Questões abrangentes em trama condensada

Kaio Raiol, Pedro Manuel Nabuco, Heitor Acosta e Isadora Ruppert em Dia de Jogo (Foto: Daniel Vicente Bandeira)
Diferentes entendimentos de jogo marcam essa montagem do texto de Pedro Manoel Nabuco (concebido em colaboração com Moacir Chaves e Edson Sodré) sob a direção de Gabrielly Vianna. Há o jogo enquanto entretenimento – o jogo de bola entre os amigos, o jogo de cartas, o mencionado jogo de futebol –, que não adquire importância determinante na peça (como o futebol no encerramento de A Falecida, de Nelson Rodrigues, só para citar um exemplo), mas ganha, eventualmente, sentido metafórico, como na cena em que as cartas de um baralho, dispostas em círculo, no chão, têm a organização desarrumada devido a uma briga, simbolizando a crescente pressão sofrida pelos personagens. E há o jogo cênico, entre os atores, a partir de registros diversos, do naturalismo à composição estilizada.
Por meio desses jogos, Pedro Manoel Nabuco mostra as jornadas de três amigos de infância – Almôndega, Cebola e Tito. O autor destaca um momento culminante, quando os dois primeiros reencontram o terceiro, que se distanciou anos atrás e ascendeu economicamente de maneira nebulosa. O dramaturgo conjuga a convivência concentrada, intimista, entre os personagens com um contexto mais abrangente, abarcando as arriscadas experiências deles no mundo externo. Entrelaça passado e presente nas trajetórias dos personagens e seus cotidianos contrastantes – o dia a dia na periferia, os altos escalões do poder –, nas quais a criminalidade irrompe de formas distintas. Ambiciona um arco (temporal, social) amplo, mas, provavelmente com o intuito de envolver o espectador, prioriza as reviravoltas de uma trama condensada, que dialoga com representações eletrizantes da realidade, em detrimento de uma abordagem adensada dos conteúdos reunidos.
A intenção de incluir – ou, pelo menos, aproximar – a plateia na ação também se manifesta por meio do aproveitamento das possibilidades de ocupação da cena no reduzido palco do Espaço Rogerio Cardoso, com os atores transitando entre as áreas disponíveis, e das rápidas interações do elenco com o público. O resultado dessas tentativas de conexão entre o espectador e o espetáculo, propostas na direção de Gabrielly Vianna, é parcial. Seja como for, as criações artísticas surgem dimensionadas no espaço, no que diz respeito ao trabalho de corpo em instantes pontuais do espetáculo (preparação a cargo de Gustavo Vieira, coreografia de Shantala Martins). Na cenografia de Mariana Marton, as cartas de baralho despontam como principais elementos e os figurinos de Samir Alves valorizam o universo dos personagens através da mescla entre a fidelidade ao real e a estética do grafite.
Há uma integração entre os componentes do elenco, o que não significa que todos atuem numa mesma linha interpretativa. Heitor Acosta transcende, em alguma medida, o naturalismo da representação ao projetar um estado de perplexidade, uma falta de sintonia entre Almôndega e os demais, que não decorre propriamente de discordâncias em relação às decisões tomadas e sim da dificuldade em acompanhar a dinâmica dos embates. O ator estabelece, com precisão, um timing específico que surpreende a plateia. Kaio Raiol se antecipa, às vezes, na fala atropelando um pouco a conversa, mas, de qualquer modo, transmite, com veemência, a indignação de Cebola. Pedro Manoel Nabuco adere à coloquialidade da contracena e procura demarcar a transição de Tito ao longo do tempo. Isadora Ruppert destoa propositadamente ao enveredar por atuação caricatural em chave de humor que uniformiza a maquiavélica e alienada Camila, uma personagem “de fora”, sem elo com dois dos amigos.
Dia de Jogo traz o conflito (quase) explosivo entre personagens confrontados com situações extremadas. O objetivo de Pedro Manoel Nabuco não foi “apenas” contar uma história ao público, mas expor temáticas contundentes a partir dela. Apesar do autor não desenvolver suficientemente as questões, essa montagem da Má Companhia suscita no espectador certo grau de curiosidade.
DIA DE JOGO – Texto de Pedro Manoel Nabuco. Direção de Gabrielly Vianna. Com Heitor Acosta, Isadora Ruppert, Kaio Raiol e Pedro Manoel Nabuco. Espaço Rogério Cardoso (Av. Vieira Souto, 176). Sex. e sáb., às 19h e dom., às 18h. Ingressos: R$ 50,00 e R$ 25,00 (meia-entrada).