O fio do tempo

Raquel Scotti Hirson, Renato Ferracini, Ana Cristina Colla e Jesser de Souza em Kintsugi, 100 Memórias (Foto: Leonnon Cezar)
Algumas camadas de memória ganham destaque no decorrer do espetáculo do Grupo Lume, dirigido por Emilio García Wehbi, que encerra temporada amanhã no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Os integrantes do elenco – Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini – trazem à tona lembranças afetivas individuais, intransferíveis, sintetizadas por objetos antigos, que remetem a um passado mais distante, e por outros recentes. As experiências coletivas também são valorizadas por meio das memórias da jornada em comum dentro da companhia, ligada ao campo universitário (Unicamp) e iniciada há pouco mais de 40 anos ao lado de Luís Otávio Burnier, artista que morreu precocemente; e do cotidiano num país como o Brasil, atravessado por instabilidades e contextos opressivos.
Ao “documentar” as esferas privada e pública das vidas dos artistas do Lume, a dramaturgia de Pedro Kosovski parece ambicionar uma certa invisibilidade. Essa impressão, porém, é enganosa. O “resgate” do passado implica em subtrações e acréscimos em relação aos acontecimentos originais, o que acarreta inevitável ficcionalização. Esse mecanismo sobressai na encenação através da rememoração de um único fato – um dos artistas do grupo teria se excedido e proclamado que não precisa dos demais –, descrito por todos os componentes do elenco, que não apenas o repetem, mas o modificam, em grau crescente, em suas narrativas.
Kosovski estrutura esse episódio (verídico?, inventado?) por meio de procedimentos de corte e colagem. A colagem dos cacos de um vaso jogado ao chão logo no início, ação compartilhada pelos atores durante a apresentação, tem significado simbólico. Do mesmo modo que os eventos do passado, impossíveis de serem recuperados de maneira pura e fidedigna, exatamente como ocorreram, o ato de restauração do vaso gera um objeto novo, alterado. Kosovski organiza os estilhaços de memória sem buscar uma ordenação linear. Concebe uma malha dramatúrgica que conta com relatos de depoimentos de pessoas portadoras de Alzheimer. Transcende, assim, as particularidades dos próprios artistas, que, contudo, não deixam de se mostrar afetados pelo contato com trajetórias distintas.
À medida que o espetáculo avança, o palco vai sendo tomado pelos objetos pessoais dos atores, pela junção de elementos emblemáticos para cada um, referentes a um passado próximo ou longínquo. Os artistas incluem ainda objetos quase intocados, como um livro não lido, mas, nem por isso, destituídos de pertencimento. Unidos, esses fragmentos de memória compõem o fio do tempo e adquirem impacto plástico. A cena é complementada pelo desenho sonoro de Janete El Haouli e José Augusto Mannis, que chama atenção pela orquestração de suaves modulações. Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini demonstram sintonia e entrosamento, tanto nos momentos marcados por construção oculta, nos quais falam de forma espontânea e não “representada”, quanto naqueles em que a criação se impõe com mais evidência, em especial nas passagens notadamente físicas.
Kintsugi, 100 Memórias é um espetáculo que coloca o público diante de parte considerável do percurso de um grupo de pesquisa continuada como o Lume. As imprecisões e parcialidades da memória são não só assumidas como utilizadas como materiais artísticos por uma companhia que aponta para o futuro.
KINTSUGI, 100 MEMÓRIAS – Texto de Pedro Kosovski. Direção de Emilio García Wehbi. Com Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini. Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66). De qua. a sáb., às 19h e dom., às 18h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada).