Um Hamlet repleto de apelos sedutores

Glauce Guima e Bruce Gomlevsky em Hamlet (Foto: Dalton Valério)
A Cia. Teatro Esplendor vem, ao longo dos seus 15 anos de trajetória, privilegiando a dramaturgia. Esse princípio não se alterou com determinadas transições do coletivo fundado por Bruce Gomlevsky, como a passagem da valorização da escrita realista para a subversão desse registro e o investimento em operações cada vez mais ousadas em relação às peças. A oscilação entre o clássico e o contemporâneo e a concepção de textos a partir de obras já existentes se impõem na seleção dos trabalhos constitutivos da comemorativa ocupação da companhia no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Um Tartufo, escorado na peça de Molière, Outra Revolução dos Bichos, apropriação de Daniela Pereira de Carvalho da obra de George Orwell, Pedrinhas Miudinhas, também assinada por Daniela com base no texto de Luiz Antonio Simas, e, agora, Hamlet, de William Shakespeare.
A seriedade do projeto dramatúrgico, liderado por Bruce (como diretor e/ou ator), pode ser constatada nas realizações dentro e fora da Esplendor: Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman, Volta ao Lar, de Harold Pinter, O Homem Travesseiro, de Martin McDonagh, Festa de Família, de Thomas Vinterberg, Mogens Rukov e Bo Hr. Hansen, O Funeral, de Vinterberg e Rukov, Uma Ilíada, adaptação de Denis O’Hare e Lisa Peterson para Ilíada, de Homero, Timon de Atenas, de Shakespeare. Em cartaz até segunda-feira, Hamlet é possivelmente a iniciativa mais ambiciosa de Bruce, que acumula a direção do espetáculo e a interpretação do complexo protagonista.
A priorização de textos sólidos, menos frequente nas últimas décadas, talvez esteja voltando à tona. O domínio da palavra, das intenções e contradições dos personagens transparece em algumas atuações. São os casos de Bruce, que imprime colorido dramático ao sofrido e sarcástico Hamlet, destacando variações nos estados emocionais, ocasionalmente dentro de uma única frase; Gustavo Damasceno, que não uniformiza a vilania do Rei Claudius, evitando um previsível tom contundente; e Jaime Leibovitch, que se divide, com habilidade, entre um enérgico Polônio e o aproveitamento do humor na cena do coveiro. Em que pesem irregularidades no rendimento do elenco (na noite em que o espetáculo foi conferido, Vitória Reis substituiu Sirléa Aleixo), todos atuam de modo, no mínimo, disciplinado e dedicado.
Mas, ao mesmo tempo em que a montagem proporciona ao público o contato com o texto de Shakespeare (na tradução de Geraldo Carneiro), há escolhas da direção que sinalizam certa insegurança. A inserção e a aproximação física do espectador na cena sugerem uma tentativa artificial de dinamizar a experiência, talvez decorrente do receio de que a apreciação da palavra se torne exasperante. O estímulo à livre circulação da plateia pelo espaço, como convidados da festa de casamento de Claudius e Gertrudes, a proximidade no duelo final entre Hamlet e Laertes e o reposicionamento dos espectadores durante a apresentação – como se as mudanças de disposição propiciassem a percepção da história a partir de novos e diferentes ângulos – soam mais como efeitos envolventes do que como proposições consistentes.
Mais escolhas geram estranhamento. A revelação sobre o assassinato do pai de Hamlet é feita através do cinema. Uma opção que evoca Um Tartufo, espetáculo da companhia que suprimiu o texto de Molière, mostrando-o sob a forma de cinema mudo, marcadamente da fase do expressionismo alemão. A ideia é interessante, mas desconstrói um dos principais elementos da peça de Shakespeare: o uso do teatro como instrumento de exposição da verdade. Além disso, na peça, Horácio afirma ter visto o Fantasma do pai de Hamlet antes mesmo dele surgir diante do próprio Hamlet. Na montagem, o Fantasma aparece como uma espécie de entidade, como se irrompesse num instante de transe mediúnico de Horácio. Ao invés de dois personagens separados (o Fantasma e Horácio), um dá a impressão de ser a incorporação do outro.
Há ainda propostas pouco desenvolvidas que apontam para contextos distintos. Em meio às referências aos aparatos tecnológicos contemporâneos, Rosencrantz e Guildenstern despontam como figuras robóticas. Em contrapartida, armamentos remetem a um passado histórico ligado ao universo do cangaço. Os figurinos de Maria Callou dialogam com esse acúmulo de tempos, mas, ao não assumirem plenamente o contraste entre épocas diversas, resultam algo indefinidos. O cenário de Nello Marrese serve à funcionalidade e permanente movimentação da montagem. A iluminação de Elisa Tandeta realça gradações – do insinuado, intencionalmente na penumbra, à luz forte e direta em dados momentos.
A realização de um Hamlet inclusivo, sintonizado com a atualidade, é bem-vinda, mas esse direcionamento fica muitas vezes restrito à esfera do apelo sedutor. Apesar disso, a encenação confirma a tenacidade e a inquietação de Bruce Gomlevsky, no que diz respeito à transposição para o palco de dramaturgias desafiadoras.
HAMLET – Texto de William Shakespeare. Direção de Bruce Gomlevsky. Com Bruce Gomlevsky, Gustavo Damasceno, Ricardo Lopes, Glauce Guima, Sirléa Aleixo, Jaime Leibovitch, Daniel Bouzas, Maria Clara Migliora, Tamie Panet, Alitta de Léon, Aquarela Neves e Guilherme Pinel. Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66). Qua. a seg., às 19h e dom. às 18h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada).