Instigantes interferências

Luísa Arraes, Eduardo Sterblitch e Nina Tomsic na montagem de O Beijo no Asfalto (Foto: Bruno Marchetti)
Há uma conciliação, na nova montagem de O Beijo no Asfalto, entre a valorização “pura e simples” da peça de Nelson Rodrigues e as propostas cênicas do diretor Marco André Nunes. Nos primeiros minutos da encenação, em cartaz no Teatro Glaucio Gill, o palco é preenchido pelos atores/personagens, que começam a contar a história de Arandir, que, ao beijar um homem desconhecido na rua – último desejo manifestado por ele –, se torna alvo de uma perversa engrenagem armada pela imprensa sensacionalista e pela polícia corrupta e violenta.
O diretor não subverte a estrutura do texto e mantém, em planos separados, os familiares de Arandir e os maquiavélicos agentes do mundo externo. A partir de dado momento, os planos se misturam, na peça e no espetáculo, e os painéis que integram a cenografia de Aurora dos Campos passam a ser movimentados pelos atores, ocupando a cena. Essas plataformas são compostas por telas com persianas que tanto servem às projeções acionadas ao longo da apresentação quanto se constituem como biombos, barreiras – elementos que simbolizam personagens repletos de intenções ocultas e obscuras, de desconfianças, todos distantes da sinceridade, da transparência, de Arandir. Uma possibilidade de leitura que enriquece a apreciação da peça.
A concepção da cena se evidencia cada vez mais diante do público. No entanto, há proposições identificáveis desde o início, antes da assinatura da direção se revelar de maneira mais explícita, com o palco ainda vazio, por meio de alguns procedimentos. É o caso da inclusão, nas bordas da cena, de Laura de Castro e Nigga, que executam, ao vivo, a trilha sonora do espetáculo (de Felipe Storino) e interpretam pequenos personagens. Laura, em especial, canta músicas afinadas com as circunstâncias da peça e cria, através de recursos imprevisíveis (como um molho de chaves), sonoridades que colaboram para a construção de atmosferas. A arquitetura da cena também fica à mostra, principalmente da parcela do público que assiste à montagem nas laterais do espaço.
Esses espectadores têm experiências, em certo grau, distintas dos demais, que veem o espetáculo em disposição frontal. As duas plateias estabelecidas nas laterais acompanham a encenação quase de dentro, dos bastidores. A percepção de determinadas passagens muda de acordo com a localização do espectador: quem está de frente para o palco vê a cena através dos painéis da cenografia, que se impõem, propositadamente, como interferências ao olhar; já aqueles que assistem das laterais não se deparam com os elementos do cenário como obstáculos. Esse contraponto é reforçado pela expressiva iluminação de Renato Machado, que alterna a nitidez e o enevoado em diferentes instantes da encenação. Mas o público que acompanha a montagem de frente é favorecido em detrimento do que se encontra nas laterais, que perde, em parcela considerável, as imagens projetadas nos painéis e, em alguma medida, o trabalho dos músicos.
As projeções destacam acontecimentos da peça (como o banho de Dália flagrado por Arandir), imagens idealizadas (do casamento de Arandir e Selminha) que contrastam com a realidade descortinada pelo dramaturgo e atualizações – como a articulação com o “tribunal” das redes sociais, correspondência à repercussão dos jornais na década de 1960 – que não fornecem novas perspectivas sobre o texto. De qualquer modo, a conjugação entre passado e presente atravessa a encenação. Remetendo a um ambiente de época há o sintético mobiliário, os bons figurinos de Ronald Teixeira (apenas o vestido de Selminha parece destoar do perfil comportado da personagem) e, claro, as citações, agora históricas, da peça a veículos de imprensa (Última Hora, Tribuna da Imprensa) e figuras reais (o jornalista Amado Ribeiro, personagem do texto, Samuel Wainer, Carlos Lacerda).
São referências que trazem à tona o contexto em que a peça foi gestada: escrito sob encomenda para a atriz Fernanda Montenegro, então integrante da companhia Teatro dos Sete, O Beijo no Asfalto causou furor ao ser encenado por Fernando Torres, em 1961, temporada bem-sucedida, mas prejudicada pela renúncia do presidente Jânio Quadros.
Já a contemporaneidade surge representada pela mencionada associação com a esfera virtual e a substituição, na projeção, por um jornal de origem mais recente (Extra). Mas existe um outro tempo com o qual Marco André Nunes procura sintonizar a plateia. Antes da jornada de Arandir começar a ser exposta, o público ouve, durante breves minutos, os ruídos urbanos, o som das ruas do Rio de Janeiro. O diretor leva o espectador a se afastar provisoriamente do meio externo para mergulhar no universo do teatro. Trata-se de um instante de desaceleração, por mais que a história, assim como a de Vestido de Noiva (que, porém, é apresentada fora de ordem cronológica), inicie justamente com um atropelamento.
A imersão no imaginário de Nelson Rodrigues também é propiciada pelo elenco, que desenha com exatidão as características centrais e as facetas diversas dos personagens. Eduardo Sterblitch interpreta Arandir com adequada contenção. Acuado, o personagem só se descontrola no final, ao se ver abandonado por Selminha, quando o ator adota – e domina – um tom mais contundente. Luísa Arraes realça as transições e hesitações de Selminha, imprimindo, dessa forma, colorido emocional. Edson Celulari demonstra autoridade e habilidade com a palavra nas intervenções do austero Aprígio. Ernani Moraes compõe um Cunha expansivo, de gestos largos, mas sem reduzi-lo a um único diapasão. André Mattos faz um Amado Ribeiro permanentemente explosivo, sanguíneo. Nina Tomsic frisa o jogo de manipulação de Dália. Os outros atores – Vinícius Teixeira, Pedro Henrique França, Fernanda Dias, Alcides Peixe, Danilo Canindé, Guiga Camarate, Laura de Castro e Nigga – cumprem disciplinadamente e com precisão participações pontuais.
Mesmo com eventuais restrições, essa montagem de O Beijo no Asfalto comprova que a dramaturgia de qualidade, quando devidamente prestigiada na encenação, ainda sensibiliza o público de um tempo tão frenético e disperso quanto o de hoje.
O BEIJO NO ASFALTO – Texto de Nelson Rodrigues. Direção de Marco André Nunes. Com Eduardo Sterblitch, Luísa Arraes, Edson Celulari, Ernani Moraes, André Mattos, Nina Tomsic, Vinícius Teixeira, Pedro Henrique França, Fernanda Dias, Alcides Peixe, Danilo Canindé, Guiga Camarate, Laura de Castro e Nigga. Teatro Glaucio Gill (Pça. Cardeal Arcoverde, s/nº). Apresentações: dias 8 e 9, às 17h e às 20h e dia 15, às 20h. Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia-entrada).