A teatralidade do real

Reinaldo Dutra e Uriel Dames em Visto, montagem de Marcela Andrade em cartaz na Sala Preta do Espaço Cultural Sergio Porto (Foto: Thaís Grechi)
Visto, encenação em cartaz na Sala Preta do Espaço Cultural Sergio Porto, nasceu de experiências da diretora e autora Marcela Andrade e dos atores Reinaldo Dutra e Uriel Dames ligadas à realidade em Jardim Catarina, bairro de São Gonçalo, principalmente no que diz respeito à dificuldade em exercer o ofício artístico. A montagem, porém, não prioriza o terreno do documental e nem envereda pela linguagem realista.
Na esfera da dramaturgia, Dutra e Dames se colocam de maneira direta em momentos pontuais, mas se expressam com evidente grau de atravessamento. As particularidades de seus contextos sociais e econômicos aparecem embutidas na dramaturgia, que entrelaça individualidades e vivências comuns. Os personagens têm nomes determinados e, ao mesmo tempo, formam um “eu”, o que não deve ser interpretado como aniquilação das pessoalidades. Ocupam funções concretas (pai/filho, professor/aluno), sinalizam embates geracionais, transcendendo, contudo, a proposta de apresentação de uma história de estrutura linear.
O real e o metafórico também são conjugados na imagem da lona furada do teatro, mencionada com constância, perceptível tanto de modo literal quanto simbólica. Os elementos que surgem em cena, apesar de frequentemente referidos na narrativa (como a panela de pipoca), não são incluídos de forma reiterativa em relação à dramaturgia.
No palco quase vazio da sala, objetos despontam aos poucos na cena –reconhecíveis no dia a dia, mas não circunscritos ao plano utilitário (direção de arte de Arlete Rua). Giratórias de roletas de ônibus são ressignificadas, tornando-se asas, apenas para citar um exemplo. Marcela Andrade, portanto, inseriu objetos totalmente identificáveis, ampliando as possibilidades de associação por parte do espectador e realçando a teatralidade da encenação.
Reinaldo Dutra e Uriel Dames reforçam o tensionamento do realismo por meio de movimentos que extravasam os limites do corpo cotidiano. Os atores dialogam com a dança, mas sem aderirem ao coreográfico. Eventualmente, extraem sonoridades de seus corpos. Ambos se mostram entrosados na contracena, o que não anula certas diferenças de registro e resultado. Enquanto Dutra imprime presença algo monocórdica, o que não diminuiu seu pertencimento a esse projeto, Dames realiza um trabalho mais imprevisível e surpreendente, qualidades detectáveis na segurança do olhar nos instantes em que não necessariamente fala e na habilidade com que maneja a palavra.
A montagem de Visto traz à tona a constatação de que o teatro depende de recursos reduzidos para acontecer. A expressividade dos corpos dos atores, o domínio da palavra, as imagens precisas que emergem da ação/narração e da própria cena se somam nessa grata revelação no panorama da temporada atual.
VISTO – Texto e direção de Marcela Andrade. Com Reinaldo Dutra e Uriel Dames. Sala Preta do Espaço Cultural Sergio Porto (R. Visconde Silva, s/nº). Sex. e sáb., às 19h e dom., às 18h. Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada).