Risco e continuidade

O Grupo Galpão costuma ser lembrado pela prática de um teatro centrado na comicidade expansiva, na conexão com manifestações culturais populares e na intensa interação estabelecida na rua, espaço de origem do coletivo, fundado, há mais de 40 anos, em Belo Horizonte. Mas, ao longo de sua trajetória, o grupo não se manteve acomodado numa única linha de repertório ou numa forma cristalizada de fazer teatro. Frequentemente louvado pela gloriosa encenação de Romeu e Julieta – apropriação da tragédia romântica de William Shakespeare mesclada ao universo do interior mineiro, base de referência do diretor Gabriel Villela –, o Galpão, porém, já tinha uma história percorrida antes dessa explosão criativa e, depois dela, deu vazão a espetáculos distintos, alguns norteados por investigações das obras de dramaturgos, que, a princípio, não se afinariam com o seu perfil caloroso, como Bertolt Brecht – em Um Homem é um Homem – e Anton Tchekhov – nas encenações de Tio Vânia (Aos que Vieram Depois de Nós) e Eclipse e no filme Moscou.
Agora, com (Um) Ensaio sobre a Cegueira, espetáculo dirigido por Rodrigo Portella que encerra temporada no Teatro Carlos Gomes, o Galpão se arrisca na adaptação do livro de José Saramago, também distante, pelo menos aparentemente, da vertente dramatúrgica esperada em trabalhos do grupo. Mas é possível traçar articulações entre a nova montagem e realizações anteriores do Galpão. No plano temático, ao interpretarem personagens subitamente confrontados com a cegueira (uma cegueira real e, ao mesmo tempo, simbólica) e cada vez mais explorados por autoridades perversas em meio ao confinamento num manicômio, os atores do Galpão retomam uma ficção sobre um coletivo em crise crescente, marcado por ânimos exaltados. Esse painel humano conflituoso – e, aqui, degradado – traz à tona, ainda que ao longe, Nós, montagem dirigida por Marcio Abreu.
No que diz respeito à concepção da cena, o termo ensaio não remete “apenas” ao livro de Saramago. A espacialidade desse espetáculo sugere a circunstância da sala de ensaio (cenografia de Marcelo Alvarenga – Play Arquitetura), própria a trabalhos em processo, pulsantes em suas não finalizações, a exemplo de Moscou, filme de Eduardo Coutinho, no qual os integrantes do Galpão se dedicaram a um projeto que, de antemão, se sabia que seria interrompido – os ensaios, durante três semanas, de As Três Irmãs, peça de Tchekhov. Sublinhando o caráter de trabalho em construção, os atores manipulam, no decorrer da apresentação, um refletor no palco, determinando a atmosfera das cenas. A inconclusão e a leitura específica da obra surgem sintetizadas no acréscimo do (Um) ao título. Além disso, a montagem evidencia a continuidade da pesquisa artística desenvolvida pelo Galpão. O elenco comprova o domínio de instrumentos musicais, habilidade conquistada por cada componente do grupo, e exercida nesse espetáculo de maneira propositadamente menos exuberante, mas expressiva.
Rodrigo Portella transporta o livro de José Saramago para o palco seguindo uma tendência contemporânea – a de incluir o público na cena, priorizando os mecanismos explícitos em detrimento de uma sensibilização mais sutil. A proposta se materializa no espetáculo por meio de diversos procedimentos. O principal deles é o convite para que um dado número de espectadores suba ao palco na segunda parte da encenação, ambientada no manicômio, e lá permaneça em contato com o elenco. Esse recurso, ao que parece, se deve à necessidade de preencher o palco com um agrupamento que permita ao restante da plateia visualizar um quantitativo de pessoas submetidas a imposições violentas, arbitrárias e humilhantes. Há a intenção de poluir o espaço, que vai se tornando desordenado e caótico à medida que o espetáculo avança. E as espectadoras, em particular, ganham função mais concreta a partir do momento relativo ao martírio das mulheres, quando o sofrimento das personagens passa da exposição – em representações realçadas por gestos de esgotamento físico e pelo despojamento dos figurinos (de Gilma Oliveira) – para a busca da visceralidade.
A grande maioria dos espectadores, disposta na plateia do teatro, também é afetada por modos de inclusão, seja o repetido uso de flashes de luz que “cegam” o público, seja através da preservação da narração, feita pelos atores num certo descolamento (de acordo com a proposição brechtiana) propiciado pela marcação frontal, mas não com frieza e impessoalidade. No primeiro caso, a iluminação (de Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella) alterna esses instantes de incômodo com gradações refinadas, importantes na criação de quadros vivos em cena. No segundo, a narração, própria da estrutura literária, confirma a apreciável precisão dos atores em relação à palavra. Durante o espetáculo, o elenco – Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Rodolfo Vaz e Simone Ordones – transita entre a narração e a vivência dos acontecimentos descortinados no texto. Os atores demonstram entrosamento nessa oscilação de linguagens e se destacam mais pela força de conjunto do que por brilhos individuais.
(Um) Ensaio sobre a Cegueira não esconde a ambição, perceptível na conciliação entre a densidade da tragédia e a desconstrução pela via do humor na abordagem caricata de políticos patéticos; entre a agressividade de luzes que estouram como faróis capazes de despertar o espectador de um estado de torpor e o apuro de elementos visuais e sonoros cuidadosamente burilados; e entre o palco amplo, mas opressivo, e a rua, que, ao final, é acessada como espaço de libertação. Apesar de proclamar sintonia com conhecidas diretrizes do teatro de hoje, o espetáculo mostra que o Grupo Galpão, ao mergulhar em material dramatúrgico nada previsível, sustenta saudável inquietação. Contundente, a cena mobiliza o público.
(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – A partir do romance de José Saramago. Direção e dramaturgia de Rodrigo Portella. Com Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André/Rodolfo Vaz e Simone Ordones. Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº). De qua. a sex. às 19h, sáb. e dom., às 17h. Ingresso e ingresso experiência: R$ 80,00 e R$ 40,00 (meia-entrada, também para Associados do Sesc). Ingresso promocional: R$ 34,00 e R$ 17,00 (meia-entrada). Última apresentação.