A solidão e seus espaços

Maria Casadevall e Reynaldo Gianecchini em Um Dia Muito Especial (Foto: Priscila Prade)
Aclamado filme de Ettore Scola protagonizado por Sophia Loren e Marcello Mastroianni, Um Dia Muito Especial ganha nova adaptação para o palco, agora sob a direção de Alexandre Reinecke e com Maria Casadevall e Reynaldo Gianecchini nos papéis principais de Antonietta – dona de casa, mãe de seis filhos e submetida a cotidiano sacrificado ao lado de um marido embrutecido – e Gabriele – locutor de rádio demitido após a revelação de que é homossexual. Ambos moram no mesmo e populoso prédio e se conhecem por acaso no dia em que os vizinhos saem para assistir à passeata em comemoração à visita de Adolf Hitler a Benito Mussolini na Roma de 1938, às vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial, com o nefasto nazismo como regime imperante.
A transposição para a cena dessa história apresentada no cinema já esbarra num obstáculo. No filme, o prédio onde vivem os personagens é elemento fundamental pela expressividade das locações, tanto dos apartamentos quanto das áreas comuns, e pela grande dimensão arquitetônica, que realça o sofrimento de indivíduos anônimos em meio à frequente circulação de pessoas. Gera no espectador uma sensação de contraste: apesar de sempre cercados – pela quantidade de vizinhos e, no caso dela, pela família numerosa –, Antonietta e Gabriele são figuras solitárias. Conseguem firmar vínculo afetivo quando o prédio fica quase vazio. Para reconstituir a atmosfera do prédio no palco seria preciso uma engenharia de produção, a exemplo de espetáculos de Paulo de Moraes (Pessoas Invisíveis) e Felipe Hirsch (Avenida Dropsie), os dois escorados no universo do quadrinhista Will Eisner, e, ainda assim, não haveria como obter impacto semelhante ao do cinema.
Sem essa ambientação, a montagem de Um Dia Muito Especial recorre a painéis, seja através de projeção, na frente do palco, do contexto político em que a história se desenrola (procedimento documental que também abre o filme), seja por meio de cortina, ao fundo, que adquire colorações distintas de modo a valorizar os diversos estágios emocionais atravessados por Antonietta e Gabriele (iluminação de Cesar Pivetti, que particulariza momentos dos personagens). Para além desses recursos, o cenário de Marco Lima traz recortes dos apartamentos dos personagens, destacando as diferenças entre eles, em especial o fato de a moradia de Antonietta ser mais popular, com marcas de presença evidenciadas. Mas não demora muito para os personagens/atores passarem a transitar pelos dois espaços, o que torna a movimentação menos rígida e engessada, mais dinâmica. Na cena localizada no terraço do prédio, os espaços dos apartamentos são brevemente alterados com a descida de lençóis estendidos e do varal de luz.
Alexandre Reinecke, que assina a direção, adaptou o roteiro de Scola e Ruggero Maccari. Manteve-se fiel ao filme, mas eliminou boa parte dos personagens, preservando apenas aqueles que permanecem no prédio – Antonietta, Gabriele e a síndica, aparição episódica que atrapalha a privacidade dos dois primeiros e simboliza a moral repressora. Reinecke demonstra mais dificuldade na condução do elenco, que poderia ter sido encaminhado para um registro interpretativo mais interiorizado. Maria Casadevall reforça o perfil mais expansivo de Antonietta através do volume da voz. Na cena final, a atriz perde a oportunidade de expor a extensão da falta de perspectivas da personagem. E é prejudicada pela caracterização, excessivamente composta, a julgar pelo vestido (figurino de Debora Ceccatto), que deveria ter aparência mais desgastada pelo tempo. Reynaldo Gianecchini – ator que, ao longo de sua carreira, vem trabalhando com apreciável constância no teatro (volta a atuar com Reinecke após Sua Excelência, o Candidato, peça de Marcos Caruso e Jandira Martini) – se vale, mais que o necessário, do tom impostado do locutor, profissão do seu personagem, alcançando melhor resultado quando fala de maneira mais desarmada, menos artificial. Carolina Stofella surge em intervenções pontuais como a síndica.
Levado à cena brasileira há 40 anos – em montagem dirigida por José Possi Neto, com Gloria Menezes e Tarcísio Meira nos papéis centrais –, Um Dia Muito Especial administra, com alguma eficiência, as limitações na transposição do cinema para o teatro, mas não estabelece proximidade com as possíveis sutilezas contidas no meteórico e lancinante encontro entre personagens desfavorecidos pela vida.
UM DIA MUITO ESPECIAL – Texto de Ettore Scola e Ruggero Maccari. Direção de Alexandre Reinecke. Com Reynaldo Gianecchini, Maria Casadevall e Carolina Stofella. Teatro Claro Mais (R. Siqueira Campos, 143/2º andar). Sex., às 20h, sáb., às 20h30 e dom., às 19h30. Ingressos: de R$ 60,00 a R$ 200,00.