O ator em foco

Eric Lenate e Fernando Billi em Novas Diretrizes em Tempos de Paz (Foto: Leekyung Kim)
Dois textos – Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, e Uma Velha Canção, Quase Esquecida, de Deirdre Kinahan – reúnem personagens que trabalham como atores. No primeiro, quem exerce esse ofício é Clausewitz, polonês que desembarca no Brasil, em 1945, disposto a se tornar agricultor; no segundo, é James O’Brien, que, já idoso e limitado pelo Alzheimer, procura reter lembranças e evoca a própria juventude (materializada na “presença” do James do passado). Além do paralelo temático no plano da dramaturgia, as montagens valorizam o jogo de atuação – cada uma conta com dois atores (Eric Lenate e Fernando Billi/Genezio de Barros e Iuri Saraiva) em registros interpretativos que transitam entre a composição marcada e uma construção menos externalizada.
Novas Diretrizes em Tempos de Paz volta em montagem dirigida por Eric Lenate depois da bem-sucedida encenação, no começo dos anos 2000, de Ariela Goldman e da adaptação para o cinema, a cargo de Daniel Filho (Tempos de Paz). Encerrando temporada nesse domingo, no Teatro Poeira, o espetáculo chama atenção, desde o início, pela concepção cenográfica, do próprio Lenate, que consiste numa estrutura circular sobre a qual se encontram uma mesa, uma máquina de escrever e pilhas de jornal – um espaço entulhado, onde trabalha Segismundo, o funcionário da imigração, que, no passado recente, foi um torturador da ditadura de Getúlio Vargas. Essa estrutura pode ser percebida como síntese de um sistema burocrático: gira lenta e ininterruptamente ao longo de toda a apresentação sem sair do lugar.
A peça coloca o leitor/espectador diante do interrogatório a que Clausewitz, imigrante que aprendeu português estudando literatura, é submetido por Segismundo. No decorrer do diálogo/embate entre ambos, Segismundo, propenso a não autorizar a entrada de Clausewitz no país, revela sua terrível participação nas atrocidades cometidas durante o Estado Novo. Como condição para a concessão do visto ao estrangeiro, o interrogador determina que o ator o emocione. E no prazo de dez minutos. Clausewitz se vale, então, de sua experiência profissional e se inspira numa coincidência: a similaridade entre o nome de Segismundo e o do personagem de A Vida é Sonho, peça de Calderón de la Barca.
Nesse instante, contudo, há um problema na encenação de Lenate. Clausewitz deveria atuar diante de Segismundo de forma invisível, mas o ator/personagem muda de registro e passa claramente a representar frente ao interrogador. Mesmo que Segismundo nunca tenha ido ao teatro – e, portanto, não possua parâmetros de avaliação –, não soa muito verossímil a sua surpresa quando Clausewitz afirma que não o emocionou por meio de um relato real, e sim através do material fictício de uma peça de teatro. Em todo caso, Novas Diretrizes em Tempos de Paz – o texto – desponta como uma homenagem ao teatro. Talvez caiba traçar uma associação, ainda que longínqua, entre Clausewitz e Ziembinski, ator e diretor, também polonês, que desembarcou no Brasil em 1941 e desenvolveu trajetória bastante promissora por aqui.
Como diretor, Eric Lenate concilia a concepção de uma cena expressiva com a valorização do texto de Bosco Brasil. Os demais elementos não ganham tanto destaque quanto a cenografia, mas se impõem como criações orgânicas. Os figurinos de Jocasta Germano são fiéis à situação proposta na peça – em especial, o casaco de Clausewitz, com evidências de uso. A iluminação de Aline Sayuri e Lenate sinaliza transições dramáticas. No palco, Lenate e Fernando Billi interpretam personagens portadores de visões de mundo não só diferentes como destoantes (definitivamente, o idioma não é a única barreira de comunicação entre eles). Lenate investe numa composição de Clausewitz – e é inevitável que assim seja –, no que diz respeito a uma minuciosa construção de voz (sotaque). Mas a humanidade do personagem precisa sobressair e é o que ocorre na atuação de Lenate, deslocada apenas na passagem em que se empenha para comover Segismundo, interpretado por Billi com pertinente tensão nervosa, detectada na articulação do texto e no corpo. Novas Diretrizes em Tempos de Paz comprova a qualidade da peça de Bosco Brasil por meio de uma encenação propositiva.

Iuri Saraiva e Genezio de Barros em Uma Velha Canção, Quase Esquecida (Foto: Ronaldo Gutierrez)
Em Uma Velha Canção, Quase Esquecida – montagem da Cia. Ludens, dirigida por Domingos Nunez, que esteve em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo –, James O’Brien, ator assombrado pelo Alzheimer, escreve lembranças em pequenos papéis na tentativa de não se desconectar delas. Daí em diante, os principais acontecimentos de sua vida emergem, descortinados juntamente com o James ainda jovem: as rememorações da avó, “com os nervos à flor da pele”, e da mãe, entusiasmada com a carreira artística do filho, a aproximação afetiva/sexual com um amigo (abortada de maneira abrupta), o contraste entre o cotidiano em Dublin, onde cresceu, e em Londres, cidade efervescente para onde se muda, o vínculo com a namorada, com quem se casa (elo reforçado a partir de sua atuação numa montagem de A Importância de ser Prudente, de Oscar Wilde), as mortes dolorosas.
Nessa peça irlandesa de Kinahan, James, idoso, evoca a si mesmo na juventude e, com o seu duplo, “revive” períodos intensos, repletos de agitação febril. O jovem existe como uma espécie de guia para o idoso. Confirma memórias, complementa, diverge, ajuda a trazer fatos à tona, localiza dados no tempo e no espaço. Mas o James da juventude, muito antes de ser afetado pelo Alzheimer, também não lembra com perfeição. Afinal, não há como acessar o passado de modo completo, absoluto; aquilo que se lembra decorre da subjetividade – e da parcialidade – de quem vivenciou a experiência.
Essa integração entre estágios da vida de um único personagem exige atores sintonizados. É o que demonstram Genezio de Barros e Iuri Saraiva, que, em contracena fluente, se deparam com desafios distintos. Genezio realça a deterioração da memória, a fragilidade e o medo de esquecer, numa atuação mais concentrada, enquanto Iuri, além de expressar essa agonia, compõe, por meio de sotaques, entonações e desenhos físicos diversificados, personagens mencionados que atravessam a jornada de James. Ocasionalmente presentes no palco, os músicos Aline Reis, Mafê e Vinícius Leite tocam canções melodiosas que imprimem atmosferas. Só em certos momentos adquirem função dramática, como na cena em que um deles, ocultado por uma das transparências do cenário, simboliza o amigo de James.
A peça de Kinahan conjuga tempos e propõe que um dos atores se reveze entre o personagem central e outros circunstanciais, mas fundamentais. Domingos Nunez aproveita esses ingredientes e aposta numa montagem algo expandida, exteriorizada, “para fora”, animada por uma quase constante euforia corporal. O diretor poderia ter duelado com essas características do texto para priorizar uma linha mais intimista de encenação. Não são muitos os instantes em que isso se dá, como aquele em que um foco de luz envolve o James idoso mergulhado no movimento do próprio pensamento.
Os excessos marcam principalmente a cenografia de Marisa Rebollo, que mescla o abstrato com o concreto na alusão a uma paisagem urbana, com bancos que parecem pilhas de jornal. Apesar da neutralidade cromática do cenário (quebrada pela tonalidade vibrante da iluminação de Zerlô), há um acúmulo de sugestões visuais, desnecessárias considerando que os atores “projetam” imagens por meio do texto. Uma Velha Canção, Quase Esquecida, porém,contagia o espectador, a exemplo da bela cena final, quando James expõe a consciência de que está esquecendo, mas que, mesmo assim, todos permanecem “vivos nas profundezas das minhas artérias”.
NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ – Texto de Bosco Brasil. Direção de Eric Lenate. Com Eric Lenate e Fernando Billi. Teatro Poeira (R. São João Batista, 104). De qui. a sáb., às 20h, dom., às 18h. Ingressos: R$ 100,00 e R$ 50,00 (meia-entrada). UMA VELHA CANÇÃO, QUASE ESQUECIDA – Texto de Deirdre Kinahan. Direção de Domingos Nunez. Com Genezio de Barros e Iuri Saraiva. Músicos: Aline Reis, Mafê e Vinícius Leite.