Violência estampada no corpo

Montagem d’Aquela Cia., Veias Abertas 60 30 15 seg está em cartaz nop Espaço Cultural Sergio Porto (Foto: Ligia Jardim)
Veias Abertas 60 30 15 seg, encenação dirigida por Marco André Nunes em cartaz no Espaço Cultural Sergio Porto (após temporada no Mezanino do Espaço Sesc), é um trabalho mais próximo dos pertencentes a uma fase anterior d’Aquela Cia., que completa 20 anos de trajetória. Esse novo espetáculo tem mais ligação com as realizações voltadas para a apropriação de textos e do universo de determinados escritores – Franz Kafka (em Projeto K.), Goethe (em Sub:Werther), Herman Hesse (em Lobo nº1: A Estepe) e James Joyce (em Do Artista Quando Jovem). É o que se pode perceber na dramaturgia assinada por Pedro Kosovski e Carolina Lavigne a partir de As Veias Abertas da América Latina, livro de Eduardo Galeano.
O perfil autoral das montagens da companhia se manifestou depois na subversão das características tradicionais do gênero musical, pelo menos no que se refere ao afastamento em relação a uma estrutura de mercado. Veias Abertas 60 30 15 seg não se inscreve exatamente nessa corrente, apesar da importância da música ao vivo de Felipe Storino. Mas, como nos “antimusicais” apresentados pela companhia, nos quais os números musicais não eram utilizados como apelos de sedução, aqui a dança – expressão artística que se soma ao mencionado intercâmbio entre teatro e literatura – não se impõe “meramente” como elemento atrativo. Na dramaturgia cênica do espetáculo, o caráter enérgico e contagiante da dança (em ritmos variados, entre eles salsa, bolero, samba e mambo) surge em incômodo contraste com toda a violência tematizada ao longo da encenação: a violência vivenciada, em diversos momentos históricos, pelos muitos oprimidos em diferentes países da América Latina.
Não por acaso, o corpo desponta de maneira central na cena. O ator Juracy de Oliveira tinge partes do corpo sinalizando as múltiplas agressões físicas, procedimento artificial/teatral que não diminui o impacto da exposição. Em dado instante, descrições da natureza são corporificadas pelo movimento das costas da atriz Carolina Virgüez. E, conforme sugerido no título, a redução da duração das cenas faz com que o elenco atue de modo cada vez mais vertiginoso, à beira da exaustão. O fluxo das cenas se torna abreviado, interrompido.
Bem mais que um auxílio, a direção de movimento de Marcia Rubin se revela fundamental na concretização desse projeto. Mas as demais contribuições artísticas também se mostram propositivas. A cenografia de Aurora dos Campos e Marco André Nunes é composta por um tabuleiro que realça o jogo cênico do espetáculo. Os figurinos de Fernanda Garcia são marcados tanto pela praticidade da roupa-base quanto pela exuberância de trajes distantes de estereótipos. E a iluminação de Renato Machado injeta pulsação sanguínea no palco. O elenco, formado por Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar (substituído, na sessão, por Juracy de Oliveira) demonstra plena sintonia com a proposta do espetáculo, mas cabe destacar a atuação de Virgüez, que sobressai pelo domínio da palavra, proferida com contundência, e do corpo, em passagens que surpreendem não pela exibição do vigor coreográfico e sim pelo minucioso controle físico.
Veias Abertas 60 30 15 seg é uma encenação que desafia o espectador. Não se desconecta da contextualização história e da produção de sentidos (há constante menção à exploração da banana), mas ambas não servem como muletas para uma apreciação linear e confortável do público. No que diz respeito às duas décadas de jornada da companhia, a montagem evidencia coerência, sem, porém, se limitar a reiterar linhas de pesquisa. Ao contrário, constrói o presente a partir de um diálogo instigante com o passado.
VEIAS ABERTAS 60 30 15 SEG – Texto de Pedro Kosovski e Carolina Lavigne. Com Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar/Juracy de Oliveira. Espaço Cultural Sergio Porto (R. Humaitá, 163). Sex. e sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 70,00 e R$ 35,00 (meia-entrada).