Trancado por dentro

Durante o enterro de M.A.S., a jornalista Susana Schild, comentou, em sua prédica, que o irmão era tão generoso e preocupado em não incomodar ninguém que “providenciou” um dia fresco naquele meio de outubro, período normalmente marcado pelo calor da primavera. Esse perfil pacífico transparece em Vida de Papel (7Letras), livro – organizado por Susana e pelo filho Marcelo Schild Arlin – que reúne muito do material escrito por M.A.S., entre 1975 e 1993, na máquina ou a mão em folhetos que recolhia em suas andanças por Copacabana, bairro onde morou, no decorrer de toda a vida, ao lado da mãe.
Mas a serenidade de M.A.S. duelava com um lancinante conflito interior. Já no início do livro, fica evidente seu fascínio pelo corpo masculino (e, com menos frequência, pelo feminino, a exemplo da citação à atriz Anita Ekberg), atração nunca consumada durante os seus 69 anos. Como um indivíduo trancado por dentro – situação, de certa forma, imposta por problemas neurológicos e psiquiátricos que enfrentou desde a infância –, M.A.S. se permitiu bem pouco: apenas exercitar o voyeurismo por meio da observação de banhistas na praia e visitar ocasionalmente sex shops. Durante anos, ansiou pelo contato com massagistas masculinos e, em especial, pela ida a uma apresentação de A Noite dos Leopardos, na Galeria Alaska, a metros de sua casa, show de sucesso no qual os bailarinos entravam no palco nus e excitados. Mas temeu pela exposição.
Em grau considerável, M.A.S. atribuiu o medo de ser julgado à identidade judaica. Nascido no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, afirma ter sofrido, desde criança, com pesadelos relacionados ao Holocausto. “Mesmo com pseudônimo e tudo, como a comunidade judaica irá me encarar depois de ter escrito e publicado o livro?”, questiona. Não por acaso, os textos foram concebidos secretamente e só descobertos após a sua morte por Susana e Marcelo Schild (M.A.S. presumiu que o sobrinho seria o responsável pela publicação). Antes de virar livro, os escritos renderam uma exposição, que lançou o título Vida de Papel, realizada, sob a curadoria de Izabela Leal, em Belém, em 2019.
Além do receio de ser discriminado, M.A.S. achava que a prática sexual poderia levá-lo a contrair doenças – angústia talvez decorrente da culpa que sentia pelo modo como os desejos se manifestavam em seu corpo. Se por um lado permaneceu protegido dos eventuais riscos, por outro viveu atravessado pela frustração de fantasias não concretizadas (“…o sexo me espicaça, me atormenta e me consome, em uma tortura sem fim”). A dificuldade de estabelecer vínculos afetivos e sexuais determinou um quadro existencial de solidão aguda. “…acho que trago uma ferida incurável e levarei para o túmulo a sensação de frustração”, constata M.A.S.
A primeira – e principal – ausência na jornada de M.A.S. foi a do pai, que morreu precocemente. Não houve como preencher esse vazio através de elos com outros homens – M.A.S. morou com a mãe e a irmã e o convívio com figuras masculinas ficou reduzido, em boa medida, à interação com o médico S.C., que teve acesso aos escritos. Um diálogo entre ambos, inclusive, lembra a dramaturgia de Harold Pinter, que, em suas lacunas, estimula a imaginação do leitor: “Gostei do que li, pois você está começando a ter equilíbrio”, diz S.C. / “Como assim?”, pergunta M.A.S. / “É que você já está começando a saber o que quer”, aponta o médico / “E o que eu quero?”, indaga o paciente / “Você é quem sabe”, conclui S.C.
Vida de Papel surpreende duplamente: pela lucidez e consciência de M.A.S. em relação ao seu estado emocional; e pela qualidade e pelo rigor da escrita, tanto no que se refere à precisão das palavras quanto à construção das frases.