Intencional imprecisão

Chay Suede em Peca Infantil – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay, encenação dirigida por Felipe Hirsch (Foto: Mayra Azzi)
O título do espetáculo assinado por Felipe Hirsch, atualmente em cartaz no Teatro Casa Grande, faz referência direta e assumida a A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, romance de Laurence Sterne publicado na segunda metade do século XVIII. Entretanto, apesar de não ser uma formulação original, o título lança pistas sobre a natureza dessa encenação. A primeira delas envolve o trecho inicial, acrescido ao título da obra de base, e é nebulosa. “Peça Infantil” não anuncia uma realização voltada para o público infanto-juvenil. A classificação “infantil” também aponta para algo ainda não devidamente elaborado, amadurecido, o que não é o caso dessa montagem, que se aproxima, isto sim, da parcialidade, na contramão da transmissão de verdades absolutas a respeito de uma história de vida. Seja como for, há uma infância abordada em cena: a do ator Chay Suede, nesse solo que adere e, em contrapartida, se afasta da vertente autobiográfica.
Em substituição a “Tristram Shandy”, Chay Suede estampa no título o seu nome – Roobertchay –, sinalizando um (suposto) viés documental, que, porém, contrasta com a palavra “Cavalheiro”, que realça caráter ficcional – no campo do aventureiro, da literatura capa-e-espada. Trazer o passado à tona implica em ficcionalização, na medida em que os fatos são acessados e relatados a partir de uma percepção subjetiva e não de uma evocação imparcial. As lacunas da memória ganham destaque tanto no texto de Caetano W. Galindo (com colaboração de Felipe Hirsch), que apresenta episódios de uma trajetória de vida – mesclada à imaginação – por meio de estrutura fragmentada, ao invés de uma linha contínua, quanto na cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, composta por uma plataforma vertical destinada à projeção, mas com peças faltando, como um quebra-cabeças incompleto, o que interfere decisivamente nas imagens exibidas (vídeo-cenário a cargo de Radiográfico).
Essa intencional imprecisão transparece na exposição de acontecimentos que fundem realidade e imaginação e na temporalidade, bastante extensa na amplitude das citações visuais e, por outro lado, recortadas, tendo em vista a concentração de experiências localizadas na infância e na adolescência de Chay Suede. Os relatos são divididos em capítulos, indicados, de forma embaralhada, na superfície que cobre parte do palco. Mas o público não se depara exatamente com a revelação de vivências íntimas e intransferíveis. Até porque não há como captar um indivíduo puro, intocado, dentro de um contexto de representação, de um trabalho construído e mostrado diante de uma plateia. O artista inevitavelmente atua, perspectiva sublinhada pelas fantasias trajadas por Chay Suede em acréscimo à roupa austera – que também pode ser considerada uma fantasia (figurinos de Eliana Liu).
O que sobressai é o jogo cênico concebido a partir de oposições (verdade/mentira, realidade/imaginação, biográfico/ficcional, totalidade/fragmentação). Um jogo que se estende a um ocasional atrito entre um texto que busca a densidade poética e eventuais imagens que desconstroem, com algum deboche, a formalidade da escrita através de flagrantes do mundo pop televisivo e dos excessos de uma contemporaneidade caótica. Assim, texto e imagens não se reiteram; ao contrário, são conjugados com fricção que estimula a imaginação do espectador. Felipe Hirsch leva o público a estabelecer associações, a exercer uma apreciação pessoal de tudo o que se desenrola no palco. Mas o resultado é mais interessante na esfera da articulação teórica do que na prática da cena. A proposta não permanece instigante até o final.
Em todo caso, Hirsch confirma sua mestria na orquestração das diversas criações que integram o espetáculo. Em relação a Chay Suede, o diretor mantém o ator, no largo palco do Teatro Casa Grande, em movimentação reduzida. Em cada capítulo da jornada, Suede diz o caudaloso texto em pé, em posição frontal, seguindo as indicações espaciais delimitadas no chão. É uma opção que evita a armadilha de uma corporalidade dispersa, mas provoca uma certa exasperação, acentuando o risco da montagem. Suede surge contido, econômico, o que não significa que restrinja a atuação a um único diapasão. Encontra variações, discretas entonações, comprovando habilidade com a palavra. Não envereda por rompantes, imprimindo alguma contundência apenas na transição próxima ao encerramento da montagem, demarcada pela iluminação de Beto Bruel. Há uma noção de síntese no registro interpretativo de Suede que diverge da proporção grandiosa da encenação, ainda que menos monumental que outros espetáculos de Hirsch.
Peça Infantil – A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay, mesmo sem atingir plenamente a sua ambição artística, é mais uma prova da inquietação que move o teatro de Felipe Hirsch.
PEÇA INFANTIL – A VIDA E AS OPINIÕES DO CAVALHEIRO ROOBERTCHAY – Texto de Caetano W. Galindo (com colaboração de Felipe Hirsch). Direção de Felipe Hirsch. Com Chay Suede. Teatro Casa Grande (Av. Afrânio e Melo Franco, 290 – Loja A). Janeiro: qui. a sáb., às 20h30 e dom., às 19h30. Fevereiro: Sex., às 20h30, sáb., às 18h e 20h30 e dom., às 19h30. Ingressos: R$ 220,00 (plateia vip), R$ 200,00 (plateia setor 1), R$ 180,00 (balcão 2), R$ 160,00 (balcão 3).