, o jogador de futebol Mané Garrincha, em Garrincha – Uma Ópera das Ruas.
Com a morte de Bob Wilson, o teatro perde um artista que investigou a palavra para além dos seus significados imediatos e produziu imagens imponentes e desconcertantes. Um encenador com assinatura inconfundível.