Fidelidade sem subserviência

Sandra Corveloni e Bruno Barchesi em Credores (Foto: Ronaldo Gutierrez)
O Grupo Tapa caminha numa certa contramão da cena contemporânea, frequentemente voltada para a desconstrução das peças e a utilização delas como canais de expressão dos artistas e não como valorização da literatura dramática em si. Ao longo dos anos, a companhia, capitaneada pelo diretor Eduardo Tolentino de Araujo, vem se debruçando sobre textos importantes da dramaturgia brasileira e da estrangeira. As peças costumam ser apresentadas nas suas totalidades ao invés de apropriadas por meio de procedimentos de corte e colagem, acréscimos e subtrações, e articulações com outras obras e vivências. Mas não significa que o Tapa aborde os textos de maneira burocrática, destituída de inventividade.
Credores – espetáculo longevo, há mais de 10 anos no repertório do grupo, atualmente em cartaz no Teatro Poeira – é uma prova disso. Sem subverter a peça de August Strindberg, escrita em 1887, Tolentino lança determinadas proposições. Introduziu mudanças em relação à ambientação original da história (o salão de um hotel em região balneária) com a criação de espaços distintos, principalmente o de uma sauna onde interagem Gustavo e Adolfo, dois homens ligados a uma mulher, Tekla, em diferentes fases. Inseriu um novo personagem – o encarregado, funcionário do hotel que realiza ações cotidianas enquanto observa o trio, falando, apenas ao final, uma frase que não pertence a essa peça de Strindberg. E pontuou a cena com música brasileira cantada por Tekla em sua entrada. Essas propostas se referem tanto à esfera da dramaturgia quanto à da cena.
Tolentino procura incluir o público na encenação, ainda que não através de mecanismos explícitos. O cenário traz, como elementos centrais, espelhos, dispostos em ângulos diversos, que, além de refletirem no palco a imagem da plateia, sugerem as variadas perspectivas da história, expostos à medida que a peça avança e revelações vêm à tona. Não é a primeira vez que o Tapa faz uso criativo de espelho, valendo lembrar de Vestido de Noiva. Na versão da peça de Nelson Rodrigues montada pelo grupo na década de 1990, o espectador via as cenas do plano da realidade através das imagens refletidas no espelho.
A inclusão do público também se dá, em dado momento, por meio de transição abrupta da iluminação, que quebra com a atmosfera instalada. Há mais instantes que distanciam a cena do jogo ilusionista, evidenciando o acontecimento teatral e relativizando, com suavidade, a concepção realista do espetáculo. São os casos dos blackouts na cena da sauna, que geram cortes secos, sem, contudo, romperem com a continuidade do segmento; e dos movimentos de Tekla na aproximação do público, passagens em que os espectadores são descritos como turistas. Tolentino não mantém os personagens fechados em si. Eles conversam sobre questões íntimas, às vistas das incômodas presenças dos turistas/espectadores e do funcionário do hotel – portanto, sem a devida privacidade. A chegada de Tekla, inclusive, dinamiza a encenação, alterando o tom um pouco monocórdico que marca o diálogo dos homens na sauna.
Não existe menção a profissionais específicos na cenografia, nos figurinos e na iluminação. Todos esses “quesitos” constam como criação coletiva e é possível perceber uma integração entre as partes. No cenário há recortes de ambientes, simbolizados por bancos de madeira e cadeiras de jardim. Nos figurinos predominam cores claras e neutras (branco, bege, azul) e alguma formalidade. Na iluminação sobressaem gradações sutis contrastadas com o instante brusco em que o público é “despertado” e inserido na cena.
O elenco demonstra sintonia e realça os perfis dos personagens. André Garolli descortina, progressivamente, a manipulação e a agressividade de Gustavo por meio de uma entonação cada vez mais enfática e contundente. Bruno Barchesi destaca, no corpo e na voz, a fragilidade física e emocional de Adolfo. Não escapa por completo de uma uniformização, em especial no modo de falar, na cena da sauna, sensação, porém, minimizada no decorrer do espetáculo. Sandra Corveloni imprime intensidade e um ar provocante à Tekla. Sem perder a fluência, transita, nos embates com os personagens masculinos, da docilidade à insubmissão. Felipe Souza cumpre com disciplina as funções do encarregado.
Grupo que deu partida à trajetória profissional, em 1979, no Rio de Janeiro – e radicado em São Paulo desde 1986 –, o Tapa retorna oportunamente à sua cidade de origem. Nessa montagem de Credores, Eduardo Tolentino de Araujo afirma a relevância do texto por meio de um olhar respeitoso e, ao mesmo tempo, imaginativo. É uma encenação que honra a peça, mas sem subserviência.
CREDORES – Texto de August Strindberg. Direção de Eduardo Tolentino de Araujo. Com Sandra Corveloni, André Garolli, Bruno Barchesi e Felipe Souza. Teatro Poeira (R. São João Batista, 104). De qui. a sáb., às 20h, dom., às 19h. Ingressos: R$ 120,00 e R$ 60,00 (meia-entrada).