Todas as facetas de Fafá

Lucinha Lins (ao centro), Helga Nemetik (ao fundo/esquerda), Laura Saab (ao fundo/direira) interpretam Fafá de Belém em diferentes fases (Foto: Nil Caniné)
Fafá de Belém, o Musical, espetáculo em cartaz no Teatro Riachuelo, reúne as características frequentemente encontradas na vertente do musical biográfico, que, desde A Estrela Dalva – encenação protagonizada por Marília Pêra, na segunda metade dos anos 1980, em homenagem à cantora Dalva de Oliveira –, ganhou destaque crescente nas temporadas teatrais. Os musicais filiados a essa corrente vêm transitando entre tributos a artistas já falecidos e outros vivos e atuantes, entre dramaturgias que apresentam recortes das carreiras e outras que ambicionam abarcar a totalidade das trajetórias pessoais e profissionais, entre propostas que obedecem à linha cronológica dos acontecimentos e outras que se arriscam a subvertê-la. Mas, mesmo considerando as variações e oscilações nos resultados alcançados (vale citar Somos Irmãs, sobre Linda e Dircinha Batista, como realização especialmente satisfatória), as montagens pertencentes a esse bem-sucedido filão do teatro de mercado se aproximam na disposição de oferecer ao público um contato emotivo com importantes artistas e momentos da música brasileira.
Diretor de Fafá de Belém, o Musical, Gustavo Gasparani tem desenvolvido percurso singular no musical. Ator com base no teatro de grupo (Cia dos Atores) voltado para a concepção de uma cena inventiva a partir de peças ousadas (A Morta e O Rei da Vela, de Oswald de Andrade) ou de dramaturgia criada dentro do coletivo, Gasparani enveredou pelo musical mais decidido a investir em projetos autorais do que a se dissolver na engrenagem comercial. Assinou textos centrados em apropriações brasileiras de referências e modelos estrangeiros, a exemplo de Otelo da Mangueira – que, como o título indica, entrelaça a tragédia shakespeariana com o universo do samba –, Oui Oui…A França é Aqui! A Revista do Ano (em parceria com Eduardo Rieche) – divertida e atualizada evocação do Teatro de Revista –, As Mimosas da Praça Tiradentes (também com Rieche) – escrachada conjugação da tradição da Revista com o cabaré para contar a história da Praça ao longo do tempo – e Samba Futebol Clube – mescla de músicas e crônicas ligadas à modalidade esportiva. Sem renunciar a uma identidade, aderiu ao musical biográfico em montagens como Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba, Gilberto Gil – Aquele Abraço e agora Fafá de Belém.
Nesse novo espetáculo, Gasparani e Rieche, responsáveis pelo texto e escorados em pesquisa de Rodrigo Faour, procuram traçar uma panorâmica da jornada da cantora. Abordam a infância em Belém, ao lado dos pais e dos irmãos, quando se afastou do comportamento convencionado para meninas; o instante na adolescência em que mudou de cidade, mas sem se desapegar das próprias raízes; a personalidade contundente evidenciada nos eventuais embates com as gravadoras; a resistência diante da pressão para ceder à ditadura da estética física e abrir mão de suas marcas inconfundíveis, como o riso expansivo; a conciliação entre o repertório musical criterioso e a abertura para canções populares; a militância política manifestada principalmente nas Diretas Já; e a força de sua religiosidade. Devido ao arco temporal tão extenso, Fafá é interpretada por diferentes atrizes em períodos distintos de sua vida. Na fase da maturidade, a cantora surge sendo entrevistada para um documentário, circunstância que confere um peso didático à dramaturgia.
De certo modo, há a intenção de incluir os muitos estágios atravessados por Fafá de Belém, como se pode perceber na cenografia de Ronald Teixeira, que emoldura o palco com estampa que remete à natureza amazônica, traz um pedaço de camarim – espaço onde a cantora é entrevistada – e se complementa com elementos que expressam o folclore regional (a lenda do boto) que aparecem suspensos ao fundo. Os figurinos de Claudio Tovar mantêm a criatividade até nos trajes dos personagens autoritários, sem vínculo genuíno com a criação artística. A notada valorização do branco contrasta com a paleta mais fechada dos vestidos de Fafá. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros preenche a cena com cores intensas, mas sem se limitar ao lugar-comum das tonalidades meramente esfuziantes dos musicais calorosos.
Como em diversos musicais, a artista em questão é interpretada por mais de uma atriz – mas aqui essa escolha é determinada pelas faixas etárias. As atrizes que despontam em cena como Fafá de Belém não seguem um único registro. Laura Saab transmite o frescor juvenil de Fafá, realçando o conhecido riso largo. Helga Nemetik mimetiza Fafá por meio de exata reprodução da entonação vocal no canto. Não fica, porém, restrita ao plano da composição imitativa. A atriz imprime transbordante exuberância em cena. Lucinha Lins demonstra naturalidade tanto na postura sóbria da Fafá que relata fatos fundamentais do passado quanto no vigor enérgico, mas amoroso, da mãe da cantora. Os demais integrantes do elenco – Ananda K, Clarah Passos, Daniel Carneiro, Diego Luri, Fernando Leite, Gabriel Manitta, Keren Silveira, Mona Vilardo, Neieme, Sergio Dalcin e Thuca Soares – se revezam entre as figuras que passam pela vida de Fafá de Belém, formando um conjunto sintonizado na contracena e nas passagens coreografadas por Renato Vieira. Cabe mencionar ainda a direção musical de Marcelo Alonso Neves e os trabalhos dos músicos (Glauco Berçot, Bruno Martins, Didier Fernan, Fábio D’Lélis e Frank Russo).
Em meio a padronização dos musicais biográficos, da qual Fafá de Belém, o Musical não escapa por completo ao fornecer o painel de uma vida em habituais 2h45 de duração, Gustavo Gasparani consegue estabelecer alguma conexão com suas montagens anteriores dentro do gênero – a cena das transformistas lembra As Mimosas da Praça Tiradentes – e exalta, de maneira oportuna, a brasilidade. Além disso, o espetáculo se impõe como realização competente que abraça os mitos populares e a concretude do contexto político.
FAFÁ DE BELÉM, O MUSICAL – Idealização e direção geral do projeto de Jô Santana. Texto de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche. Direção artística de Gustavo Gasparani. Com Lucinha Lins, Helga Nemetik, Laura Saab, Ananda K, Clarah Passos, Daniel Carneiro, Diego Luri, Fernando Leite, Gabriel Manitta, Keren Silveira, Mona Vilardo, Neieme, Sergio Dalcin e Thuca Soares. Teatro Riachuelo (R. do Passeio, 38/40). Qui. e sex., às 20h, sáb. e dom., às 17h. Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia entrada/balcão simples); R$ 100,00 e R$ 50,00 (meia entrada/balcão nobre); R$ 180,00 e R$ 90,00 (meia entrada/plateia); R$ 200,00 e R$ 100,00 (meia entrada/plateia vip).